Diários de leitura: De Philip Roth a Chico Buarque

Segunda parte dos livros que li nos últimos meses

Como já contei num texto anterior, resolvi tentar resolver minha falta de habilidade em ler todos os livros que compro compulsivamente criando essa espécie de diário. Pensei que, quem sabe, publicando aqui tudo que acho sobre o que leio, talvez me anime a criar uma rotina de leitura.

Dia desses resolvi contar quantos livros comprei e não li e me assustei ao descobrir que estou ali na casa dos 70 livros não lidos. Quase pensei em começar um blog chamado “Um Ano Sem Amazon” à exemplo daquela menino que passou um ano todo sem comprar roupas novas porque já tinha tantas que podia passar um ano todo se vestindo apenas daquilo que já tinha.

Enfim. No último mês e pouco li três livros. Estou lendo outro. Mas sobre esse outro vou falar sozinho. Porque a ideia é mais ou menos essa: falar sempre de um livro só. Mas agora tenho que organizar as leituras passadas e vou falar brevemente de três livros. Sigo fazendo introduções gigantes. Prometo melhorar um dia.

“Jeito de Matar Lagartas” — Antônio Carlos Viana

Nunca havia ouvido falar em Antônio Carlos Viana, embora ele seja (descobri depois) relativamente famoso no meio literário por já ter ganhado alguns prêmios importantes. Eu descobri ele (e o livro) bastante por acaso. Caso vocês não saibam, vale explicar que eu escrevo sobre TV. Sim, TV, Globo, novelas, programas de TV e etc. Em uma das pautas do site, resolvi abordar a carreira de YouTuber da Regina Volpato (aquela que apresentava o “Casos de Família” no SBT). Pelos tortuosos caminhos da vida (e da internet) a Regina gostou do texto e acabou entrando em contato comigo. Gosto muito do que ela faz. Gosto muito do canal dela no YouTube e numa dessas entrevistas pro canal ela entrevistou justamente o Antônio Carlos Viana.

É que o Antônio Carlos Viana tinha escrito um texto dedicado à Regina Volpato porque pescou a história do conto do programa dela, o “Casos de Família” (que ele disse ver todas as tardes).

Causo contado, “Jeito de Matar Lagartas” é um livro de contos diversos, a maioria deles bastante curtos que versam sobre assuntos vários como solidão, velhice, vida no interior, sexualidade, entre outras coisas. Todas as histórias parecem se passar em lugares calmos, essas cidades pequenas nas quais parece que ninguém mora mais, mas todo mundo conhece alguém que já morou. De uma senhora que finge vender a casa para receber visitas, até a tragicômica história em que uma família tem que comunicar a morte de marido e filho de uma senhora durante o almoço, passando por crianças que tem como única diversão matar lagartas em uma cidade do interior; Antônio Carlos Viana nos conta de maneira muito simples e às vezes dura, às vezes doce, sobre como a vida pode ser.

Os contos acabam todos meio inacabados, mas não acho que isso prejudique as histórias. Inclusive, lembro de uma aula sobre contos na escola em que diziam que a característica deles era mesmo essa: acabar sem fim.

Da minha parte, li bastante rápido e gostei muito de algumas, menos de outras, como acho ser comum a livros de contos. Antônio Carlos Viana tem um jeito muito particular de ver a vida e de contar tristezas e tragédias às vezes com dureza e às vezes com um humor que te faz sorrir dos casos mais absurdos.

Fiquei curiosa quanto a outros livros dele. Esse é o último lançado, pela companhia das letras no ano passado. Não é difícil ver o livro figurar em lista dos melhores do ano de 2015. Não figura na lista dos meus livros preferidos da vida (do ano talvez, quem sabe), mas vale a leitura.

“O Teatro de Sabbath” — Philip Roth

Nota importante: sei de todas as acusações que pairam sobre a vida do Philip Roth: machismo, misoginia e antissemitismo. Se você é do grupo que não suporta ler um autor se não concordar com todas as opiniões (mesmo que as opiniões nesse caso sejam interpretações de outras pessoas) que essa pessoa tem na vida privada (ou que deixa transparecer em seus personagens) sugiro que nem invente de ler Philip Roth. Não vai dar certo. Mesmo.

Eu conheci o Philip Roth em uma aula de autoficção que fiz nas disciplinas especiais do mestrado na USP. Discutimos Philip Roth em uma das aulas porque ele tem um alter ego chamado Zuckermann. Com essa alcunha ele escreveu dois livros: Zuckermann acorrentado e Zuckermann libertado. Não é incomum que o Philip Roth use elementos da própria vida pra escrever. Também não é incomum que ele seja considerado um autor controverso. Também não é incomum que ele seja acusado de misoginia. Menos incomum ainda é você ver nos livros dele um personagem um pouco doente, um pouco perturbado e que tem lá suas perversões sexuais.

Isso dito, em o “Teatro de Sabbath” as perversões sexuais são levadas ao limite com o personagem de Mickey Sabbath, um diretor de teatro de marionetes com uma vida amorosa e sexual um tanto complicadas. Sua primeira mulher, Nikki, desaparece e logo depois ele se casa com Roseanna, uma mulher que trai com Drenka, sua adorada amante que topa (e se diverte) com todas as loucuras de Mickey (algumas das loucuras, inclusive, é ela quem sugere). Drenka morre subitamente e Mickey tem que lidar com a velhice, sua esposa ex-alcoólatra que vive para as reuniões dos Alcoólicos Anônimos, a artrite que o impede de manejar marionetes e todos os problemas que ser uma pessoa com estranhos modos e fantasias o faz enfrentar.

O livro é complicado de ler em algumas partes porque jogam muito com o que a gente acredita ser moral e ético. Mickey é o oposto da moral e da ética, é movido por seus desejos e seus traumas (perdeu um irmão precocemente na guerra) e por vezes nos soa uma pessoa asquerosa. Apesar disso, Mickey é essencialmente humano. Um humano controverso, é verdade, mas ainda assim humano no que há de mais feio (?) ou cru no humano.

Apesar do estranhamento em várias partes (pensei muito em “Meu Deus o que esse maluco tá fazendo?”), não consegui largar o livro. Ele é grande e eu li em quatro ou cinco dias. Gosto do jeito que o Philip Roth suscita questões complicadas e certos tabus (moral, velhice, sexo, religião) e gosto, principalmente, do escritor que ele é. Não à toa Roth tem inúmeros prêmios e é aclamado como um dos maiores escritores americanos de todos os tempos.

Quanto às polêmicas sobre o que ele é ou deixa de ser, prefiro deixar na mão de quem estuda o Roth mais a fundo. Acho sempre complicado isso de ligar o personagem à pessoa; eu, particularmente, tendo a não deixar de ler ou ver algo de alguém que entra em polêmicas dessa natureza. Ligasse eu muito, nunca continuaria vendo filmes do Woody Allen, uma figura bastante controversa na vida pessoal.

Noves fora, Roth é um escritor e tanto. Sabe como contar histórias, prender o leitor e escrever livros como ninguém. Mas, fica sempre o conselho: não adianta nem abrir um livro dele se não for com o espírito aberto. Eles tratam de questões pesadas e trazem atitudes e sentimentos que, às vezes, preferimos esquecer que existem. Mas que existem. E é bom que a gente saiba que estão ali. E que alguém tenha tido coragem de falar sobre elas. Principalmente se essa pessoa escrever como Philip Roth.

“O Irmão Alemão — Chico Buarque”

O Irmão Alemão ganhou algum prêmio importante logo que foi lançado (não sei se o Jabuti ou um outro qualquer), mas nem isso me fez morrer de vontade de ler. Acho (opinião pessoal) o Chico Buarque autor de literatura um escritor limitado. Gosto do Chico Buarque letrista, mas como escritor sempre acho que falta algo. O único livro que devorei dele foi Budapeste e achei todos os outros apenas ok.

Apesar disso, acabei vendo o documentário sobre ele, Chico — Artista Brasileiro e descobri que a tal história do Irmão Alemão é verídica. Chico teve mesmo um irmão alemão e descobriu a história uma vez que Manoel Bandeira deu com a língua nos dentes do segredo do pai. O livro, então, era além de uma história ficcional, uma procura pela própria história (o que chamam de autoficção, voltamos ao assunto). Foi aí que lembrei que tinha o livro no kindle e resolvi ler.

Chico tem um poder de fazer sempre um narrador espirituoso que conversa bem com o leitor. Diverte. Ele conta a história de um rapaz chamado Francisco que descobre que tem um irmão alemão e que vai atrás dessa história. A coisa toda se desenrola no meio da ditadura militar, mas passa meio que a brancas nuvens pelo assunto. Uma ou outra menção, mas nada muito relevante.

O livro, em si, não traz nada de muito relevante. É legal por ser a ficção de um assunto real, de misturar fantasia e realidade e o começo te prende bastante, mas do meio pro fim o livro se torna um pouco monótono. É o tipo de livro que fico feliz de não ter comprado porque dificilmente ia querer ler de novo. Não fiz nem grifos, pra que vocês tenham uma noção.

Não sei o que fez as pessoas acharem o livro tão incrível. Talvez a não ciência da história real? Descobrir no fim do livro (tem uma nota explicativa) que se tratava da história do próprio Chico? Não sei.

O único livro do Chico que eu recomendaria a leitura segue sendo Budapeste. Quanto ao resto, melhor as canções.

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No momento estou lendo “Magnólia”, do Bernardo de Carvalho. Tinha começado “Atlas de Nuvens” mas me deu bode de ler no kindle na versão que achei na internet (diagramação péssima mesmo pra uma versão digital) e estou esperando chegar o livro físico. Volto com Magnólia assim que terminar. Tem ido rápido. Já adianto que é um livro desses difíceis de largar.