nossa vida cabe num verso de uma canção do aerosmith

love is love reflected

hoje enquanto voltava para casa com a minha mãe de táxi eu pensava em várias coisas. coisas costumeiras tipo o fato de eu ter de novo esquecido de comprar pó de café, ou o fato de eu estar de novo atrasada pra escrever meu texto matinal do trabalho, ou até o fato de porquê raios o fernando & sorocaba resolveram escrever uma música celebrando o dia do pagamento (embora eu ache o sentimento genuíno, também comemoro) e o taxista tinha que deixar justamente naquela música.

não me entendam mal, não sou do tipo que detesta as músicas que os taxistas ouvem (geralmente até gosto) e não sou do tipo que vai de uber em são paulo porque pode escolher a rádio (tanto não escolho que frequentemente acabo ouvindo jogo de futebol com o motorista). eu sou inclusive o total oposto disso, o tipo de pessoa que percebe que o taxista se fingiu de morto pra aumentar o caminho mas mesmo assim não reclama porque tem medo de represálias, de ser deixada no meio do caminho, de ser estuprada pelo taxista e mais um amigo (já leram essa história no face? fiquei traumatizada pra vida).

bom, o fato de eu não escolher a rádio no táxi me rendeu além da oportunidade de conhecer mais um sertanejo universitário genérico, a chance de me reencontrar com a minha adolescência, já que a rádio que o taxista ouvia não tinha nenhum compromisso com a coerência e logo depois do sertanejo mandou sem dó um areosmith anos 90, mandou sem dó um steve tyler cantando full circle.

quando eu era mais jovem e acreditava em conceitos idiotas e flutuantes como gosto musical bom e gosto musical ruim eu ouvia muito aerosmith. obviamente porque eu achava que essa banda se incluía na categoria “gosto musical bom” e porque quase todo mundo na época ouvia aerosmith já que os clipes deles passavam bastante na mtv (se você tem vinte e poucos anos e não cansou de ouvir fly away from here eu não sei em que caverna você se enfiou). depois de escaranfunchar bastante a discografia deles (no camelô, e nas lojas americanas, não existia banda larga e spotify na época) eu acabei gostando muito de um disco de capa vermelha, que obviamente não me lembro o nome e que tinha full circle. por alguma razão que não sei (talvez pela melodia, talvez pela letra um pouco melancólica), essa se tornou uma das músicas preferidas da minha adolescência. tanto foi que não foi nem um pouco difícil pra mim lembrar todos os versos da canção hoje no táxi, dez anos depois de eu ter deixado de ser uma adolescente fã do aerosmith.

quando uma música velha te atropela feito um furacão, muita coisa vem à sua cabeça sem que você peça. eu me lembrei de quando eu tinha uma calça horrível jeans e cheia de fivelas que eu usava com um all-star que eu proibia terminantemente a minha mãe de lavar; eu lembrei de uma amiga minha que era muito amiga minha (e agora não é mais) e que achava o steve tyler bonito; eu pensei no quanto a gente cresce e no quanto as coisas ficam piores e mais difíceis e no quanto a gente fica mais amargo e terrível no espaço quase-curto que são dez anos; eu pensei que eu nunca mais precisei comprar pilhas pra usar no meu diskman e eu também pensei que muita coisa muda em dez anos, mas que certas frases de uma canção do aerosmith podem durar pra sempre.

minha vida não anda das mais fáceis, mas também não tem muito do que reclamar. não sou uma musa fitness patrocinada por todo o tipo de comida natural ou não, e mal tenho dinheiro na conta, mas todo o resto a gente segue levando. engordei um pouco, perdi um freela, certas roupas não me cabem mais, tem caso de doença na famílai, mas mesmo assim todo dia tem um pouco pelo que agradecer. e um pouco porque lamentar também.

um dos problemas de crescer é que tem muita gente que some da sua vida sem maiores explicações. se você achava que a adolescência era uma parte chata porque seus amigos constantemente te trocavam pelos novos namorados deles, espere chegar a juventude, quando seus amigos vão te trocar não só por namorados como por casamentos, novas propostas de emprego, chances profissionais, encontros do tinder e até mesmo por uma festa com gente que você não suporta nem o avatarzinho no facebook. espere até demorar uma semana pra você conseguir um dia em que todo mundo possa sair porque ninguém tem date, namorado, compromisso profissional ou festa que não pode perder. a vida adulta te come pelo meio e pelas beiradas porque ao mesmo tempo que te dá muitas responsabilidades, te tira muito daquilo que você construiu a troco de muita conversa do msn até às três da manhã. a vida adulta te tira gente, tempo, e até a capacidade de falar sobre sentimentos. não lembro qual foi a última vez que passei duas ou três horas só falando daquilo que eu estava sentindo. e nem adianta botar a culpa nas mídias sociais. a culpa é da gente mesmo. da gente que cresce e vai ficando mais egoísta. da gente que fica adulto e acredita muito mais do que deveria na máxima de que “você deve ser feliz sem se importar com os outros”, quando deixa eu te contar um segredinho: você tem que ser feliz sim, mas você tem que se importar com os outros também.

tá, mas o que tudo isso tem a ver com a tal música do aerosmith? tem a ver porque a razão de eu gostar da música, com dezesseis anos, era o fato dela falar sobre o tempo. de não deixar o tempo passar sem fazer nada com ele, de ligar pro que realmente importa e toda essa bobajada que a gente leva bem a sério quando tem dezesseis anos, mas que começa a achar só bobajada quando completa vinte e seis.

só que não é bobajada. no fim o steve tyler está certo quando diz (cafonamente) que love is love reflected. porque é mesmo, não é? se a gente continuar dando amor aos outros, mesmo que a vida adulta seja uma merda, pode bem ser que a gente receba amor de volta.

talvez, tudo que a gente precise quando fica mais velho é se lembrar de um verso cafona de uma canção dos anos noventa e tentar ser um pouco mais como a gente era quando jovenzinho (só que sem as roupas ridículas).

ou só se irritar menos com as músicas que os taxistas ouvem, sei lá.

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