sobre aniversários, ausências e a ana maria braga

fazer vinte e sete anos é um limbo de existência

Se alguém me perguntasse há uns três anos atrás, como eu achava que estaria passando o meu aniversário de vinte e sete anos, eu não responderia nada parecido com o que aconteceu semana passada, quando enfim completei os tais vinte e sete anos. Anos atrás, eu muito provavelmente me imaginaria em são paulo, passando aniversários com gentes que naquela altura ainda nem tinha conhecido enquanto terminava um mestrado de assunto qualquer em uma usp ou puc da vida.

não aconteceu (acho que agradeço, olhando em perspectiva).

Se me perguntassem há um ano e pouco atrás eu diria que estava com medo da minha mãe não passar meu vigésimo sétimo aniversário comigo (mas ela passou, e ainda me fez bolo) e eu imaginaria pessoas completamente diferentes ocupando o sofá da minha sala dias depois de eu ter, enfim, completado os tais vinte e sete anos.

Vinte sete anos, se eu fosse uma artista famosa seria uma idade complicada porque a amy winehouse e, se não me engano, o kurt coubain morreram nessa idade e isso criou uma teoria conspiratória chata e alguns programas na época que a MTV ainda não apresentava reality shows tentando fazer o Supla arrumar uma namorada.

Vinte e sete anos, pra mim, é só uma idade estranha em que eu agradeço porque minha mãe está viva e luto pra continuar pagando a assinatura do spotify, mesmo com a crise e mesmo com os meus trabalhos mais instáveis do que o preço do dollar. Vinte e sete anos, também, vai saber porque, acabou sendo um ano de passagem.

Eu não sou uma pessoa muito fácil. Tenho orgulhos bobos, guardo bastante rancor, não gosto quando a Cissa Guimarães e o André Marques substituem a Ana Maria no Mais Você e tenho uma mania complicada de não saber manter amizades por muito tempo se eu não ver as pessoas pelo menos a cada quinze dias. É por essa razão que frequentemente perco contato com meus amigos mais antigos, justamente aqueles que entendem perfeitamente quando eu coloco Lucas Lucco e Radiohead em uma mesma playlist e que nunca levam skol pra eu tomar. Não sou muito boa nisso de mandar mensagens perguntando como vai a vida, se estiver muito atarefada não compareço à aniversários porque vai ter os novos amigos dos meus amigos antigos (e nunca faço questão de conhecer gente nova), e imagino que já esqueci de dar parabéns para pelo menos quatro pessoas que considero muito no coração, mas no dia eu tava meio sei lá, muito complicada tentando escrever seis notinhas sobre novelas variadas.

Mas 2015 foi diferente, em 2015 veio problema, treta complicada, doença na família e com isso, estranhamente, perdi alguns dos meus amigos que, se me perguntassem, eu certamente diria que estariam comemorando meu aniversário de vinte e sete anos comigo, ou ao menos teriam me mandado parabéns no facebook. Aquela Larissa de 2015 teria se enganado redondamente, porque as coisas mudaram de tal maneira que, se eu botasse frente a frente a foto do meu aniversário de 2009 comparada com uma foto que tirei dias depois do meu aniversário em uma visita que meus amigos me fieram, a gente só notaria ausência de gente que mudou de cidade, mas que se estivesse aqui, certamente teria comparecido (eles todos mandaram parabéns pelo facebook). Adicionaria mais duas pessoas novas que vieram depois, mas de resto, tenho que admitir que toda aquele papo batido sobre manter as pessoas que sempre estiveram com você por perto, é bem verdade.

A vida adulta é um troço estranho. Minha mãe sempre diz que a gente nunca conhece completamente as pessoas, mas eu nunca acreditei muito nesse papo. Minha mãe tende ao pessimismo, ao rancor exagerado e a duvidar solenemente do amor romântico. Apesar disso, ela frequentemente acerta, e ela estava muito certa quando me disse que a gente nunca conhece as pessoas, mesmo quando acha que conhece muito bem. Com vinte e sete (ou, pelo menos, quase chegando lá) anos tive que lidar com decepções com pessoas que eu apontaria facilmente como a pessoa que estaria ao meu lado houvesse o que houvesse. Eis a verdade: a gente nunca conhece muito bem as pessoas. E essa constatação também nem é uma coisa de rancor, de “espero que a vida ensine uma lição”, nem nada disso. Rancor mesmo eu só sinto da Globo por botar a Cissa Guimarães e o André Marques pra substituir a Ana Maria Braga. Dessas situações eu só sinto um certo pesar combinado com um suspiro que diz “é a vida”. E é mesmo. A vida é assim: afasta e aproxima a gente nos momentos mais inesperados, e tem vez que a gente não pode fazer muita coisa além de aceitar. Aceitar a vida, inclusive, é uma das lições que esses vinte e sete anos completos me trouxeram. Espernear, amaldiçoar, mandar indireta em rede social e forçar DRs com a vida (ou com as pessoas) é algo que, no fim, não ajeita e nem bota nada no lugar. Melhor aceitar, que como já diria aquele dito popular, dói menos.

Uma semana depois de completar vinte e sete eu não tenho metas muito bem estabelecidas, mas a assinatura do Spotify está em dia pelo menos por uns dois meses. Eu tenho uma viagem marcada pro Rio, tenho lido mais, trabalhado com cada dia um pouco mais de responsabilidade e acordado cedo pelo menos duas vezes por semana pra correr. Quando não dá, pratico pilates em casa. Tenho meus projetos, em que acredito, e um astigmatismo aumentado que impede que eu passe muito tempo no computador me dedicando à eles. Tenho um metabolismo mais lento, seis quilos a mais do que quando eu tinha vinte e quatro (quero perder, sou vítima dos estereótipos da sociedade) e finalmente comecei a beber água. Aprendi que a vida não é exatamente do jeito que a gente quer, mas não tem muito jeito além de aceitar isso que ela nos deu. Pretendo parar de dizer em vão “vamos marcar qualquer dia” pros meus amigos de anos e realmente marcar sempre, em vários dias, porque com vinte e sete anos, valem muito as pessoas que ainda tem histórias de quando você conseguia varar a noite bebendo cuba libre e ainda ser uma pessoa funcional no outro dia. Vale muito quem, por livre e espontânea vontade, ainda faz questão de estar.

De resto, só quero a Ana Maria de volta no Mais Você e finalmente ter coragem de ir ao banco. Porque, afinal de contas, de que adianta ter vinte e sete anos e um cartão bloqueado por pura preguiça de enfrentar agência bancária?

Bem, não se pode ter tudo.

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