Íris

Jessica Ferreira
Sep 9, 2018 · 2 min read
#penelope dullaghan

Para Maria Deus deu um par de olhos azuis.

Era assim que a bendita mãe apresentava a filha do meio aos conhecidos. Maria e seu 1, 50 m de altura, era lembrada pelos olhos cintilantes.

Por muito tempo, sem que ninguém soubesse — e quem entenderia? — ter olhos azuis foi um martírio para aquela mulher. Enquanto para a mãe era dádiva, presente dos céus, benção divina, para Maria havia sido um engano. Um descuido em sua fabricação. Pois ao olhar o espelho, e veja, via-se tanto na infância, do reflexo no copo à transparência do vidro da estante, enxergava-se com um rosto fragmentado e bruto. Fragmentado porque não conseguia ver o rosto inteiro apenas sendo. Ela olhava para cada item de forma estranha e separada do contexto. Bruto porque sentia que lhe faltava a vivacidade que sobrava em suas irmãs, não tinha o brilho de uma beleza que, mesmo simples, refletia uma harmonia. Sentia que os olhos destoavam de todo o resto: sobravam e sabiam disto. Mal acompanhavam o contorno daquela cara larga e “bolachuda”, como se alguém tivesse feito muita força para caber em um espaço nada simétrico.

Não bastou envelhecer para enxergar o próprio olho com mais apreço. Pelo contrário, tinha a triste sensação de que todos os seus amantes mergulharam no raso de um único elogio: seus olhos são tão bonitos. Ouviu uma vez que o sonho de um rapaz era ter filhos com o seu DNA só para copiar a benção daquele azul.

Às vezes se culpava por não conseguir ser grata com o rosto que lhe deram, mas simplesmente não sentia nenhum vínculo ou conexão com parte daquele corpo. Era como se tivessem colado olhos de outro em seu rosto e por única opção devesse aceitar de bom grado.

Eu te juro que ela tentou infinitas vezes gostar daquele que deveria ser um mero detalhe. Em muitos momentos demorou-se no espelho enfeitando sua face para sair. Para ficar exposta. Sublinhava a pele com tinta escura e explorava o olho com sombra e rímel. Mas quando a olhavam o retorno continuava o mesmo: Que olhos bonitos, Maria.

E silêncio.

Era só isso?

Era pecado querer mais?

Era vaidade excessiva desejar que alguém a descesse?

Eu, como narrador dessa história, creio que o problema estava em Maria acreditar que ela toda era apenas seu olho. Como se toda beleza iniciasse no glóbulo e terminasse nele mesmo. Como se toda existência sumisse sempre que piscasse.

Jessica Ferreira

Tem uma neurose no meu texto. https://temumaneurose.tumblr.com

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