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Acordou com a certeza de que já era de manhã. O corpo suado encostava no outro corpo que ainda dormia. Olhou para o relógio e levou um susto. Ainda era madrugada, poderia continuar dormindo por longas horas. Em outros tempos saber disso provocaria uma alegria motriz: perceber que possui o privilégio de dormir mais era uma espécie de bônus surpresa, era como um carinho de deus. Mas dessa vez sentia uma energia invasiva (e que nem parecia sua) nunca foi essa pessoa, pelo contrário, acordava mal humorada e ranzinza. Seu marido dizia que de manhã ela parecia incorporar uma idosa de 60 anos, com dor nos ossos e uma impaciência crônica. Quando qualquer movimento atrai uma irritação.
E o que fazer com esse sentimento estranho? Se virava para um lado a sensação deslocava-se junto. Grudada no corpo. Finalmente eram três disputando a mesma cama.
Já que agora tinha o tempo não-planejado, resolveu pensar em teorias para interpretar “aquilo” que havia surgido. Seria a passagem dos planetas? O sol em Virgem? A lua em Libra? A mudança climática? A entrada de um novo ciclo?
Naquele momento a agitação era tanta que poderia começar a fazer o almoço daqueles bem elaborados, estilo ceia de natal. E depois ainda teria ânimo para uma faxina. Dessa vez limparia com muito detalhe. Dedicaria toda sua atenção nas coisas porque seu corpo estava para ela como nunca esteve.
Mas não quis acordar o marido. Ou alguma preocupação. Preferiu dar conta do movimento em solitude. Olhou para o que tinha dentro e explicou: fique o tempo que precisar, só não faça muita bagunça.
Agora era 6h da manhã. Daqui a pouco o marido também acordaria e notaria que ela continuava a mesma. Que, ainda por cima, tinha usado suas horas de tédio para vigiá-lo dormindo, mas que aquilo não era uma obsessão estranha com um “pézinho” no voyeurismo. Simplesmente foi atacada por uma insônia sem motivos. Se ele perguntasse ela diria bem assim: não tenho nada a me preocupar, estou em dia com as minhas neuroses.
Talvez seja essa a intenção. O silêncio é convidativo para a loucura. O fato agradável de ter mantido a mente arejada, limpa de paranoias, vícios e culpas, abriu espaço para outro sentimento. Era como se precisasse ter algo para sentir, pois não sentir nada adiantaria seu fim.
Então encaixou as suas pernas nas pernas do marido e prometeu para si mesma que voltaria com as sessões de terapia com urgência.
