Moderny Love e Depressão

Jessica Ferreira
Nov 7 · 2 min read
Lexie em um dia bom

Ontem assisti ao terceiro episódio de Moderny Love, uma série nova da Amazon Prime. E fiquei conversando com uma amiga sobre o impacto daquela história em nós (pessoas com ansiedade). Elegemos esse episódio como o preferido.

O episódio gira em torno de Lexie e a forma como ela se relaciona com o mundo.

Comecei achando uma grande utopia a cena do mercado. Me lembrou o filme “minha vida sem mim”, que é um dos meus preferidos, quando a protagonista diz que ninguém pensa em morte no supermercado.

Lexie respira vida.

Flutua pelos corredores de laticínios como se estivesse em um musical ou na abertura de sua própria série: o mundo todo conspirando a seu favor.

Mas depois fui entendendo que aquilo tudo era uma metáfora para a efusão. Para o momento que a depressão descansa, sai de cena, dá espaço. E toda aquela alegria contida surge de maneira desproporcional.

O corpo em desajuste com aquilo que é estranho acaba cedendo ao teatral. Quando o ridículo de si fica exposto.

Pois filmes demais.

Séries demais.

Livros demais.

E se o seu imaginário for tão criativo como o de Lexie teremos um novo filme da disney.

Até o dia seguinte

Ou horas depois

Quem sabe?

No outro dia Lexie não consegue levantar da cama. Nem ir ao supermercado, comer pêssegos, planejar um encontro. Descobrimos que Lexie possui transtorno de bipolaridade.

Varias coisas me tocaram nesse episódio.

Principalmente a necessidade implicita que ela sente em compensar o outro.

Sendo alguém com ansiedade, em muitos momentos senti uma culpa gigante por ter o transtorno. Como se ele me possuísse inteiramente e eu me reduzisse aos sintomas. Muitas vezes me ouvi dizendo coisas como “não deve ser fácil ser amiga de alguém assim” ou “me desculpa por não ser uma namorada normal”.

Em muitos momentos eu também preparei um jantar de desculpas. E em outros tantos fiquei presa sem conseguir sair.

Presa dentro do quarto. No banheiro do trabalho. No estacionamento do shopping. No tumulto do metrô.

Presa dentro da minha cabeça em um circuito de pensamentos ruins.

No fim Lexie consegue compartilhar com uma amiga sobre sobre a sua saúde mental e, finalmente, liberta-se da obrigação do encaixe social. Ela assume o que é sem que aquilo se torne um estigma. Ou uma redução de si.

Quando a amiga pergunta como ela se sente agora, Lexie compara com a sensação de tirar a pata de um elefante do seu peito.

É isso. Uma pata de elefante que pressiona seu peito te fazendo murchar. Quando ela sai parece que a gente reaprende a respirar.

Written by

Tem uma neurose no meu texto. https://temumaneurose.tumblr.com

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade