Para não dizer que eu não falei da culpa

Poderia culpar meu inferno astral
A lua em algum lugar que eu não vejo
Ou algum significado místico que eu não entendo
Mas ainda assim restariam as marcas.

Poderia dobrar as consultas com a minha analista
E economizar nas “saideiras” até a drogaria da esquina
E resgatar o troco das balas que mastigo para não pensar na multidão
Mas ainda assim restariam as dívidas.

Poderia culpar a relação com o meu pai
E como todos passaram a romantizar o perdão
Voltar para épocas mais arcaicas da nossa convivência
Quando o olhar também era violento
Mas ainda assim restariam as incompreensões.

Porque uma hora 
E essa hora sempre chega
Os atalhos para não acessar essa história se convertem em uma via única
E o nosso encontro se torna inevitável
Esse momento que tenho que olhar para dentro e reconhecer a minha própria cara exposta
Ou eu liberto
ou fecho a porta.

Escrever tem sido a minha saída.