Silêncio

Jessica Ferreira
Nov 7 · 2 min read

“Quanto tempo nossos ouvidos conseguem suportar um barulho recorrente?”

Ela me perguntou enquanto mastigava o pão de milho. Massa amarela subindo e descendo. Caninos brilhando em minha direção.

“Acho que muito tempo. Por que essa pergunta?”

Ela tinha esse lance, me de a licença para usar esse termo juvenil, mas que eu considero assim, pois é algo apenas dela. Sabe quando você vai descrever uma pessoa, mais especificamente uma característica da personalidade dela e a primeira coisa que vem em mente é a mais forte? É aquela que se encarrega de impulsionar milhares de lembranças que existiram entre vocês.

O lance dela era fazer perguntas aleatórias e fora de hora.

(Aqui ela questionaria que não existe hora para pergunta, mas vale lembrar que não é comum ouvir questionamentos sobre a origem do arroz com batata palha em um velório, por exemplo)

“Porque esses dias um alarme disparou na minha rua. E no começo todos pensaram que logo iria parar, afinal, é só mais um alarme irritante. Mas o barulho continuou insistentemente. Até que todos os vizinhos presentes foram para janela — inclusive eu — e depois para a porta e, em seguida, até o carro. Daí que gerou uma comoção em volta do automóvel, aquele aglomerado de pessoas de roupões, pantufas e toalhas na cabeça. Alguns com filho no colo outros com o filho já perdido no capô vermelho.

E ninguém sabia de quem era o carro. Dona Maria palpitou que era de um mimado que morava na esquina, já a Lurdinha jurou de pé junto que o carro era roubado, pois ela morava nessa rua desde 1982 quando isso aqui era mato, lembra, Nestor?

(…)

Lá do alto da minha janela, estilo Rapunzel de audição prejudicada, fiquei pensando por quanto tempo as pessoas aguentariam viver com aquele barulho até começarem a depredar o carro com pedaços de madeira pontudas, enquanto alguns só choram de dor nos tímpanos, outros gritam e eu imagino.

Tem sempre alguém imaginando algo mais.

Mas depois de tantas especulações, ameaças e Dona Lurdes contando histórias incríveis, algum morador disse que em breve a bateria “arriaria” fazendo com que o alarme desligue sozinho.

Foi isso, na verdade.“

“E você ficou lá esperando?”

“Não, eu acabei dormindo com o barulho”

“Então é isso. A gente se acostuma. Eu te diria isso, a gente se acostuma”

Nos despedimos. Ela sacudindo a blusa com farelos do pão, eu tentando correr a tempo do último ônibus passar.

Fui pra casa pensando na história dos barulhos.

E nela.

Jessica Ferreira

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Tem uma neurose no meu texto. https://temumaneurose.tumblr.com