Volto para os meus três anos de idade
Nem preciso de hipnose, essa memória tem vida própria
Tão certeira quanto as cobranças do aluguel que a mulher socava na fresta da minha porta.
O nome dela era Esmeralda. Ela fedia cigarro
Lembro da minha mãe dizer que ela odiava crianças
Então eu não poderia ficar perto
Mas como esquecer se o único lugar que eu tinha para brincar era coberto de pólvora?
Nossa casa de três cômodos com aquele banheiro do lado de fora
Teve aquele dia que ao abrir a porta me deparei com um rato invadindo nosso espaço
Eu presenciei uma batalha entre a vassoura na mão da minha mãe e o animal pulando nos cantos
Até que o cabo se repartiu em dois pedaços e a minha mãe começou a chorar desesperada: eu não aguento mais
“Mãe, tá tudo bem, a gente compra outra vassoura”
Eu achava que depois disso tudo ficaria bem.
O chão da nossa casa era coberto por um piso vermelho
Que quando a gente pisava soltava uma tinta e manchava a meia
Eu achava que a caipora tinha se esfregado o dia inteiro nele
E por isso tinha medo das vezes que ela aparecia na TV.
Nesses tempos minha mãe trabalhava em dois empregos
Éramos três em casa, mas essa conta não batia no final do mês
Porque de noite era ela que cobria os buracos da janela com pano
E me explicava que as paredes não estavam chorando
O nome disso era infiltração.
