Jessica Ferreira
Aug 27, 2017 · 1 min read

Volto para os meus três anos de idade

Nem preciso de hipnose, essa memória tem vida própria

Tão certeira quanto as cobranças do aluguel que a mulher socava na fresta da minha porta.

O nome dela era Esmeralda. Ela fedia cigarro

Lembro da minha mãe dizer que ela odiava crianças

Então eu não poderia ficar perto

Mas como esquecer se o único lugar que eu tinha para brincar era coberto de pólvora?

Nossa casa de três cômodos com aquele banheiro do lado de fora

Teve aquele dia que ao abrir a porta me deparei com um rato invadindo nosso espaço

Eu presenciei uma batalha entre a vassoura na mão da minha mãe e o animal pulando nos cantos

Até que o cabo se repartiu em dois pedaços e a minha mãe começou a chorar desesperada: eu não aguento mais

“Mãe, tá tudo bem, a gente compra outra vassoura”

Eu achava que depois disso tudo ficaria bem.

O chão da nossa casa era coberto por um piso vermelho

Que quando a gente pisava soltava uma tinta e manchava a meia

Eu achava que a caipora tinha se esfregado o dia inteiro nele

E por isso tinha medo das vezes que ela aparecia na TV.

Nesses tempos minha mãe trabalhava em dois empregos

Éramos três em casa, mas essa conta não batia no final do mês

Porque de noite era ela que cobria os buracos da janela com pano

E me explicava que as paredes não estavam chorando

O nome disso era infiltração.

)

Jessica Ferreira

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Tem uma neurose no meu texto. https://temumaneurose.tumblr.com