Eu vou te ver amanhã

Imagine passar uma semana inteira com uma pessoa incrível, que você acabou de conhecer. E o melhor: essa pessoa não é brasileira. Durante seis dias, vocês trocam experiências, tomam café da manhã juntos, por vezes até almoçam e jantam juntos, vão a lugares juntos… tudo é incrível e novo. Mas você sabe que isso é temporário. Quer dizer, você sabe que vai ter que ir embora alguma hora, afinal, você está fazendo apenas uma viagem de férias. Você está só visitando um determinado lugar — e a outra pessoa também.

Eu amo viajar. Mas, quando uma viagem acaba, eu fico um pouco deprimida. Sério. Isso acontece porque eu me conecto muito rápido com os lugares que visito — deve ser por isso que eu sempre acabo prologando minhas viagens. A pior parte é que, além de me apegar ao lugar, eu também acabo me apegando nas pessoas. Por mais que eu saiba que sempre chegará a hora de ir embora, eu sempre acabo me conectando demais em alguém.

E isso é uma droga.

Na minha última viajem conheci uma americana*. Ela era incrível, muito divertida, honesta , generosa e espontânea, falava tudo o que vinha em sua mente. Nós nos conhecemos no local onde eu estava hospedada e, na mesma noite, fomos num bar com uma galera. Desde aquele dia, nós passamos muito tempo juntas. Conversávamos sobre tudo: sobre a situação política do Brasil, sobre os Estados Unidos, sobre nossos sonhos e nossas viagens… foi incrível. Ela se tornou uma grande amiga para mim, o que foi ótimo, levando-se em consideração que eu havia perdido uma grande amiga há alguns meses.

Mas, como sempre, chegou a hora de ir embora. Era um sábado, o penúltimo dia de minha viagem. Estávamos conversando no quintal quando resolvi dizer que ia embora no dia seguinte.

— Eu vou embora amanhã.

Nós ficamos em silêncio. Ela me olhou cabisbaixa, e depois olhou para o chão. Deu um sorriso sem graça.

— É uma pena. — ela disse — Eu vou embora daqui uma semana. Alguma chance de você ficar mais alguns dias?

— Bem que eu queria… mas isso não é possível.

Outro momento de silêncio. Então, num movimento impulsivo, eu me levantei para abraçá-la.

— Não! — ela disse, se retraindo. — Eu vou te ver amanhã!

Fiquei chocada. Como alguém recusa um abraço? 
Quer dizer, mesmo se eu fosse ver ela no dia seguinte (o que eu achava improvável), é uma tremenda falta de educação recusar um abraço (principalmente quando esse gesto quer transmitir sentimentos sinceros).

“Deve ser algo da cultura dela”, pensei, e abri um sorriso.

— Tudo bem. Mas eu vou embora bem cedo — disse.

— Eu vou te ver amanhã. Não se preocupe.

— Tudo bem.

Continuamos a conversar, mas alguma coisa estava errada. Era como se algo tivesse se quebrado. Eu sabia que eu não iria vê-la no dia seguinte, e eu suspeitava que ela sabia também. Aliás, quando nos despedimos mais tarde, apenas com um “boa noite”, eu também sabia que ela sabia que eu sabia disso.

Deixei para lá. Preferi acreditar que eu teria a chance de me despedir dela no dia seguinte.

Mas eu não me despedi. Acordei muito cedo para ir para a rodoviária, e não a vi naquela manhã. Resultado?

Fiquei mal e com a consciência pesada. Eu deveria ter insistido. Deveria ter dito que, aqui no Brasil, é isso que as pessoas fazem: elas se abraçam!

Nós nos abraçamos para nos despedirmos. Nós nos abraçamos como uma forma de cumprimentar, dizer oi. Nós nos abraçamos quando estamos felizes e quando estamos tristes. Nós nos abraçamos quando queremos dizer para uma outra pessoa que ela é especial. Nós simplesmente… abraçamos.

Mas eu não abracei aquela menina. A minha amiga. E ela foi uma grande amiga.

Sinto saudades dela.

Nós conversamos por mensagens de texto, mas nunca mais a vi.

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