A Distopia Perfeita de “O Doador de Memórias”

Este texto contém spoilers sobre o filme “O Doador de Memórias” (“The Giver”). Não trato do livro aqui; apenas do longa.

A ideia de distopia, seja no futuro ou em uma realidade alternativa, não é desconhecida de quem consome ficção. Em “Matrix”, as máquinas do futuro usam humanos como combustível e a resistência luta pela liberdade em condições precárias. Em “O Jogo do Exterminador”, crianças são transformadas em soldados para combater uma invasão alienígena. Em “O Planeta dos Macacos”, primatas escravizam e perseguem humanos.

As realidades distópicas incomodam porque apresentam ideias incômodas, “erradas” sobre como a vida deveria ser. Elas são marcadas por destruição, pelo controle firme e exercido por uma força superior, e pela luta constante para que se saia dessa condição. No fim das histórias, é comum que se tenha alcançado a ideia de liberdade e transformação.

Mas e se a luz no fim do túnel só servir para iluminar com ainda mais clareza a desgraça em que se vive?

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No filme baseado no livro de Lois Lowry, as pessoas vivem em sociedades completamente igualitárias. Depois da grande catástrofe de praxe (aqui chamada de “Ruína”), os anciãos da sociedade criaram um sistema em que não houvesse diferença entre as pessoas. As memórias do mundo preexistente foram apagadas. Todos usam roupas definidas pelo governo, todos têm empregos definidos pelo governo, usam os meios de transporte definidos pelo governo e têm as suas emoções tiradas pelo governo — através de uma injeção diária, aplicada todas as manhãs quando a pessoa sai de casa.

O ambiente também é totalmente controlado, apesar de belo aos olhos. As casas são todas iguais. O terreno é todo plano e o clima é controlado. Há uma hora para ir para casa, uma hora para ir dormir, e encostar em outras pessoas que não façam parte do seu núcleo familiar é expressamente proibido.

Todas as pessoas também são encorajadas a exercitar a “precisão de linguagem” — dizer exatamente tudo o que está sentindo, sem metáforas, sem rodeios. Todo dia, no jantar, as famílias têm um momento em que falam dos seus sentimentos umas para as outras. Mas esses sentimentos são só palavras. Conter emoções é importante para quem ninguém sinta inveja, e que essa inveja não leve a conflitos. Mentir é proibido.

Há um único trabalho considerado especial, em meio à chamada “mesmice”: o do Recebedor de Memórias. Ele tem a tarefa de receber do seu antecessor as lembranças do mundo de antes de Ruína para, com esse conhecimento, auxiliar os anciões a solucionar impasses no governo.

Jonas, o protagonista, é o novo Recebedor. Ele sempre soube que tinha algo de estranho consigo; que via coisas que os outros não viam. Coisas que, ele aprenderia depois, eram cores. A vida na comunidade é literalmente em preto e branco, e é só com as memórias de outrora que ele percebe a existência do azul, do verde e do amarelo.

Ele também descobre o que é música, o que é dança, alegria. Descobre o amor. Ele fica indignado com como tudo isso foi tirado das pessoas pelo bem do fim definitivo dos conflitos e toma a decisão a cruzar a Fronteira das Memórias, lugar bem distante da Comunidade, e dessa forma fazer com que todas as pessoas se lembrem de todas essas coisas magníficas. Apesar da guerra e da morte, cujo conhecimento quase faz Jonas desistir de sua vocação, o herói segue em frente. E consegue.

Mas há um grande problema nesse final feliz.

Existe uma vocação na comunidade que é a de cuidador de bebês. Aqui, só algumas mulheres são eleitas para serem Mães, e todos os filhos que elas geram são pesados e medidos por esses profissionais. Os que são aprovados são encaminhados para as famílias designadas.

Os reprovados recebem uma injeção letal na cabeça, são encaixotados e jogados por um duto de lixo. O pai de Jonas faz isso durante o filme em uma cena que não chega a ser explícita, mas que é chocante mesmo assim.

A questão é que nenhum desses enfermeiros tem noção do que está fazendo. Na mente vaga de emoções deles, os bebês só estão sendo “desativados” e mandados para “Alhures” (“Elsewhere”, no original), mesmo destino dos velhos incapazes. Todo ano, há uma cerimônia em que uma nova leva de idosos recebe homenagens e se “aposenta” nesse lugar místico.

A sociedade igualitária é construída nas bases da eugenia, ainda que só três pessoas — a Anciã-Chefe, o Recebedor e o Doador de Memórias — saibam disso. O que acontece, então, quando Jonas cruza a Fronteira e todas as pessoas do mundo mordem, ao mesmo tempo, o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal? Elas se lembram do que é belo, do que é o amor, e percebem que têm compactuado com assassinatos em massa sistematizados e sancionados pelo sistema.

Isso é o que leva o mundo de The Giver a ser uma distopia perfeita. Se a realidade atual é cruel, a libertação é potencialmente ainda mais sinistra.

É mencionado, no filme, que algumas pessoas não aguentam a pressão psicológica de viver à beira da Comunidade, que a verdade é construída em cima de uma ilha que flutua nos céus, e acaba caindo. Se é assim, como conviver com a ideia de ter assassinado bebês e jogado-os no lixo? De ter entregado um ente querido para a eutanásia?

A humanidade sobreviveria a um trauma desses?

Eis o Ardil-22 do mundo de O Doador de Memórias: aqui as escolhas são uma realidade pacífica, mas desprovida de beleza e emoção, ou o amor afogado em culpa e remorso.

Há um último detalhe importante sobre a função de Recebedor: de toda a comunidade, ele é o único a quem é permitido mentir.

Nota: Seja por falta de clareza do filme ou falta de compreensão da minha parte, escapou o fato de que a eliminação dos bebês durante a história só acontece no caso de gêmeos ou se a criança não se desenvolver adequadamente. Mesmo assim, o resto do raciocínio continua o mesmo.

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