Acho que não sou para casar
Já passei da idade, talvez ainda possa até ser chamada de moça, mas não sou nenhuma jovenzinha. Os prazeres e as dores do sexo eu descobri, a experiência de beijar mais de uma pessoa numa noite também vivi. Assisti novelas demais para continuar acreditando que o amor é pra sempre, já li livros demais para achar que a televisão nos conta a realidade. O sonho de ser levada ao altar pelo meu pai nem sequer existiu, não sou pra casar, ninguém vai querer entrar para minha família.
Penso demais sobre as coisas, reparo tanto nos detalhes que incomodo com minhas conclusões. Não consigo ignorar quem joga lixo no chão e me diz que tem mesmo que se cuidar do ambiente em que vivemos, problematizo o modo como reclamam da comida no restaurante, quem vai querer viver 24h ao lado de uma pessoa que presta atenção no que o outro faz?
Não sei cozinhar bem, nem tenho vontade, mas tenho consciência que não dá para um ser humano viver de fotossíntese. Cozinharei por obrigação, a impossibilidade de conquistar pelo estômago já diminui em muito as chances de eu ganhar uma aliança dourada. Mas sou limpinha, tiro o pó, até porque tenho rinite. Outro defeito, quem quer viver perto de alguém que pode ter uma crise de espirros em pleno momento de sexo?

Também dou muita risada, em horas que a última coisa que deveria se fazer era isso. Crio minhas próprias piadas que quase ninguém entende, e como se tolera quem ri sozinho? Ainda não encontrei quem goste.
Eu choro. E muito. De alegria, de tristeza… E se me pedirem para conter, eu choro mais. É automático. Não achei ainda uma forma de não demonstrar o que estou sentindo.
Claro que na maioria das vezes eu demonstro de forma não-verbal e isso já me causou tanto problemas, ninguém é adivinho para ler pensamentos. Mas desde que aprendi a falar as coisas eu só afastei mais pessoas.
Quem quer casar com alguém que cria suas próprias histórias? Uma pessoa que descobriu a liberdade de fazer escolhas e aceitar que outras coisas não se pode escolher…
Já virei a noite na balada, assumo a posição de feminista, não quero ter filhos, não tenho paciência para estar onde não quero, não vou ferir meu corpo para agradar ninguém… Não gosto de sentir dor. Não conseguirei ser uma esposa submissa. Não almejo cargo nenhum em nenhuma igreja.
Mas o que vem ao caso é que não aceito quem mande em mim, nem que isso seja um papel. Não sou para casar, não sou para levar em churrasco de família, não sou o corpo para exibir na praia na frente dos amigos, não sou companhia pra noitada tranquila. Meus lugares favoritos são chatos, os filmes que assisto são difíceis de entender, essa mania de sempre ter um livro pra ler me faz parecer de outro planeta.
Pesquisar sobre os significados das palavras e fazer perguntas difíceis para quem já está sem tempo, cansado da própria vida e do trabalho não é algo que uma esposa deva fazer. Não sou pra casar.
O shopping num feriado não me parece a melhor opção para aproveitar, o tempo livre. Mas também transar no carro para aproveitar também não.
O fato de eu querer saber como as pessoas estão de verdade e realmente me importar também faz de mim alguém que não é pra casar. Tenho muitos amigos, converso demais com eles e sempre quero ver quando posso. Ser sociável demais acaba afastando as pessoas. E incentivar que elas sejam também afasta mais ainda.

Mas mesmo tendo tantos argumentos há quem acredite que eu quero namorar, noivar e casar. Como se isso fosse possível para mim. Alguém que está longe do (ainda irreal) padrão de beleza, tenho marcas no corpo, sou magra demais quando convém a quem me vê, sou uma mulher adulta e tenho pelos. Como só o que quero, carrego o mundo na minha mochila e penso antes de gastar 300 reais numa noite, não sou pra casar.
Tenho dificuldades de prejudicar alguém mesmo numa fila de banco, não sei negociar valores de produtos, se existe uma regra eu preciso seguir, eu sou chata.
Quer mais um motivo para comprovar que eu não sou pra casar? Eu passei cinco minutos pensando nessa frase e decidi que tinha que fazer algo com ela. E vim escrever.
Eu penso demais, escrevo demais, leio demais, tento entender demais. Eu sou excesso enquanto se busca por um aí, uma metade.
