O que aprendi em Davos

Todo mês de janeiro os principais líderes mundiais se reúnem em Davos, na Suíça, para discutir sobre os mais variados assuntos no encontro anual do Fórum Econômico Mundial. Há dois anos, a lista contava com um convidado inusitado: eu.

Foi a semana mais intensa da minha vida. Entre refeições apressadas, painéis incríveis, palestras de altíssimo nível, pouquíssimo sono, 84 páginas de anotações e uma série de encontros inesperados, um sentimento se destacou acima de todos os outros. Eu não pertenço a esse lugar — e é exatamente por isso que eu precisava estar ali.

Imagine um lugar com tanto poder concentrado que você tem a impressão de que qualquer decisão tomada ali pode mudar os rumos do mundo.

Agora imagine estar ali com a missão de “representar a voz jovem”. Certamente uma missão impossível. Minha responsabilidade era, no mínimo, levar uma perspectiva diferente.

O Fórum Econômico Mundial

Primeiro, aprendi muito sobre o Fórum Econômico Mundial. A maioria de nós só olha para a organização uma vez por ano, justamente no encontro anual. Mas esqueça os grandes banqueiros, o Fórum é muito mais do que isso.

O Fórum organiza grupos de estudo e prática unindo especialistas de todo o mundo nas mais diversas áreas, que trabalham o ano todo e produzem relatórios bastante completos que não poupam esforços para alertar sobre os desafios do modelo econômico atual. Foi em um relatório desses que eu descobri, por exemplo, que no ritmo de progresso atual, demoraremos 118 anos para atingir a paridade econômica de gênero em todo o mundo.

O fundador da organização, Prof. Klaus Schwab, é provavelmente uma das figuras mais bem sucedidas do nosso tempo, tendo participado ativamente em vários dos acontecimentos mais importantes das últimas décadas. Mas ele não é o líder de negócios que se poderia esperar. Sempre que o vi falar, ouvi mais sobre o amor, a conexão entre os seres humanos e a compreensão da natureza mais do que sobre números, tecnologia e crescimento. Schwab é, no fim das contas, um humanista que sempre surpreende.

Em uma tentativa de trazer os jovens para dentro do debate, o Fórum criou duas comunidades globais: Young Global Leaders e Global Shapers, que reúne 6000 jovens em 500 cidades do mundo. Foi como membro desta última que recebi o convite para estar em Davos. Além disso, o Fórum é um dos grandes fomentadores do empreendedorismo social no mundo, sempre em parceria com a Schwab Foundation.

Um microcosmo

Davos é uma representação quase perfeita das estruturas de poder do nosso mundo.

Apenas 17% dos participantes eram mulheres quando eu estive lá. Em 2017, elas ocupavam 20% das cadeiras — um recorde para o evento. Isso é um problema, não há dúvidas, mas é apenas um reflexo do mundo real. O Fórum não convida pessoas para Davos, convida cargos e posições. Se apenas uma em cada cinco participantes é mulher, é porque elas ainda ocupam apenas 4% dos cargos de presidente nas maiores empresas do mundo e 7% das chefias de Estado e Governo.

Existem muitos negros no evento, mas só porque existem muitos africanos. Há pouquíssimos negros Europeus ou Americanos. Por que será?

Ali, essas questões ficam escancaradas. Só não vê quem não quer.

Quatro coisas que faltam em Davos

A experiência em Davos é essencialmente individual. Só posso falar sobre aquilo que eu vi, sobre os lugares onde estive e as pessoas com quem interagi, mas arrisco fazer uma análise geral aqui. Acredito que algumas coisas (ainda) faltam no evento.

  1. Diversidade: o desafio da diversidade não vai se resolver sozinho. Existem iniciativas interessantes da organização para trazer mais mulheres para o evento e convidá-las para mais painéis, mas o progresso ainda é lento. Além disso, não faltam apenas vozes femininas. Na minha opinião, todos se beneficiariam se o evento fosse mais diverso, incluindo outros pontos de vista, outras histórias de vida e comunidades que não estão presentes. Davos é uma representação da dinâmica de poder do mundo, mas também é sobre abrir espaço para vozes diferentes que não estão representadas nessa dinâmica.
  2. Auto-crítica: quase todos os participantes admitem que há uma crise global em vários níveis, mas quase ninguém admite sua parte nela. Com isso, muito falam em sacrifício, mas não estão muito dispostos a abrir mão de muito. São raros os empresários que falam abertamente sobre uma crise na nossa maneira de fazer negócios ou políticos que admitem uma crise de representação sistêmica. A maioria não se responsabiliza diretamente, nem como pessoa, nem como instituição e nem como setor.
  3. Senso de urgência: se todos admitem uma crise, mas ninguém se responsabiliza, isso significa que a maioria responde no longo prazo. Ouvi muitas vezes coisas como “espere pelos próximos 20 anos” ou “essa nova geração vai mudar muita coisa”. Mas por que esperar? Se às vezes olhamos para gerações passadas (bem recentes) e perguntamos “como eles viviam perpetuando a escravidão?”, talvez no futuro olharão para nós perguntando “como eles perpetuaram tanta pobreza e desigualdade?”. É verdade que boa parte dos indicadores do mundo melhoraram, mas será que não poderiam estar muito melhores se agíssemos agora?
  4. Acadêmicos fora de espaços desenhados para eles: alguns dos melhores painéis que vi em Davos eram formados por acadêmicos. Existem grandes professores, cientistas e estudiosos no evento, mas em geral eles ficam confinados em espaços desenhados apenas para eles. É raro ver um acadêmico em um painel com líderes de negócios, por exemplo. Acredito que essa troca seria extremamente rica para todo mundo.

Três C’s

Algumas ideias apareciam espalhadas em várias das falas. Eram repetidas em diferentes momentos, de diferentes maneiras. Elas representam a visão de mundo da maioria dos participantes. A ideia de que a hierarquia nas organizações precisa ser redesenhada, por exemplo, parece consenso. Poderia falar de outros exemplos, mas vou abordar apenas três conceitos que se destacam.

  • Crescimento: o crescimento é o único modelo econômico concebível. É absolutamente impensável falar em prosperidade sem atrelá-la ao crescimento. Em vários momentos o crescimento é colocado como fim, não como meio para atingir a melhoria na qualidade de vida geral. Crescimento foi, sem dúvida, a palavra que eu mais ouvi durante aquela semana.
  • Competitividade: a esmagadora maioria dos participantes de Davos reconhece a desigualdade como um problema em si. O Fórum está sempre de olho no relatório anual da Oxfam. Mas a principal proposta para atacar a desigualdade é capacitar os “de baixo” para competir melhor com “os de cima”. Aumentar o nível da competição seria a melhor maneira de nivelar o jogo.
  • Consumidores: quase todos os painéis que falam de crescimento e competitividade, falam também de consumidores. O debate em geral é se resume a como retormar ou aumentar níveis de consumo e como entender melhor o comportamento do consumidor. Sutilmente se assume a existência desse ser humano unidimensional que pode ser entendido apenas pelos seus hábitos de consumo, nada mais.

É possível (e muito saudável) discordar de uma ideia, mas mesmo assim respeitar a posição do outro. Isso é cada vez mais difícil nos nossos ambientes online, onde discordar se tornou batalhar. Uma coisa muito interessante dos eventos do Fórum é o espaço para divergências. Discordei de muitas pessoas no Fórum, e mesmo assim admiro a inteligência e a disponibilidade de (quase) todas as pessoas que encontrei lá.

Desses três pontos nascem minhas principais discordâncias.

Falando sobre crescimento, acredito na criação de modelos econômicos mais sustentáveis e inclusivos, com indicadores que reflitam melhor a qualidade da nossa vida e das nossas relações. O crescimento econômico pode ser visto apenas como meio, não objetivo em si. Crescer pode ser uma maneira de conseguir algo importante, mas só crescer não quer dizer nada.

Sobre a competitividade, acho curioso como todo o discurso muda quando se aumenta a escala. Ao abordar na relação entre países, só se fala em colaboração. Todos apontam para a criação de um ambiente fértil para que os países floresçam, convivam e colaborem. Mas acredito nisso também em uma escala menor. Prefiro concentrar as energias na busca por sistemas mais justos, mais humanos, mais transparentes e que aproximem pessoas, gerando condições e oportunidades de maneira justa. Não acredito em perpetuar as mesmas regras do jogo apenas mudando o nível dos jogadores. Mais uma vez, aumentar a competitividade pode até ser uma ferramenta, mas em si não resolve nada.

O grande debate dentro do Fórum nos últimos anos trata da Quarta Revolução Industrial, termo cunhado pelo próprio Prof Schwab para descrever essa sociedade em rede do século XXI. Uma das características dessa transição é mudar o papel fundamental do consumidor, que deixa de apenas passivo e se torna agente, produtor, multiplicador, fiscal e apoiador. Além disso, estamos em um momento no qual rever os nossos padrões de consumo é urgente e necessário, segundo o próprio relatório do Fórum, que diz: “com a população mundial consumindo o equivalente a 1.5 Terras por ano, não podemos continuar neste caminho. Estamos no ponto de virada; o momento para a ação é agora.”

Mesmo antes disso, mesmo sem considerar nenhum desses efeitos, ninguém é meramente consumidor e essa simplificação pode ser bastante danosa. Portanto, precisamos alcançar um nível muito mais profundo ao falar sobre consumo e consumidores.

Uma oportunidade única

Tudo em Davos era tão deslumbrante e ao mesmo tempo tão sufocante. Aquele não era meu jeito de falar, de me vestir, de me relacionar com o dinheiro e as pessoas, mas cada momento era um aprendizado, desde a reunião com o presidente da França até a cerveja no bar com um amigo Marroquino, que acabou se tornando uma aula sobre o Oriente Médio.

Já sabia que tinha muito a aprender ali e tentei me preparar para isso. Nas semanas que antecederam o evento, estudei, li e debati com muitas pessoas antes para tentar aproveitar ao máximo. Mas foi só em uma conversa com David Aikman, uma das cabeças mais importantes do Fórum, que entendi que poderia ter um pouco a ensinar também. Eu precisava estar em Davos para entender melhor o mundo e o Fórum precisava que eu estivesse ali para, quem sabe, oferecer um ponto de vista um pouco diferente.

Isso também (ainda) falta por lá.