A prepotência do engenheiro e o machismo

Engenharia, seja lá qual for, é uma graduação focada em resolver problemas. Como bem me disse uma professora de Engenharia Mecânica pouco antes de eu entrar na universidade, "engenheiro é um resolvedor de problemas. Apareceu pepino, aparece o engenheiro". Concordo. Estudantes e profissionais do campo são de fato treinados para melhorarem suas capacidades analíticas e lógicas a fim de entender como funcionam as leis da natureza e modelar sistemas que funcionem dentro destas leis.

Porém, e este é um grande porém, existe um limite aqui. Sim, pra você de Engenharia como eu que está lendo esse texto: nós temos limites. Nossa análise, por melhor que seja, é limitada. Para exercer nosso papel na sociedade, nós PRECISAMOS de outros profissionais e de pessoas com formações alheias às nossas. Mais do que formações, com pensamentos e histórias que diferem das nossas, justamente para que nos complementem e que para nós as possamos complementar.

E hoje eu tive a prova bem concreta disso em duas oportunidades. A primeira foi num debate, organizado pelo Centro Acadêmico de Engenharia Elétrica da Universidade de Brasília (aliás, excelente iniciativa do CA, pois o debate foi de altíssimo nível). Assim que acabou o debate, tive a oportunidade de fazer perguntas às mulheres que compunham a mesa. Perguntei sobre como usar ferramentas tecnológicas para ao invés de fazer aplicativos que foquem na mulher pra garantir a segurança dela(vulgos aplicativos apito — Mulher em situação de risco aperta um botão para ser "salva"), focar em mudar a percepção do homem sobre a realidade que elas enfrentam na sociedade, especialmente na universidade. As respostas foram excelentes. No entanto, não é nelas que vou focar — mas sim no que um professor de Engenharia me falou logo após ao debate.

Ele sugeriu que eu fizesse um jogo de celular. Tudo bem até aqui. A razão que me deu, porém, é um pouco mais complicada. Ele justificou que isso resolveria o problema da violência contra a mulher. Argumentei que talvez não seja tão simples, pois a cultura vigente não é algo pontual e fácil de ser mudado. Ele respondeu, então, que se nós conseguimos fazer jogos de videogame que simulam guerras para treinar soldados, nós também devemos conseguir fazer um jogo que consiga mudar completamente a mentalidade dos homens em relação às questões de gênero. Mais do que isso, argumentou que "Engenheiro é pra resolver problema complicado. Não interessa aonde for, máquina, sociedade tanto faz. Se é um problema, o engenheiro pode resolver". Com essa argumentação, desisti de prosseguir a conversa. Ele não percebe que um problema social que persegue a humanidade por séculos e afeta mulheres no planeta inteiro não é facilmente modelado por equações. Não é facilmente resolvível por programas de computador. Mas mais do que isso, ele falha em perceber que a engenharia é sim limitada e que precisa se abrir a outros profissionais e pensadores para resolver problemas que não estão no seu escopo comum. Nós podemos ajudar? Claro! Porém, um problema social envolve fatores tão diversos quanto cultura, economia, política, costumes, pobreza/riqueza e etc que precisam ser levados em conta, especialmente quando se trata da realidade de uma população que nós, engenheiros e estudantes de classe média/alta, não temos vivência e nem a formação para analisar completamente.

“Engenheiro é pra resolver problema complicado. Não interessa aonde for, máquina, sociedade tanto faz. Se é um problema, o engenheiro pode resolver”

O outro exemplo segue a mesma linha. Em uma discussão com um colega, ele afirmou e reafirmou ser óbvio e claro que quando uma mulher mata um homem, isso é "masculinicídio" e que é "machismo reverso". Oras, eu entendo a forma dele de pensar. Também sendo estudante de engenharia, faz todo o sentido que se um homem mata uma mulher por ódio a ela e isso é chamado de feminicídio, o contrário só pode ser "masculinicídio". Com um pouco de análise, podemos perceber que isso não é verdade. Assim como o professor, ele não percebe ao falar isso que está usando apenas o raciocínio lógico para tratar de um problema social — Ele está usando o pensamento de que se o sinal 1 é invertido, só pode ser um zero. No entanto, machismo reverso não existe pelo mesmo motivo que racismo reverso não existe — Para que haja racismo, é necessária a existência de uma hegemonia por um grupo da população (no caso, brancos) sobre outro grupo da população (negros). Quando um negro odeia um branco por ser branco, isso é preconceito e intolerância, mas não racismo.

O paralelo pode ser traçado para o nosso cenário. Dizer que machismo inverso existe consiste em dizer que por séculos os homens vem sendo subjugados por mulheres. Que não conseguem os mesmos empregos, que não têm os mesmos direitos respeitados e que saem em desvantagem na sociedade, o que é falso. Consiste também em dizer que nós não somos ouvidos tanto quanto outros grupos mais privilegiados. Igualmente falso. Então não, não é "óbvio" ou "claro" ou mesmo dizer que o inverso de feminicídio é "machismo reverso" ou "masculinicídio". Fazer isso é meramente aplicar a lógica de circuitos elétricos à vida e realidade de populações do planeta inteiro que diariamente sofrem com esse tipo de opressão — inclusive as que nunca tiveram a oportunidade de lidar diretamente com um circuito elétrico.

Dizer que machismo inverso existe consiste em dizer que por séculos os homens vem sendo subjugados por mulheres. Que não conseguem os mesmos empregos, que não têm os mesmos direitos respeitados e que saem em desvantagem na sociedade, o que é falso.

Portanto, peço aos colegas de Engenharia (e áreas afins — tô de olho, Ciência da Computação), que tenhamos mais cuidado e empatia ao analisar — e especialmente — ao nos pronunciar sobre realidades que não vivemos às quais nós não temos pleno conhecimento sobre. Também peço cuidado ao usar ferramentas estatísticas, que apesar de serem poderosíssimas para prover sacadas que não poderíamos ter se não por elas, também podem escolher grandes armadilhas na análise de fenômenos sociais, especialmente os que afetam as camadas menos privilegiadas da nossa população e que dependem de um vasto entendimento dos acontecimentos históricos de um povo ou população. Por fim, deixo a citação de Neil deGrasse Tyson, que muito sabiamente tuítou a seguinte frase:

In science, when human behavior enters the equation, things go nonlinear. That’s why Physics is easy and Sociology is hard.

Obrigado pela leitura.