O CAMELO E O BURACO DA AGULHA

A parábola mais bizarra — até eu conhecer a Bíblia de verdade!

Logo jovem, quando tive meus primeiros contatos com a Bíblia, sem instrução a autonomamente iniciando minha leitura pelo Apocalipse, tive algumas impressões pessoais de que aquele livro não era para mim.

Após devorar em um só dia todo o conteúdo de Apocalipse, tive algumas impressões incomuns: medo, incerteza, incredulidade.

Com composições textuais densas demais para os meus 14 anos, sem conhecer linguagem profética nem entender o propósito de estar lendo aquilo, achei que tudo ali provinha de fábulas medievais e que não continha nada além de espiritualidade megalomaníaca não condizente com a atualidade nem com a sociedade na qual eu estava inserido.

Entendi naquele momento que fé era cabresto para as massas humildes e não-escolarizadas, que crente era sinônimo de gente desprovida de inteligência, que fanatismo religioso resumia-se em crer em relatos textuais fora da realidade e tentar aplicá-lo na atualidade, que impor regras ameaçando com a promessa de um inferno flamejante era a maneira mais eficaz de apaziguar estas pessoas.

Entendi ali que, muita gente era ligada a um livro milenar que continha histórias de uma cultura que não era a sua, que não falavam sua língua e crer no fim do mundo apocalíptico seria como crer que Steaven Spilberg dirigiria a queima de fogos no reveillon, com direito a video-mapping.

Dei de ombros. Com arrogância quis provar que meu intelecto era superior ao dos cristãos leitores da Bíblia, e decidi ler o famoso Evangelho.

Abro a Bíblia.
Novo Testamento.
Mateus.
E, pááá!

“E digo ainda que é mais difícil um rico entrar no Reino de Deus do que um camelo passar pelo fundo de uma agulha”.

Logo de começo, senti uma imensa preguiça intelectual!

Não conseguia absorver aqueles textos de forma pessoal e aceitar como uma mensagem de Deus para mim.

Você nem precisa ser um cientista, qualquer pessoa é capaz, através de comparações lógicas, considerando as dimensões de um camelo e a dimensão do buraco de uma agulha, de concluir que isso era algo impossível.

Tudo muito irreal!
Mas era irreal naqueles dias, pelo menos para minha falta de conhecimento.

Pensei: “QUE EXAGERO!”

Hoje, sei que a expressão utilizada por Jesus nesta passagem sobre ‘passar um camelo pelo fundo de uma agulha’ poderia ser uma expressão proverbial semelhante a várias outras usadas na Bíblia. Sim, pode!

No mundo antigo, relativamente nesta esta cultura dos povos do tempo bíblico, era comum, para descrever uma impossibilidade, empregar num diálogo uma expressão com hipérbole.

Hipérbole, não somente na língua portuguesa, é usada para compor expressões, ditados populares ou métodos comparativos baseados no exagero. Nada mais que uma figura de linguagem, o uso ilimitado do pensamento, que consiste em exagerar — e muito — uma ideia com finalidade expressiva para expor uma idéia.

Sabe quando você exagera intencionalmente para causar impacto? É mais ou menos assim!

O uso de uma hipérbole para expressar uma coisa difícil de acontecer sempre foi comum em todas as culturas.

Se não entender isto como uma expressão, analisando a dificuldade exposta nesta hipérbole, criaria uma ruptura sobre as características da benignidade de Deus

Já que é explícito: quem fosse rico não entraria no céu, pois riqueza desmereceria o amor do Deua Criador.

Criaria-se então uma teologia: a “Teologia da Pobrestidade”. E iniciaria-se um movimento para demonizar quem teve êxito financeiro.

Então, neste texto, Jesus poderia ter usado uma hipérbole para dizer que ser rico é um grande e amargo problema? Não.

Então é da riqueza que Jesus falava? Não da riqueza em si.

Ele usou uma hipérbole? Sim!

Mas descarte agora a “Teologia da Pobrestidade”, foi uma hipérbole.

Fiquemos na agulha e no camelo…

Quando você diz:-

“Estou morrendo de sede”.
Quis dizer que está com muita sede, mas não que está perto do óbito.

Quando você diz:-

“Chorou rios de lágrimas”.
Quis dizer que chorou muito, mas na realidade, nunca encheria um rio.

Quando você diz:-

“Já falei um milhão de vezes.”
Quis dizer que já falou algumas vezes, talvez muitas vezes. Não um milhão.

Isso é uma hipérbole! O uso do exagero nas expressões. É comum.

Agora, analisando e contextuando…

Há hipóteses de que as primeiras fontes dos evangelhos, eram em aramaico, a língua falada por Jesus.

Os evangelhos chegaram até nós em grego. Lembre-de disso!

Alguns dizem que a tradução do aramaico com fontes originais para o grego dos atuais evangelhos provocou alguns erros de tradução e uma dessas seria o tal “camelo”.

Em aramaico existem duas palavras muito parecidas, com significados diferentes:

GAMAI = Camelo
GAMIA = Corda da rede dos pescadores

Em análise crítica é possível supor que quem foi o copista do evangelho para o grego, leu errado a palavra aramaica. Leu “gamai” invés de “gamia”. E há alguns defensores dessa teoria. Há também alguns manuscritos bíblicos, produzidos vários séculos depois de Cristo, que trazem nesse verso a palavra “cabo” em vez de “camelo”.

Talvez o correto seria: é mais fácil uma GAMAI (corda ou cabe da rede de pesca) passar pelo buraco da agulha (agulhas mesmo!) do que um rico entrar no reino dos céus”.

Essa é uma forte hipótese, se considerar o contexto ambiental.
Naquele momento Jesus falava não por uso de uma hipérbole, mas literalmente sobre uma corda de redes. Ele estava falando para um grupo de pescadores, que entendia o significado da parábola com mais profundidade se ele comparasse cordas, de redes, pois entenderiam mais de pesca do que de camelos. Jesus empregou muito linguagem pessoal e contextualizada.

Agora, vou mostrar o link paradoxal da expressão “passar um camelo pelo fundo de uma agulha”, reinterpretando e aproximando ainda mais o significado dos termos “camelo” e “fundo de uma agulha”.

Do aramaico ao grego original, os termos possuem certa semelhança entre si, é provável que alguns copistas e tradutores do Grego, tenham substituído o termo “camelo” por “cabo”. O que nos traz a epifania de Jesus, bem clara!

κάμηλος (kámelos) = Camelo

καλώδιο (kámilos) = Cabo

Até na linguagem grega, as palavras possuem uma ligação.
Então, tudo reforça que o camelo, até em grego, poderia ter sido a simples e direcionada menção a pescadores sobre o cabo ou fio da rede de pesca.

“passar um camelo pelo fundo de uma agulha”
“passar um cabo grosso pelo buraco de uma agulha”

São, sem dúvida, uma expressão proverbial, uma hipérbole semelhante a várias outras usadas no mundo antigo para descrever uma impossibilidade.

Não importa se o tradutor, neste caso, empregou outro termo na frase.
O sentido não foi perdido. O objetivo, sendo hipérbole ou não, é o mesmo!

O texto deixa claro que o propósito de Jesus era levar Seus discípulos a entender a completa impossibilidade de alguém, semelhante ao jovem rico, ser salvo enquanto ainda apegado às suas riquezas.

Isto, quando li em meus primeiros contatos com Bíblia, foi a única coisa que pude imaginar possível, mesmo não me obrigando a ser racional.

Aprendi que a linguagem bíblica, por mais que pareça difícil em alguns momentos, é repleta de didatismo, por parte da Sua inspirada palavra.

O problema não está nas riquezas em si, mas no apego indevido a elas.
Quando o ser humano aceita o convite à renúncia de si mesmo, aquilo que é “impossível aos homens” se torna possível ao poder transformador de Deus.