QUEM MATA MAIS?

Costumo gostar bastante das palavras de John Piper e nunca me imaginei discordando de alguma de suas publicações, mas agora a pouco fiquei bastante confuso com um texto alegadamente escrito por ele e decidi me expor — como pecador redimido e, portanto, inteiramente dependente da graça do Senhor para obter a salvação — de modo que não precisem falar mal de mim (pois eu mesmo já reconheço, exponho, me arrependo e digo para não fazerem igual!), mas que, por favor e ao final desta postagem, considerem minhas respostas a Piper.

Breves Antecedentes

Aos 18 anos fui jogado em Manaus.
Saí do colinho da mamãe com 16, ao passar em um concurso público e, após dois anos numa escola preparatória, acabei indo parar numa terra onde meu irmão fora assassinado recentemente, no início dos anos 90.
Perdi minha virgindade e me lancei numa devassidão até então inimaginável, achando que ia também acabar morrendo ali, no mínimo com uma AIDS…
Não tive uma doença e nem morri, apesar de ter chegado perto: o Senhor me guardou e me permitiu começar a adquirir sabedoria… bem pouca no início.

Já fui representante de uma bebida energética saudável.
Saia para vender onde fosse possível: igrejas, hospitais, faculdades… inclusive o prostíbulo do qual um primo meu era proprietário!
O negócio ficava fechado durante o dia e, como a venda era interpessoal — eu comprava da empresa e revendia para ele — acabei tendo de, algumas vezes, adentrar o escritório em horário de funcionamento, com direito a passar ao lado de performances bastante explícitas.
Entrava, entregava e saía… nunca me senti tentado, mas, pelo contrário, muito constrangido: na minha juventude convivi com modelos, concursos, desfiles… e aquilo ali é o fundo do poço moral para quem não tem mais nada além do corpo para oferecer por dinheiro!
Vejam bem que, se eu quisesse, seria muito fácil dispor dos “serviços” de qualquer uma daquelas mulheres, — afinal… meu primo era o dono — mas NUNCA sequer cheguei a considerar tal ato.

Certamente vi muitas coisas nessa vida e, se não fugi, recebi livramento tamanho que hoje posso relatar tal fase na mais completa paz de espírito e, inclusive, minha esposa sabe de todo esse negócio.

Censura por Erotismo ou Violência?

Semana passada fui com minha esposa assistir ao filme “Deadpool”: dei boas gargalhadas e nada ali — vamos usar um termo dramático — me “injetou pecado” maior do que eu já não tenha visto ou superado. Não há um papel extenso de nudez e as cenas exibidas não são nada que a TV aberta não esteja exibindo… no meu caso, nem ficou na memória e só vim a relembrar por causa do questionário acusador que o Piper criou:

1. Quando irei arrancar meus olhos, se não for agora?
Jesus disse que qualquer que olha uma mulher com intenções sensuais, já cometeu adultério com ela em seu coração. Se seu olho direito o leva a pecar, arranque-o e lance-o fora (Mateus 5.28–29). Ver mulher nua na tela — ou homem nu — leva o homem, ou a mulher, a pecar em sua mente e em seus desejos.
2. Eu anseio ver Deus?
Eu quero ver e conhecer Deus o máximo possível nesta vida e na próxima. Assistir nudez é um enorme obstáculo a esta busca. “Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus” (Mateus 5.8). A poluição da mente e do coração ao assistir nudez enfraquece a habilidade do coração de ver e se deleitar em Deus. Eu desafio qualquer um a assistir nudez e em seguida se voltar a Deus, Lhe dar graças e se deleitar mais Nele por causa do que acabou de experimentar.
3. Eu me importo com as almas que se apresentam nuas?
Deus chama as mulheres para se adornarem com roupas decentes, com modéstia e domínio próprio (1º Timóteo 2.9). Quando recebemos ou abraçamos a nudez em nosso entretenimento, nós estamos implicitamente endossando o pecado das mulheres que se mostram dessa forma, e, portanto, revelando desinteresse acerca dessas almas. Elas desobedecem 1º Timóteo 2.9, e nós as assistimos, estamos dizendo que tudo bem.
4. Eu ficaria feliz se minha filha fizesse este papel?
A maioria dos cristãos é hipócrita ao assistir nudez porque, de um lado, eles dizem, ao assistirem, que não há problema, e do outro lado, eles sabem no fundo que eles não gostariam que suas filhas ou esposas ou namoradas fizessem este papel. Isto é hipocrisia.
5. Estou assumindo que a nudez pode ser disfarçada?
A nudez não é como homicídio e violência na tela. A violência na tela é um faz-de-conta; ninguém realmente é morto. Mas nudez não é faz-de-conta. Estas atrizes estão realmente nuas na frente da câmera, fazendo exatamente o que o diretor disse para fazer com suas pernas, mãos e seios. E elas estão realmente nuas na frente de milhões de cristãos, para que as vejam.
6. Estou assumindo que nudez é necessária para uma boa arte?
Não há um grande filme ou uma grande série de televisão que precisa de nudez para aumentar sua grandeza. Não. Não há. Há maneiras criativas de mostrar a realidade como ela é sem transformar o sexo em um esporte para o espectador e sem colocar os atores e atrizes em situações moralmente comprometedoras no pacote.
Não é a integridade artística que está levando a nudez à tela. Por trás disso tudo está o apetite sexual masculino dirigindo este negócio, e seguido disto está a grande pressão por parte das indústrias e do desejo de aumentar essas vendas. Não é a arte que põe a nudez em um filme; é o apelo à lascívia. Ela vende.
7. Estou livre da dúvida?
Há uma diretriz bíblica que torna a vida muito simples: “quem estiver em dúvida, está condenado se come, porque o comer não provém da fé. Pois tudo o que não provém da fé é pecado” (Romanos 14.32). Minha paráfrase: se você tem dúvida, não faça. Isto alteraria os hábitos visuais de milhões, e, oh, quão docemente eles dormiriam com essa consciência.
Então, eu novamente digo: Junte-se a mim na busca por um tipo de pureza que vê a Deus, e conheça a plenitude da alegria em Sua presença, e o duradouro prazer à Sua destra.

Então, estas são as “sete perguntas” e as respostas que ele próprio nos dá — e essa é uma técnica chamada de “espantalho”, bastante comum entre os esquerdistas quando pretendem fazer condenações sem correr o risco de ser refutados.
Terminei de lê-las após e, sendo dois ou três dias após já ter visto o filme, achei não apenas justo, mas necessária e com uma visão significativamente diferente, apresentar

Minhas Respostas Às Questões de Piper

  1. Eu deveria ter arrancado quando tinha 18 anos e fui parar em Manaus, mas agora… a nudez exibida no filme é irrelevante no contexto, não me impressionou e nem chegou perto de me tentar, portanto, “não”!
    Seguindo essa linha de raciocínio, então ir a praia — coisa que eu, particularmente, não gosto — já seria motivo mais do que suficiente para que os fracos arrancassem os olhos… e tudo o mais!
  2. Sim, busco por Ele todos os dias, mas sou casado e nem um pouco celibatário, de forma que essa pergunta é inócua para quem tem uma vida matrimonial saudável.
  3. Me importo em pregar a Palavra, única forma de acesso à verdadeira fé, pois permite a ação legítima do Espírito Santo. Mas, levando em conta que Piper é calvinista assumido e, portanto, defensor da doutrina da predestinação… que tipo de pergunta emocionalmente manipuladora é esta? Se há almas já destinadas à condenação, ficando nuas ou, pior ainda, emulando um cristianismo místico esotérico e com objetivos financeiros, diante da linha de raciocínio calvinista, em que momento o poder para alterar essa condição estará em minhas mãos?
    Piper… você está querendo fazer as pessoas se sentirem culpadas pelo que Deus determinou?!?!
  4. Não. De forma alguma! E o que isso tem a ver com o filme?
    Talvez seja necessário um pequeno “spoiler” sobre essa cena das mulheres nuas, que ocorre muito brevemente em um “clube de strip-tease” (para não falar prostíbulo) e aparecem, sim, alguns corpos nus por instantes na tela: não são papéis relevantes, não é possível identificar com facilidade a identidade de quem aparece sem roupa, neste momento o foco do enredo é absolutamente diferente de se ficar admirando a nudez… enfim, é uma daquelas cenas em que, muito diferente de um filme pornográfico ou de uma sessão de fotos, é possível nunca se ficar sabendo quem apareceu ali nua.
    Nesses nossos dias de registros digitais, quantas cantoras “gospel” e pastoras já não foram explicitamente capturadas em suas infidelidades absolutamente imorais? Quantas “evangélicas” não estão se degradando tal qual prostitutas profissionais?!
    Não estariam estas cometendo pecado equivalente ao de uma pastora que, durante um “sacrifício a Moloque para Jesus”, sobe em um carro de som para dizer que o povo brasileiro vai entrar no céu sambando?!
    No final das contas, a prostituição da carne faz com que muitos esqueçam que a prostituição espiritual, mesmo cheia das boas intenções, é pecado tão ou mais grave…
  5. A nudez existe e, conforme disse Paulo, nem ela poderá me afastar do amor de Deus.
    Não se envergonhe de FUGIR, mas espero que você não seja um fraco que sucumbe a qualquer vislumbre de mulher — ou pior ainda, homem! — sem roupa.
    A nudez não pode ser disfarçada, mas apesar de estarmos lidando com uma geração majoritariamente de incontinentes, creio que ainda podemos esperar encontrar alguns que vão se portar como José.
  6. Não e, aliás, eu já não disse que a nudez não foi essencial para o enredo do filme?!
    Nem sempre vou ao cinema na expectativa de encontrar “boa arte”: às vezes vou para ter medo, outras para dar gargalhadas… muitas vezes saio frustrado e isso significa que prefiro ir sem ter um pré-conhecimento minucioso do que irei assistir: este filme não está pior do que ouço ocorrer nas novelas que passam após as 22:00h na TV aberta…
  7. Absolutamente sim!
    Assisti, ri e fui embora! Não fiquei pensando em nenhuma das cenas de nudez que foram expostas e só lembrei disso ao ler essas sete perguntas tramadas para trazer o inferno sobre qualquer um que tenha visto o filme…

Essas sete perguntas de Piper me lembraram daquelas mães psicoticamente protetoras que antes do filho ralar o joelho já quer levá-lo direto para a UTI ou pior… colocá-lo num caixão — e a manipulação emocional da pergunta sobre as “alma nuas” me deixou particularmente irritado.

E Aí: Vou Ou Não Vou?

Então, será que o propósito desse meu texto é incentivar os cristãos a ir assistir Deadpool?!?
DE FORMA ALGUMA!!!
Se você está em dúvida se deve ou não ir assistir ao filme, se teme ser seduzido pelas curtas e inexpressivas cenas de nudez… não vá! Eis o texto bíblico para explicar meu posicionamento (e tomei a liberdade de destacar as palavras para facilitar o entendimento):

“Bom é não comer carne, nem beber vinho, nem fazer OUTRAS COISAS em que teu irmão tropece, ou se escandalize, ou se enfraqueça. Tens tu fé? Tem-na em ti mesmo diante de Deus. Bem-aventurado aquele que não se condena a si mesmo naquilo que aprova. Mas AQUELE QUE TEM DÚVIDAS, se come está condenado, porque não come por fé; e tudo o que não é de fé é pecado.” (Romanos 14:21–23)

A responsabilidade de decidir se você pode ir ou não assistir ao filme não é do Piper, não é minha, mas inteira e exclusivamente SUA!!
Rememorando o que se deu comigo: saí para assistir ao filme com minha esposa e sem nem saber muito bem o que iria ver, assistimos, rimos, passamos incólumes pelos breves momentos de nudez, rimos mais, ficamos até assistir as cenas pós-créditos (que foram bastante engraçadas) e voltamos, juntos, normalmente para casa — sem dúvida, sem sombra de tentação e muito menos expondo qualquer outro membro mais fraco do Corpo de Cristo ao pecado — onde oramos e dormimos em paz. Iria ficar naquele lugar da memória onde ficam todos os outros filmes, meio que esquecidos… até me deparar com essas tenebrosas sete respostas de Piper!

“Assim também vós considerai-vos certamente mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor. Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, para lhe obedecerdes em suas concupiscências; Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniquidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça. Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça.” (Romanos 6:11–14)

É evidente que o filme, assim como muitas coisas com as quais lidamos, não foi criado visando a edificação da vida cristã de ninguém, mas Piper, com toda a sua fama e envergadura teológica, se presta ao papel de escrever um texto como esse e acaba chamando mais atenção do que o necessário sobre algo que não é “isso tudo” e que passaria relativamente desapercebido: se não fosse “o Piper”, eu poderia até desconfiar de que esse era um daqueles textos, polêmicos e pagos, criados justamente para, pela divergência radical, chamar a atenção de um grupo que nem atentaria para o produto…

Ah! É engraçado observar que — especialmente em um filme que recebeu uma crítica tão alarmante por parte de um renomado teólogo — o personagem principal acaba sendo fiel à mulher desde o momento em que a encontra até o final… e aparentemente a recíproca, dela para com ele, também é verdadeira: por mais incomum e estranho que seja o ambiente onde existam.

E, Afinal… Quem Mata Mais: Piper ou Deadpool?

Levando em conta que “arrancar os olhos” é a primeira e mais leve sugestão dada por Piper, passando por uma gravíssima acusação de “falta de amor pelas ALMAS NUAS” e uma maldição velada de que nossas filhas correrão o risco de fazer papéis insignificantes de nudez no cinema… o texto de Piper é praticamente uma condenação generalizada — para todos aqueles que assistiram ou vão assistir a esse filme — ao inferno!
Qualquer arminiano que tenha cometido esse “pecado mortal” e lido o texto de Piper, vai ter a certeza de que seu destino é o próprio inferno, pois está escrito:

Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, E provaram a boa palavra de Deus, e as virtudes do século futuro, E recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento; pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério. Porque a terra que embebe a chuva, que muitas vezes cai sobre ela, e produz erva proveitosa para aqueles por quem é lavrada, recebe a bênção de Deus; Mas a que produz espinhos e abrolhos, é reprovada, e perto está da maldição; o seu fim é ser queimada.” (Hebreus 6:4–8)

(Aliás, diga-se de passagem: qualquer arminiano que cometer qualquer pecado e diante dessa passagem… é só sentar e esperar o inferno!)

Será que o zelo de Piper está começando a extrapolar a esfera pastoral protestante e assumindo um caráter centralizador e, praticamente, papal? Que poder é esse de saber como toda e qualquer pessoa reagirá a determinado evento e, imediatamente, imputá-la pelo pecado?!
Enfim, Deadpool mata centenas de personagens virtuais e com efeitos especiais, mas Piper e suas sete respostas… esses condenam diretamente ao próprio inferno!!

“E digo-vos, amigos meus: Não temais os que matam o corpo e, depois, não têm mais que fazer. Mas eu vos mostrarei a quem deveis temer; temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno; sim, vos digo, a esse temei.” (Lucas 12:4–5)

Sem dúvida que há algo de muito estranho acontecendo com meu querido Piper, autor de textos excelentes que serviram e ainda servem para minha edificação, mas que estranhamente resolveu dar um tiro de canhão numa mosca e, ao que exponho no presente texto, pode ter errado (e muito) o alvo!

O que é mais perigoso: você sair para assistir a um filme sabendo que é puro besteirol para dar risada e não ser levado a sério OU sair esperando prestar um culto racional ao Senhor e ser edificado na Palavra… e se deparar com uma teologia espúria nos padrões de Benny Hinn, Agenor Duque, Lagoinha, Malafaia…?

Enfim, desde o início do texto assumo e destaco minha condição de pecador, falível e perverso que busca ao Senhor, dependendo inteiramente d’Ele para ser salvo: não tenho mérito algum e, talvez, minha única qualidade seja a de observar as coisas que acontecem e analisá-las numa perspectiva bíblica sem facciosidades.
Espero que possam refletir acerca das colocações que apresento aqui e que isso possa servir para a edificação do Corpo de Cristo.

Que o Senhor Deus abençoe àqueles que O amam.