[Reforma #03] — Sola Gratia

[Por Pedro Aguiar]

Foto de Nikko Macaspac

Eu sei que há uma infinidade de textos e livros escritos a respeito do assunto. Muitos autores extremamente capazes e gabaritados escreveram, escrevem e continuarão a escrever — e que assim seja — sobre a Graça. Portanto, o que venho dizer não é nada novo, pelo contrário, é algo tão antigo, mas tão antigo, que observamos sua existência desde o princípio de tudo que existe. O que pretendo com esse texto é contextualizar e refletir sobre a Sola Gratia com a proposta de caminharmos juntos, a fim de respondermos as seguintes questões: O que significa Sola Gratia? Por que Sola Gratia? Para que Sola Gratia?

O que significa Sola Gratia?

Começando pela primeira pergunta, proponho primeiramente a apresentação do conceito de Graça, e depois uma reflexão sobre ela em uma perspectiva bíblica.

As definições que encontrei para Graça são: favor imerecido, mercê, dádiva; oferta ou favor que se oferece ou se recebe de alguém. Na esfera teológica, comumente pode-se dizer que ela é o dom que Deus concede aos homens para a salvação.

Sabendo então que Graça significa uma dádiva, um favor ou uma oferta que se recebe de alguém, sem que o seu alvo possua mérito algum que o faça digno de receber tal dádiva, ao olharmos para a perspectiva bíblica da Graça salvífica de Deus, tal presente ganha um sentindo muito especial. Ele indica que, através da Graça, Deus nos dá a salvação, e essa salvação tem início meio e fim, de maneira única e exclusiva, somente em Deus, pela morte e ressureição de Jesus, o Cristo de Deus.

Essa Graça de Deus é uma relação unilateral. Relação, pois parte de um ser e se destina a outro, ou seja, parte de Deus e se destina ao ser humano. Unilateral, pois a iniciativa, a execução e o mérito de toda essa obra é de Deus. De maneira mais prática e direta, não há absolutamente nada que o ser humano possa fazer para contribuir com a sua própria salvação.

Ao escrever esse texto pensei em alguém que pudesse ler e perguntar: Por que eu preciso da Graça? A Bíblia nos diz que todos pecamos e que nascemos já em pecado (Salmos 51.5; Romanos 3.23; 5.12). Nessa mesma Bíblia, o apóstolo Paulo nos diz que estávamos mortos em nossos delitos e pecados (Efésios 2.1), e que o salário do pecado é a morte (Romanos 6.23). Ou seja, o ser humano nasce pecador e espiritualmente morto, portanto, seu caminho natural o conduz à morte eterna. Oras, sabemos muito bem que um morto não pode se inclinar à vida, logo, o ser humano não tem como se inclinar à salvação. Os versículos 8 e 9 do capítulo 2 de Efésios nos trazem muita clareza sobre isso ao afirmar:

Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.

Considerando então que todos nascemos pecadores e que o pecado nos afasta de Deus, entender que a salvação acontece pela Graça, em Jesus, nos humilha. Ela nos faz compreender que o Criador de todas as coisas, de todo o Universo, dono das mais altas e sublimes constelações e do mais profundo núcleo da Terra, o Senhor de absolutamente tudo, Rei do mundo físico e metafísico, Puro, Santo, Excelso e Sublime, se fez homem e foi torturado de maneira cruel, sofrendo dores que são inimagináveis para nós. Ele foi sacrificado da maneira mais indigna que um ser humano na sua época poderia ser, sendo considerado injusto de morrer em contato com a própria terra que ele havia criado. Suspenso na cruz, entregou seu espírito ao Pai. Enquanto isso, a sua criação sofria de tal forma que a terra tremeu e as pedras se fenderam, os sepulcros se abriram e mortos ressuscitaram. O véu do templo, que limitava o acesso público a Deus, rasgou-se de alto a baixo. Depois de três dias, Ele ressuscitou com o propósito de manifestar a Graça de Deus consumada na expiação dos pecados de todos aqueles que são dele. E tudo isso por amor. A Graça é a manifestação visível do amor de Deus.

Por que Sola Gratia?

Muita gente se ilude, ou é iludida por outras pessoas, ao pensar que a Igreja Romana não acreditava na salvação pela graça. Isso é um grande erro. O segredo da coisa está na palavra sola. Então como a igreja encarava a Graça na salvação do homem?

Logo nos primeiros dias de vida, a criança era levada à Igreja para ser batizada. O batismo, nessa perspectiva, significa a infusão da graça salvífica no ser humano. O problema é que com o passar do tempo, conforme a criança ia crescendo e se desenvolvendo, ela cometia pecados. Estes pecados, minariam a Graça salvífica infundida no batismo.

O fiel já teria recebido a Graça no passado, e não haveria nenhum favor extra para auxiliá-lo. Então, depois de cometer um pecado, o ser humano só poderia obter o perdão mediante a confissão desse ao clérigo e o pagamento de penitências, sejam elas penitências físicas, espirituais ou monetárias. Essa dívida poderia ser paga em vida, ou após a morte. Se não fosse pago todo o preço da dívida estando em vida, após a morte a pessoa iria ao purgatório e lá esperaria o tempo correspondente à dívida pendente, para só então ter acesso ao Paraíso.

É exatamente aqui, nesse processo de obtenção do perdão mediante pagamento de penitência, que entra a indulgência. Acreditava-se que haviam homens tão santos que, além de atingir a medida de piedade para si mesmos, a excediam. Esta sobra era confiada ao Papa, que distribuiria tais méritos em auxílio de fiéis menos santos. Na época, via prática corrente, o Papa entregava tais méritos aos fiéis que contribuíam financeiramente com a Igreja Romana. Através destas indulgências, os fiéis seriam capazes de diminuir a sua permanência no purgatório, ou a de algum ente, ou até mesmo comprar sua ida direta ao céu. Por trás disso, a Igreja Romana coletava esse dinheiro para a construção da Basílica de São Pedro, entre outras regalias.

Tudo isso revoltou o monge agostiniano Martinho Lutero, que via nesta doutrina uma redução da glória e da justiça de Deus, pois o Senhor passaria a ser um Deus fraco, manipulável e mercenário, sem um senso mínimo de honra, vendendo seus próprios princípios por algo tão baixo. Além disso, o incomodava tremendamente a contradição de tal ensino às Sagradas Escrituras. A Bíblia nos diz que a salvação se dá pela Graça somente, é um favor de Deus que não merecemos, conforme expresso em Efésios 2.1–10, principalmente nos versículos 8 e 9, e em todo o restante da Escritura. Por isso, os Reformadores, em oposição à Graça Infundida, entendiam que a Graça é Imputada. Os méritos de Jesus Cristo são imputados sobre os que se rendem a Ele. Como a obra de Cristo é perfeita, aqueles que a recebem passam a ser perfeitos — em Cristo, não em si mesmos. A Graça não é uma medida a ser administrada: é o saldo total e absoluto do débito, mais um acesso infinito ao crédito divino.

Para que Sola Gratia?

Quando entendemos a Sola Gratia, entendemos a soberania de Deus e o nosso tamanho em relação a Ele. A Sola Gratia acaba com o orgulho natural humano, pois revela a nossa impossibilidade de fazer qualquer coisa para merecermos a salvação e o amor de Deus. Ao mesmo tempo, depois de salvo por essa maravilhosa Graça, o ser humano pode e deve se sentir valioso e, principalmente, amado por Deus. Esta pessoa pode viver livre e leve, desfrutando do amor de Deus, pois sua salvação repousa em seu Deus, e não em seus próprios atos. Não há nada que ela faça que conduza o Senhor a amá-la menos, nem que o faça amá-la mais. Ele graciosa e imutavelmente ama os seus filhos.

Alguns entendem isto da forma errada. Pensam que a Graça é um cheque em branco para o pecado. Todavia, a Graça que salva é a mesma Graça que transforma a nossa mentalidade e redireciona a inclinação do nosso coração: passamos a desejar intimidade com Deus, não a lama do pecado.

Além disso, a Sola Gratia faz com que o homem salvo deseje compartilhar dessa salvação graciosa com outras pessoas e, ao compartilhar, o faz entender também que ele é apenas um instrumento nas mãos do Grande Maestro dessa composição. Portanto não há o que temer e não há com o que se frustrar, pois a obra é dele. Todos os nossos atos se dão pela Graça de Deus, assim como os seus resultados; nos encontramos livres (tanto nesta esfera da vida quanto em todas as outras) das correntes dos resultados pragmáticos..

Portanto, entender a Sola Gratia deve fazer com que nos prostremos diante da glória, da graça e do amor desse maravilhoso Deus, que se inclina a homens e a mulheres pecadores a fim de salvá-los, para ajuda-los a entender e desfrutar da dimensão infinita de seu amor tão grande e perfeito. Entender a Graça deve nos libertar para vivermos o hoje tendo em vista um eterno amanhã mais perfeito do que podemos imaginar.

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