Sobre a fé

A Fé como virtude divina [uma breve perspectiva cristã]

[Por Lucas Gonçalves]

A Fé é como a profunda raiz das grandes árvores

Quando nos inclinamos a tirar do papel a proposta deste blog, a primeira ideia que nos surgiu foi a de delimitar os nossos fundamentos, a nossa cosmovisão. Queríamos agir honestamente apresentando aos possíveis leitores quais são os parâmetros que guiam o nosso pensamento. Então escrevemos Deus existe mesmo?, onde defendemos o quão provável é a existência real de Deus; em seguida publicamos o Nós podemos, de fato, conhecer a Deus?, argumentando que Deus é um ser pessoal e, portanto, é possível conhecê-lo a partir da Bíblia, sendo esta a sua Revelação Especial; depois postamos o Nós podemos confiar na Bíblia!, onde pontuamos características peculiares que distinguem o texto bíblico dos demais livros sagrados, o que o torna especialmente digno da nossa confiança; continuando a sequência natural dos assuntos, publicamos O Deus que Escreve a fim de responder a óbvia e intrigante pergunta: “se homens escreveram a Bíblia, como podemos dizer que Deus é o seu autor?”; e, por último, demos diretrizes de como podemos ler a Bíblia de forma proveitosa no Lendo a Bíblia.

Fechando o arco desta série, produzimos este texto sobre a fé. Nossa intenção é, nos apoiando na própria Bíblia e em C. S. Lewis, apresentar de forma concisa um conceito de fé dentro dos parâmetros cristãos tradicionais. Ora, uma vez que há fortes indícios naturais que apontam para a existência de Deus, e considerando que a Bíblia é a sua Revelação Especial, conhecer ou não este Soberano Criador passa a ser uma simples questão de fé. Todavia, este conceito se diluiu num oceano de misticismos e significados derivados em nossos dias, daí a necessidade de retomarmos o fundamento de forma mais coerente.

O que a Bíblia diz sobre a Fé?

O texto bíblico possivelmente mais famoso que trata sobre a temática a qual nos propomos se encontra em Hebreus 11. Esta passagem é conhecida tradicionalmente como a Galeria dos Heróis da Fé. O texto é um pouco extenso, portanto faremos um breve panorama sobre o seu conteúdo: basicamente, o capítulo 11 de Hebreus nos oferece uma grande lista, segundo o próprio autor, uma lista resumida, de homens e mulheres que, no passado, por conta de sua fé, suportaram várias dificuldades e venceram diversos desafios. O texto diz que a fé deles era fundamentada no que haveria de acontecer no futuro. Uma vez que eles viram esta coisa futura, se encantaram com ela e, a esperando, julgando que o prêmio era mais precioso que a própria vida, obraram feitos incríveis. É importante percebermos que eles não se apoiaram em expectativas pessoais futuras, mas sim em fatos acerca do futuro sobre os quais tomaram conhecimento.

O ponto fundamental do texto é que a fé está diretamente ligada com o conhecimento. Por verem o que haveria de acontecer, e por gostarem deste futuro apresentado, eles se apegaram no presente às promessas vindouras de Deus. Neste sentido, a fé não é uma simples força mágica, um feitiço ou um amuleto qualquer. Para o décimo primeiro capítulo de Hebreus, a fé é uma firme certeza em algo conhecido e desejável. Não apenas uma simples “certeza”, mas, de acordo com a leitura tradicional dos Puritanos, a fé se resume em conhecer, concordar e confiar. Os Heróis da Fé conheceram a Deus, concordaram com seus planos e confiaram em suas promessas. Disso, eles tiraram forças, enfrentaram e venceram todo o mundo e a si mesmos, alcançando o prêmio que tanto almejavam.

Dentro destes parâmetros, não é de se estranhar que a Bíblia diga que a Fé vem pelo ouvir a Palavra de Deus. Os Heróis da Fé não foram pessoas supersticiosas, nem se guiaram por sentimentos aleatórios e/ou contraditórios. Eram pessoas que foram expostas à Deus, ouviram a sua Palavra e isto fez todo o sentido para eles, de forma que remodelaram suas vidas com as novas diretrizes.

O que C. S. Lewis diz sobre a Fé?

Em Cristianismo Puro e Simples, C. S. Lewis dedica dois capítulos ao tema. No primeiro, de forma ímpar, ele aponta a fé como uma virtude. Seu argumento se baseia num ajuste de perspectivas: ele afirma que a fé não é contrária à razão, como costuma-se pensar; na verdade, ela seria reguladora das emoções. Uma vez que racionalmente aderimos a alguma verdade, é responsabilidade da fé nos manter firmes nesta verdade. O autor nos fornece vários exemplos, e, a partir deles, pensamos na seguinte ilustração: um garoto, que está aprendendo a nadar, observa muitas pessoas na água, nadando em segurança; percebe o seu instrutor cuidando dele; conta com suas boias de braço; este garoto já conhece os movimentos e já teve a experiência de boiar na superfície da água anteriormente. Logo, ele tem razões para sentir-se em segurança. Entretanto, ao entrar na piscina, o menino sente outra vez aqueles mesmos medos primários de quando começou a aprender a nadar. As emoções, mais uma vez, escureceram a sua razão. A fé, portanto, será a responsável por manter a chama da razão acesa no meio da crescente escuridão das emoções. Ela lembra o garoto, neste exemplo, de que ele é absolutamente capaz de nadar, que é racionalmente aceitável e totalmente possível completar sua tarefa.

Esta ideia de fé, proposta por Lewis, em nosso entender, está completamente orientada favoravelmente à perspectiva bíblica. A fé não substitui a razão, nem mesmo é uma ponte por onde atravessamos abismos lógicos, lacunas da razão. A fé é uma âncora que mantém o barco seguro em meio à tempestade; é uma raiz profunda e forte. Neste sentido, portanto, a fé é uma virtude.

Considerações finais

A fé como virtude diária é simples de se desenvolver. Todavia, a Fé exposta em Hebreus 11 é, sem dúvida alguma, um presente de Deus. Dependemos que Ele se revele a nós e nos apresente seu plano futuro, para que então venhamos a confiar incondicionalmente nEle e em suas promessas. É com muita alegria que afirmamos que Ele já fez isso: através da Revelação Geral (a Criação), Ele nos diz que existe; pela sua Revelação Especial (a Bíblia), nos ensina sobre quem e como Ele é, bem como o que tem feito e fará no futuro. Deus revelou-se à humanidade, agora precisamos pessoalmente buscar conhecer a este Deus — através das Escrituras.

Infelizmente, todavia, há um grande empecilho neste processo: o nosso orgulho. Se Deus existe, e se Ele é mesmo como a Bíblia fala, então não podemos viver da forma que bem desejarmos. Naturalmente, precisaremos nos conformar a Ele, o que, de certa forma, nos fere bastante. Quanto a isto, nos apegamos ao fato de que o homem não têm se saído muito bem em cuidar da própria vida. A História nos mostra isto em letras garrafais! Sendo assim, talvez seja hora de sermos humildes e aceitarmos que não somos auto suficientes; precisamos dos cuidados do Criador e Mantenedor do Universo.

Sabemos que o que expusemos é muito introdutório; há diversas outras questões e temas a explorar — e nós desejamos muito fazê-lo. Porém, toda caminhada começa com um primeiro passo, e acreditamos que com estes textos iniciais, além de deixarmos fundamentado o básico da nossa cosmovisão (Deus existe e ele é uma pessoa que se apresenta através da Bíblia, a sua Palavra e a verdade final e absoluta), também apontamos a quem quer que tenha nos lido um excelente caminho a trilhar. Na sequência, uma vez que Deus revelou-se especificamente através da Bíblia, a nossa próxima série irá expor de forma resumida qual a mensagem geral que ela contém.

Conte conosco no decorrer desta intensa, difícil, prazerosa e recompensadora viagem!
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