ESCREVER UM POEMA COM VOCÊ
é ainda melhor que ir de caminhão a Burkina Faso, Hong Kong, Manchester
ou Bologna ou que dividir vinho no Bairro Alto
em parte porque nos seus olhos há mais azeite que em Jerusálem,
em parte porque nada aconteceu pra que eu gostasse tanto de você,
em parte porque você gosta de si mesmo
em parte por conta das buganvílias que não pedem permissão
pra proliferar no verão de Lisboa às 9 da noite quando o sol quase esquece
de descer enquanto nós estamos batizados pela Luz subindo e conversando
de um lado pro outro respirando nos nós das nossas pausas
e os planos do futuro parecem não ter nenhum rosto, só as desculpas
de repente você se surpreende que percamos tanto tempo com a mente e olho
pra você
e prefiro olhar pra você a escrever todos os poemas que ainda tenho pra escrever
exceto esse que escrevo agora contigo e que de qualquer maneira é delicioso
além do “Tabacaria” de Fernando Pessoa que está na sua Casa em Lisboa
onde você nunca vai de modo que posso tentar te beijar quando sairmos de lá
e isso de você se movimentar mais ou menos dá conta da necessidade do Cinema
mesmo que em casa eu nunca pense no Fellini ou no Untitled
ou no processo criativo de Lars Von Trier que costumava me deslumbrar
e o que adianta à patafísica tanta loucura
se eles nunca falaram sobre dividir um poema com alguém
ou por sinal ao glamour perverso que fazem dos poetas que tiram a própria vida
acho que todos eles estão deixando de ter uma experiência maravilhosa
que eu não vou desperdiçar
e por isso estou contigo
aqui
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