Ninguém é contra Marcela Temer e as belas, recatadas e do lar
Muita gente não entendeu a manifestação “Bela, Recatada e do Lar” que tomou conta das redes sociais nestes últimos dias. Não entenderam ou não quiseram entender. Vou ser didática, então. As fotos que apareceram na sua timeline estavam se manifestando contra a matéria da revista Veja e não em reprimenda ao estilo de vida escolhido por Marcela Temer, a esposa do vice-presidente da República, Michel Temer. O público apenas ficou chocado com a exaltação do texto ao recato da moça, mostrado como motivo de orgulho, e descrito de tal forma que muitos leitores se sentiram na década de 50 lendo tutoriais sobre como uma mulher casada deve agir.
Coleguinhas de profissão garantiram que a Veja nada mais fez do que um texto irônico. De qualquer forma, irônico ou não, despertou a ira de alguns e a confirmação de que o mundo tem salvação, na cabeça de outros. O que é preciso destacar é que as feministas, e não só elas, se sentiram ultrajadas com o fato de em 2016 ainda haver rótulos sobre as atitudes corretas para as mulheres. O protesto foi para dizer que podemos ser o que quisermos. Se quiser ser recatada, vá em frente. Se quiser se extravagante, seja feliz. Se quiser casar virgem, que lindo. Se quiser ser uma “mulher rodada” e dar para meio mundo, divirta-se. É isso, entende? Somos contrárias às imposições de gênero e entendemos que cada pessoa deve seguir o caminho que mais lhe fizer feliz, é muito simples. Não temos raiva ou inveja de Marcela Temer, apenas queremos deixar claro que há outras formas de ser mulher, cada uma tem a sua. Acontece que ainda tem gente que se sente ofendida com isso e, assim como choveram fotos e comentários de apoio à hashtag, brotaram comentários que nos fizeram ver como o feminismo é urgente e atual. Nem mesmo uma postagem da ONU em defesa das mulheres escapou das esclarecidas opiniões dos nossos queridos brasileiros preocupados com o país, que acho que comem cocô mesmo.



Além destas boçalidades, nos mesmo dias do #BelaRecatadaeDolar me deparei com uma matéria sobre uma mulher de 23 anos resgatada pela polícia após 2 anos de cárcere privado imposto pelo marido. Sessões de espancamento, tortura, controle total sobre suas atividades e o pior: com o conhecimento da família dele. Muitos vão dizer que ele é um psicopata e que não tem nada a ver com machismo x feminismo, mas tem. Até pouco tempo atrás, isso não seria entendido pela sociedade como um crime, afinal, ele era o marido. Entenda-se marido, neste caso, como o detentor de uma esposa. Era comum desrespeitar, humilhar e espancar mulheres. O próprio cinema nos mostra isso em cenas que evidenciam que era um ato tão natural quanto comer e dormir. E se você acha isso um exagero, destaco aqui que o Estupro Marital passou a constar como crime no Brasil apenas neste século. Antes disso, era dever da esposa fazer sexo com o marido, logo, não seria estupro se o homem agarrasse a mulher, mesmo contra a vontade dela, para ter relações sexuais, se fossem casados. Esta forma de abuso foi condenada pela ONU apenas em 1993 e, no Brasil, está previsto na Lei Maria da Penha, criada em 2006. Pensem no quanto isto é recente. Pensem além disso : mais da metade dos países no mundo todo não punem este crime.
Poderia citar tantas outras leis que evidenciam o machismo da sociedade brasileira, mas vou me deter apenas ao mais crucial aspecto deste meu texto: o feminismo, com todas suas variações, serviu e serve para que eu não tenha a mesma vida que a minha vó, por exemplo, teve. O virtuoso casamento dela de mais de 50 anos está descrito na Lei Maria da Penha. Restou a ela apenas sofrer em silêncio, pois “ele é homem e isto é um casamento”. Foi graças às que queimaram sutiãs que hoje tenho um relacionamento saudável com meu parceiro, sem dependência, apenas amor e vontade de crescer juntos.
Quando falamos em empoderamento feminino e feminismo falamos de igualdade de direitos e, por consequência, de deveres. Não queremos ser iguais aos homens, não queremos deixar de gostar de nossas coisas de “mulherzinha” (as que gostarem). Queremos igualdade de direitos e de deveres. Quando lutamos para que mais mulheres no mundo todo possam estudar e chegar a uma universidade para construir uma carreira de sucesso, queremos mostrar que nós queremos e podemos pagar nossas próprias contas e assumir responsabilidades. Que sejamos as donas de nossa vida e que possamos fazer as escolhas que quisermos com todos os ônus e bônus que isso trouxer. Aí os machistóides vão dizer “ah, mas serviço militar obrigatório não querem”. Quem disso isso? Esta é mais uma prova do machismo brasileiro, que entende que mulher deve ficar em casa, enquanto o homem vai à luta. Muitas quiseram seguir carreira militar e não puderam, hoje a participação feminina está aumentando, mas tenho certeza de que ainda deve esbarrar em machismos. Neste ponto gosto de citar Israel, onde o serviço militar é obrigatório para ambos, apesar de ainda haver diferenças. Eles servem por 3 anos, elas por 2. Independente disso e de outros problemas, já temos aí uma certa igualdade de direitos e deveres. Basta lembrar que os israelenses tiveram uma primeira-ministra de 1969 a 1974, Golda Meir, enquanto o Brasil teve uma líder feminina apenas em 2010, com a eleição de Dilma Rousseff.
Talvez, diante destes argumentos, você ainda ache bobagem falar de feminismo e siga achando ridículo o protesto #belarecatadaedolar. Neste caso, lembro a você que ainda há meninas que enfrentam jornadas de trabalho doméstico exaustivas que as impedem de estudar ou simplesmente de ter uma infância feliz pelo fato de serem meninas. Lembro também que muitas ainda são obrigadas a casar muito cedo ou simplesmente o fazem pelas circunstâncias desfavoráveis. Acontecem coisas inimagináveis nestes rincões do Brasil, onde a violência contra a mulher, em suas diferentes formas, ainda é muito frequente e tem o apoio de um Estado ineficaz. Obviamente que abusos e trabalho infantil atingem meninos e meninas, mas a questão de gênero ainda pesa. Feminismo não é uma pauta partidária ou apenas de esquerda. Feminismo é falar de respeito à vida e aos direitos mais fundamentais. É dizer desde cedo às meninas e mulheres que elas são inteligentes e capazes de realizar seus sonhos e serem felizes. Para muita gente este texto choveu no molhado, mas entendam que falar de certos assuntos nunca é demais.