A industrialização da informação

Tempos Modernos — Charlie Chaplin

O incansável tema “o futuro do jornalismo” me pegou de vez não nas inúmeras vezes em que foi debatido nas salas de aula e muito menos no exercício da profissão, mas na leitura do artigo “A Batalha de Nova Orleans” de Ryan Chittum, (2013 — é velho, mas é novo -) traduzido na Revista de Jornalismo da ESPM, a versão brazuca da Columbia Journalism Review.

Na verdade, a reflexão foi o inverso do que se imagina. Ao invés de me questionar sobre o “jornalismo como negócio” ou “o fim do impresso diante da supremacia do digital”, percebi que os Tempos Modernos de Charlie Chaplin chegaram (ou saltaram aos olhos?) às redações. Veja bem, após a demissão em massa no Times — Picayune, jornal tradicional de Nova Orleans, o foco principal da matéria citada, os novos funcionários

“seriam orientados a escrever posts otimizados para mecanismos de busca para a web muitas vezes por dia”.

Não sei que parte da sentença (literalmente — ou não) me parece mais impertinente ao ambiente jornalístico, “otimizados” ou “muitas vezes por dia”. Mesmo com pouco tempo na área, acredito que, primeiramente, é necessário saber distinguir entre o poder de síntese, sem confundi-lo com otimização de palavras ou mesmo de tempo de leitura e trabalho. E, em segundo lugar, questionar o intuito da escrita dos posts em si.

Para tal, acredito que o importante é pensar na estrutura mecânica e industrializada de nossa sociedade. O que “vale” mais: um produto igual a outros mil, ou um particular, bem pensado e produzido? Leão Serva, em um debate da Folha, colocou a discussão em pauta quando explicou que, uma vez que a manchete dos maiores jornais do Brasil são as mesmas, a informação daquela matéria é zero. Zero porque todos já vimos no Facebook/ Instagram/ Twitter o atentado em Paris, o gol do Corinthians ou o protesto da vez. Logo, queremos mais. E por “mais” entende-se, mais reflexão, crítica em informação, não posts, matérias, artigos rasos e óbvios.

Só que, infelizmente, são estes últimos que dão o que a grande mídia (e o mais desconhecido usuário de internet) tanto busca: cliques. Por eles, de tudo um pouco se faz, inclusive, senão principalmente, o treinamento de profissionais para produzir mais em menos tempo, sobrepondo a quantidade à qualidade. Ou seja, “o futuro” vê o jornalismo como linha de montagem, mais próximo às máquinas que ao artesanato, menos pessoal, mais substituível e claro, com menor prazo de validade. O velho e bom formato industrial.

“Consuma em X dias”, dizem. É só não se esquecer de manter refrigerado (comentado, compartilhado, etc)…