O Amor de Bruno e Lau

Terezaduzai
Nov 7 · 4 min read

Bruno está despido diante do espelho, seus cabelos independentes cresceram para todos os lados, cresceram para cima, cresceram para os lados. Ele observa seu rosto, seu tórax, seu abdome, seus membros, a rigidez de sua musculatura, a juventude que o favorece. Aproxima-se do espelho, beija seus lábios, olha o olhar de seus olhos. Lou entra no quarto e o surpreende imóvel, rente ao espelho.

- Se há de me trair que seja com seu reflexo no espelho.

- Sem se mover, Bruno responde Lou:

- Não há traição em nossa liberdade.

Bruno permanece na mesma posição. Lou se aproxima e vê que Bruno tem lágrimas nos olhos. Ele despe-se e também se põe diante do espelho; sua mão esquerda aperta a mão direita de Bruno. Ambos exploram seus corpos: Bruno apaixona-se por sua pele negra, pela perfeição de sua anatomia e pela liberdade de seus cabelos crescidos. Lou mira seus pés esquálidos, seus membros delicados, seu corpo efeminado, seus cabelos longos, lisos e castanhos, seus olhos verdes, seu nariz pequeno, seus lábios de coração.

- Sou uma senhorita com pênis.

- Sou um homem apaixonado por uma senhorita com pênis.

- Importo-me com a cor de minha pele. Por que branca se a desejo negra? Gostaria de me parecer mais com você

Lou é linda, mas o reflexo do corpo de Bruno nu no espelho a encanta. Seu amado é o mais belo dos homens.

- Eu gostaria de ter seios para que você os beijasse e sentisse prazer em acariciar meus mamilos; gostaria de ter uma vagina rósea e delicada para que você a sentisse, a penetrasse muitas vezes.

- Gosto de seios e gosto de vaginas, mas gosto muito mais do nosso amor: deste nosso amor nervoso, cheio de compromissos, de acordar cedo com as mãos enfiadas entre suas pernas acariciando seu sexo, sentindo-o endurecer de prazer, crescer em minhas mãos, ouvindo sua respiração ofegante; são indescritíveis nosso orais ao amanhecer, nossos beijos; nossas carícias libidinosas, nossos sussurros, nossos gemidos. E, depois, nossos banhos: os cheiros que se confundem no vapor no banheiro fechado, o prazer em lavar suas costas e sentir suas mãos deslizarem nas minhas, e os risos, e o abraço apertado para tirarmos a espuma de nossos cabelos ao mesmo tempo. É maravilhoso escolhermos nossas roupas juntos, mesmo que nossos estilos sejam tão diferentes: eu, um músico , você, uma professora universitária de anatomia. E, quando estamos prontos, estou diante da mais bela namorada. Mas agora você está séria, pouco fala e suas atitudes são formais. Eu não comento, mas sei, teme não resistir, se lambuzar e manchar a brancura de seu uniforme. Tomamos os nossos cafés quase em silêncio. Seria em silêncio não fossem os olhares apaixonados, as carícias entre nossos pés e pernas sob a mesa, os toques demorados das pontas de nossos dedos quando passamos a manteiga, o açúcar, a geleia um para o outro. Tudo isso faz um barulho descomunal no meu, no seu coração: TOC, TOC, TOC… Antes de sairmos escovamos os dentes. No espelho agora o reflexo de nossas bocas cheias da espuma do creme dental. Às vezes apostamos para ver quem termina primeiro: escovar os dentes, passar fio dental, escovar a língua, enxaguar a boca. Você vence muitas vezes e seus dentes são perfeitos, e seu hálito estremece minha alma.

- Quero saber mais sobre as vulvas que você sente. Quero saber se têm pelos ou são lisas, se exigem pouco ou muito esforço para serem penetradas. Quero saber se seus orgasmos têm a mesma intensidade dos meus.

- Quase todas as vulvas que conheço são lisas, depiladas, portanto sem pelos, também não exigem muito esforço para serem penetradas, pois são muito ativas sexualmente e, sim, posso sentir seus orgasmos quando se contraem, mas não com a mesma intensidade que sinto os seus, porque nos amamos e tudo o que acontece entre nós vibra em todas as nossas células, em todos os nossos tecidos, em todos os nossos órgãos. Nossos orgasmos são sincronizados. Amo você, Lau.

- Amo você, Bruno, e todos os corpos que conheço, conheço por você. Assim também me sinto amada, porque um pouco de mim sempre está em você em todos os momentos de seu dia. São amáveis os cheiros de corpos desconhecidos em seu corpo.

- Lau, o mesmo tempo que vivemos nos distanciará? Há muitos movimentos em nossos dias, muitas pessoas, muitas vozes, muitas palavras honestas de amor, muito desejo de alegria para dividir em casas pequenas.

- Talvez e, se assim for, sentirei sua falta.

- Nunca nos distanciaremos de nossas lembranças. Por toda a minha vida lembrarei de sua voz, de suas dores de cabeça. Não duvido que levarei remédios na bolsa para a possibilidade de encontro-la no meio de uma crise de enxaqueca. Ainda que anos passem sem que a veja.

- Se um dia eu implantar seios, se um dia eu ter vagina. Você me amarará mais? Sentirá maior vontade de permanecer ao meu lado?

- Não. E você, se amará mais? Permanecerá em si?

- Não tenho certeza. É um grande risco. Gosto de meu pênis, gosto de meu peito liso. Gosto de roupas femininas, gosto de conversas femininas, gosto de lugares onde circulam mulheres, não entro em banheiros masculinos.

- Somos namorados, somos amantes, somos felizes, somos livres.

- A porta sempre está aberta e nosso retorno nunca será uma certeza.