Do cinza ao colorido

Acordou cedo naquela terça-feira cinzenta. Parecia que o tempo tinha resolvido combinar com o jeito que ela se sentia. Não precisou levantar da cama pra sentir que não era um dia bom. Não conseguiu ir ao trabalho, nem conseguiu levantar pelas próximas horas que se seguiram. Era um dia daqueles em que as coisas pareciam confusas demais, incertas demais, e ela, insegura e ansiosa demais pra ter forças pra enfrentar um dia dentro da sua própria mente. Ouviu dizer uma vez que amarelo é a cor dos sentimentos bons: ela sentia que se pudesse pintar os dias que vieram antes dessa terça-feira, seria dessa cor. Hoje ela só conseguia pensar em vários tons do cinza.

Deitada, não conseguia parar de pensar no quanto pra ela as cores dos dias mudam de vez em quando de um tom vibrante para um cinza opaco, feio e cheio de sentimentos incertos. Seria bom demais se a gente pudesse acordar sempre enxergando paletas de cores vivas, coloridas e vibrantes que embalassem teu humor e teus sentimentos e te passassem segurança e paz — pensou. Mas hoje não era um dia assim.

Revirou na cama e percebeu que todos os dias cinzas sugavam sua autoconfiança, sua segurança, suas certezas e aquela cor parecia mórbida e cinza demais para enfrentar. O velho choro na garganta e a angústia no peito que sempre chegavam sem dar aviso e sem trazer motivo estavam lá, assim como estavam em todos os dias cinzentos que ela acordou. A ideia da rotina que a esperava durante o decorrer das horas naquele dia era esmagadora demais e muito, muito, muito cinza para seu próprio peito que no momento ainda estava colorido, mas com cores opacas e fracas. Então, resolveu ficar e largar as responsabilidades por um dia, se negou a sair do quarto e da cama, onde tudo parecia um pouco menos cinza.

Choveu muito naquele dia, o sol não apareceu e as cores vibrantes de laranja não apareceram quando o ele se pôs. Quando a noite chegou e outro dia se aproximava, ela se sentia brevemente melhor, chegando à conclusão que tinha passado por mais um dia cinza e ela continuava aqui, talvez não tão colorida como desejava naquele instante, mas pronta pra colorir o dia seguinte. Estava cansada daquela palidez toda. Repetiu pra si mesma o que sempre repetia no final de dias como aquele: uma cor de cada vez. Hoje a cor foi cinza, mas amanhã pode vir um vermelho de saturação alta, com mistura de laranja e toques de amarelo para fazer vibrar essa pintura que todos os dias ela constrói e adicionando novos tons, novas curvas, misturando cores, ela vai se tornando esse sincero e maravilhoso colorido.

tereza 02/04/2017


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