Dinheiro, Valor e Arrego.

Já parou pra pensar que a maior parte do dinheiro que a gente tem agora é só um monte de códigos binários num computador protegidos por um sistema de criptografia, mas assim

se desse um troço nesse código

a gente não teria mais nada?

De vez em quando eu vou ao caixa eletrônico.

Deve ter tido um tempo em que as pessoas achavam que os caixas eletrônicos iriam substituir todas as pessoas, mas, enquanto existirem velhos e pessoas desconfiadas, alguns empregos existirão. Eu sou desconfiado mas por outro lado também eu gosto menos de interagir com as pessoas do que parece, então geralmente vou ao caixa eletrônico e fico lá

olhando aquela máquina me dizendo que eu tenho x dinheiros.

Tem uma logística muito doida para a máquina me obedecer e quando eu quiser sacar meus x dinheiros ela ter as notas ali pra me dar. Porque simplesmente não existe FISICAMENTE todo o dinheiro que as pessoas possuem em suas contas.

Então me dá esse arrepio quando eu penso em certas coisas. O meu dinheiro é realmente meu? Assim, eu tenho realmente poder sobre esse dinheiro?

Porque a gente aprende que dinheiro é poder. Principalmente quem é ou cresceu pobre entende que dinheiro é a base de tudo. Não dá para comer nem morar sem ter isso, simples. Então vá buscar até o resto da sua vida.

A gente confunde dinheiro com poder de compra. E poder de compra com poder econômico.

Dinheiro é a representação de um valor. Por exemplo, você tem 100 reais. Você tem 100 unidades de valor.

Poder de compra é a capacidade de uso prático do valor que você tem. Por exemplo, com 100 reais você tem a capacidade de comer por volta de 2 hambúrgueres gourmet. Ou 1 mais uma Schweppes (xuépis).

Poder Econômico tem a ver com a capacidade de influência do seu dinheiro e inclusive a capacidade do seu dinheiro gerar mais dinheiro. Daí é interessante pensar que o mesmo dinheiro na mão de pessoas diferentes tem valor diferente.

E se fica perturbador pensar assim pior ainda é quando você começa a calcular seu salário não por números mas em valores. Por exemplo, quanto tempo de trabalho eu levo para gerar 100 reais? Suponhamos que a pessoa ganha 1500 reais e trabalha 40 horas semanais, ou seja 8 por dia, 160 horas por mês.

Estamos falando portanto de uma pessoa que ganha 75 reais por dia de trabalho.

Toda vez que alguém que ganha 1500 reais, gasta 75 reais em algo ela deve entender que o que ela está utilizando ali é o valor dado por 1 dia de seu trabalho e por valor entende-se: o tempo e todos os recursos pessoais naturais e de especialização ou habilidade adquirida para o exercício daquela função pelo período de 8 horas. Resumidamente é o quanto a sociedade acha que você merece por executar (portanto ter habilidades e condições de executar) uma determinada tarefa.

Vamos chamar essa pessoa que ganha 1500 reais de Gilmar, do Estoque.

É correto então afirmar que 75 reais para Gilmar significa bastante coisa. Mas para um menino de 7 anos que, sem nunca ter trabalhado, tem um patrimônio de mais de 2 milhões, 75 reais significa pouquíssima coisa.

Vamos arredondar as coisas, vamos dizer que exista mesmo esse menino com exatamente 7 anos e ele tem exatamente 2 milhões.

Esse menino tem portanto 2557 dias de vida.

Isso dá 782,16 por dia. Por dia de EXISTÊNCIA não de trabalho.

Porque se formos ao reino do absurdo e considerarmos apenas 8 horas de cada dia desse menino como, hum, horas produtivas de trabalho, de segunda a sexta, considerando férias de um mês hein.

1298 por dia é o que esse menino ganhou por existir das 08 as 17 horas. 75 reais para ele significa menos de meia hora de não fazer nada.

Foi ao banheirinho e demorou para evacuar. 75 reais.

Assistiu um episódio de Ben 10. 75 reais.

Esperou a empregada fazer um Mucilon e trazer uma torradinha com geléia. 75 reais.

Todo um dia de trabalho de Gilmar carregando caixas, mais uma hora para ir ao sujinho mais próximo e comer um bife à cavalo e manter-se nutrido para carregar mais caixas, vale menos que o soninho da tarde desse menino.

Mas calma. Apesar de tudo, Gilmar ainda está acima das 46% das famílias brasileiras que tem renda de até 1.356 por mês (datafolha/nov. 2013). Gilmar está praticamente ostentando quando vai ao McDonalds pedir não um lanche com extra alguma coisa e fritas média e ainda pede um sundae de caramelo, que será consumido num cantinho das caixas abertas empilhadas, conhecido popularmente como “arrego”.

Então voltamos ao caixa eletrônico.

A máquina diz que tem algo de valor meu registrado em sua programação. Caso eu queria transformar essa informação em notas físicas em minha mão é necessário que seja num horário determinado. Portanto o dinheiro é meu, mas só quando eu puder acessá-lo.

Caso a máquina dê algum problema ou estiver em conserto ou atualização, ela me indicará ir para outro lugar com máquinas. Portanto o dinheiro é meu, mas nem sempre imediatamente porque depende de determinadas circunstâncias que envolvem o bom funcionamento de máquinas.

A máquina também me pede uma confirmação de que eu sou eu várias vezes. Caso eu falhe nessa verificação não posso efetuar o resgate do valor que ela diz me pertencer. Portanto o dinheiro é meu, mas só em determinadas circunstâncias em que eu possa comprovar através do computador minha identidade e ligação com aquele dinheiro.

Há também uma parcela do meu dinheiro que sai de minha “posse” sem nunca ter de fato passado por minhas mãos.

É muito estranho pensar nisso. Que o dinheiro que é meu, tenho pouco controle do acontece com ele. Que ele significa o valor dado ao meu trabalho. Mas que há gente que tem muito mais valores sem ter trabalho que o justifique.

É, eu acho que eu também vou precisar desse arrego, Gilmar.

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