Rafael Braga E O Centro do Labirinto
Um nome apareceu esses dias para colocar em xeque a proposta de democracia plena: Rafael Braga.
Sim, vocês conhecem toda a história, não vou repeti-la. O que talvez não tenha ficado claro seja o que está em jogo, o que isso significa, e porque o grito de Liberdade para Rafael Braga não significa só “uma pauta de pretos”.
A classe média de esquerda tinha até pouco tempo o poder de segurar um rojão específico: a capacidade de gerar repercussão e visibilidade. Faz sentido, acesso gera mais acesso. Todo mundo conhece a frase que na periferia as balas não são de borracha. Quando foi então que a policia passou a não se preocupar em executar pessoas na fuça dos consumidores do hipermercado em Pinheiros?
Esse labirinto é complicado e no centro dele talvez encontremos um bicho muito mais bizarro que um Minotauro. Pega na mão do seu coleguinha e vamos juntos nessa excursão.
Começamos aqui, no tapete de entrada, onde se lê
“Infelizmente, o protagonismo é uma ficção”.
Estava a esquerda de classe média em seu lugar. Otimismo, coroa de flores, avanços sociais, shows internacionais, saliência e divertimento. Enquanto se comemorava a saída do Brasil do mapa da fome, acreditou-se naquela que tem sido a piada mais longa da história desse país, sempre eficiente em suas duas palavras: Agora Vai.
Toda mudança, depois de um período inicial de impacto, se estabiliza e entra no período de maturação, em que vai inevitavelmente demorar para se ver resultados. Uma nova geração crescendo num país com mais acesso e dignidade conduziria uma geração seguinte com ainda mais acessos e oportunidades e um dia quem sabe o Brasil se tornaria um país verdadeiramente democrático.
Só que as eleições são de quatro em quatro anos.
Só que as pessoas que sempre se resignavam a serem representados e silenciados resolveram que com a internet não precisavam mais desse intermediário. E uma das coisas que essas pessoas tinham pra dizer é o seguinte:
“Em que porra de mundo cês tão vivendo?”
Ambientalistas não estavam satisfeitos. Movimentos de Reforma Agrária não estavam satisfeitos. O movimento feminista esperou ver pautas colocadas em ação e não estavam satisfeitas. O movimento negro esperou ver pautas colocadas em ação e não estava satisfeito. E povos indígenas, em situação desesperadora, chegaram ao suicídio coletivo.
Esse desconforto é pré-2013, que fique bem claro.
Por mais que tivessem agora a internet para se organizarem como grupos independentes, era ainda apenas a classe média de esquerda que pautava, querendo ou não, o debate do momento.
E digamos que as Mães de Maio não tinham tempo para perder com o que as pessoas achavam do novo clipe da Clarice Falcão.
Uma vez que não houve compartilhamento de recursos e sim uma tentativa bem boçal de colonização política por parte da esquerda de classe média, o protagonismo continuou a ser ficção.
É verdade que toda arrogância tem um fundo de ingenuidade, mas uma vez perdida essa inocência diante da fase pós-2013, manter a superioridade moral foi opcional.
Porém, a fatura chegou.
Para os extremos invisíveis, pouca coisa mudou além de ter que limpar a bagunça que a antiga proposta de democracia deixou. Os movimentos de margem evoluíram sem precisar de um interlocutor ou uma cerquinha. A favela passou a reportar a favela, para e pela favela. Pretos e pretas, trans, minas, MTST, povos indígenas, todo mundo atropelou o funil e botou o bonde na rua.
Parte da esquerda de classe média tentou somar, é verdade, mas o osso do protagonismo é tão, tão difícil de largar que muitos foram os atos equivocados e uma fragmentação se tornou inevitável. E por isso foi daquele jeito lá com o movimento para salvar o MinC.
SP e RJ continuaram pautando a temperatura do interesse midiático, a propósito, Vitória, Vila Velha e cidades do interior do Espírito Santo, aquilo ali aconteceu, Recife está acontecendo, Fortaleza está acontecendo, Porto Alegre está acontecendo, tem um monte de coisa acontecendo, mas dizer de boca quem está seguindo alguém que narra essas coisas com o viés desses locais, é difícil ter muita gente.
E temos o(s) movimento(s) secundarista(s). É importante frisar os ésses, esses e outros.
Ao que tudo indica estamos entrando numa nova fase, nas bordas de dois mil e desgosto. Existe fragmentação, mas existe também o fortalecimento de pautas. Se antes muitos reclamavam que não existia a proposta, agora elas estão nítidas e pulsantes. É hora de revisitar as estratégias. Já se admitiu que não existe democracia no Brasil. Já se admitiu que essa não-democracia incluía a conivência da esquerda de classe média.
E aqui chegamos na questão do começo do texto, a hora da prova. Agora, nessa possível nova fase, podemos encontrar o centro desse labirinto. A hora de ver se realmente estamos diante de um redefinição da ação política, se o protagonismo não é mais uma ficção e se é possível pensar em democracia plena para pelo menos alguma próxima geração. Faltava uma campanha símbolo dessa prova. Não falta mais.
Seu nome é Liberdade para Rafael Braga.
Por um mês movimentos sociais independentes se organizaram para debater as questões mais sensíveis e urgentes que orbitam no signo dessa prisão. Não receberam a devida atenção. Disputou visibilidade com todo tipo de factóide, polêmica inútil, treta entre influencers e é claro, o xadrez político.
Em ano de eleição geralmente a esquerda burguesa convulsiona, quem se sente ousado xinga até motoboy que fura manifestação. Enquanto isso, a periferia ganha defensores da intervenção militar. O menu de hoje é esse.
Dia 01/08/2017 será o julgamento do Habeas Corpus de Rafael Braga na 1º Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Protestos estão sendo marcados.
A prisão de Rafael Braga expõe a necessidade de revisão do sistema carcerário, a farsa da democracia burguesa, o racismo estrutural e a necessidade de repensar a política anti-drogas numa tacada só. Quem financia a corrupção, quem financia a feira de armas, quem financia incêndios em favelas, quem financia políticos que vendem favores, quem financia o esgarçamento da justiça, quem são os donos da terra e da pólvora e do pó, das antenas de rádio, das concessões de TV e dos templos… se duvidar, cabem todos na mesma foto.

