13 reasons why e os meus porquês

Levei uns dias digerindo 13 reasons why e pra dizer o que eu achei pros meus amigos e achei louco esse movimento de não saber respondê-los direito antes. Eu não conseguia sair da resposta superficial de “achei muito adolescente” mesmo estando completamente incomodada.

Primeiro que no começo dá uma certa preguiça se você já é adulto (e se vc não é classe média norte americana …) mas quando vi que os produtores tinham essa ideia mesmo, de dar esse tom total tennager pra gente perceber o quanto negligenciamos uma das fases mais fodas da vida mesmo sabendo que já passamos por ela e também sentimos tudo de forma tão intensa quanto eles naquela época, fiquei bem “eita”. Parece até pouco empático termos preguiça desses dramas, ainda mais quando eles trazem coisas realmente pesadas que vamos encarar pela vida toda e que provavelmente vimos nas nossas vidinhas adolescentes.

Pra mim não é exatamente só sobre suicídio, estupro e adolescência. É também sobre o quão difícil é ser mulher, ser pobre, ser minoria (mesmo o cenário sendo um paraíso perto dos que eu vivi …). É sobre esse marco de faixa etária adolescência/vida adulta onde a gente descobre com maior clareza o que acontece com as pessoas mais vulneráveis dentro da sociedade e claro que quando se fala sobre isso as mulheres são as mais lembradas, isso foi o que mais me puxou: eles tão falando de algo que só começa ali e que eu mesma sei porque vivo isso. Não é sobre uma vida que acaba, é sobre passagens difíceis da vida e pra maioria das minas essa passagem é um início, é um “infelizmente essa porra tende a piorar”.

Um monte de gente achou desnecessário a série trazer as cenas tão realistas e explicitas e chegou a comparar com GoT (reaaaallly?). Eu não achei desnecessário e não botaria ao lado de séries que trouxeram o estupro num contexto completamente diferente. É perigoso por ser “gatilho emocional”? É. Mas se você tá no mundo e é vulnerável provavelmente esse gatilho tá apontado pra tua testa o tempo todo então você sabe que é exatamente como retrataram: é desconfortável de ver justamente por sabermos que na vida é assim também. A galera que produziu a série quis exatamente assim, desconfortável e o mais fiel possível. E quando eu vejo críticas sobre o desconforto eu penso “mas parça, dá pra ser confortável ou minimizar uma parada dessas? e devemos? por que?” — que eu sei lá, pra mim não dava pra trazer o retrato desse tipo de coisa de um jeito fiel à realidade sem que fosse terrivelmente desconfortável, aliás me parece bem justo que seja. Infelizmente tem gente que precisa ver mesmo, precisa sentir o estômago dar um nó, precisa ficar uns dias digerindo a porra toda depois de acabar uma coisa banal tipo uma série onde tava só buscando passar tempo, ainda mais quando lembramos pra qual público a série foi produzida: adolescente não vai parar pra refletir sem intensidade.

“Mas oh god miga das psicologias, então cê achou de boa falarem disso prum monte de xóvens assim e largarem o tema aberto?” (aberto, ouvi dizer, porque a série não se propõe a solucionar a questão e não finaliza com o seguimento claro das vidas restantes, novamente eu perguntaria “mas parça, pra quê?”) — nunca vai ser de boa trabalhar estupro e suicídio se estiverem tentando cutucar a ferida pro tema gerar discussões, botar lá um final feliz com Hannah salva, Jessica na delegacia fazendo seu b.o, Justin fazendo terapia pra entender que não precisa ser cúmplice pra validar sua existência e Bryce indo preso ajudaria exatamente no quê? Não era a ideia e nem precisava ser. Achei até um final bem encaminhado e gostei da fuga do clichê nisso, Jessica não termina na delegacia mas termina contando o que houve pro seu pai, Justin não foi pra uma terapia mas termina acabado e compreendendo que foi um bosta, Bryce não aparece indo preso e nos dando aquele feeling disney de final feliz mas provavelmente ele se deu mal, já que Jessica contou pro pai dela, já que Clay entregou as provas dos crimes pro conselheiro da direção da escola, enfim, já que eles finalmente procuraram os adultos pra contar tudo o que estava havendo pra que Hannah tivesse chego onde chegou.

Só o ato de falar e verbalizar a parada já abre outras possibilidades, tanto no contexto de trazerem isso numa série quanto de uma vítima que vivência experiências dessas na vida real, ainda mais numa temática juvenil — quem viu a série sacou o movimento de “pelo amor de deus conversem com adultos!” e provavelmente sentiu essa angústia que por si só já gera uma discussão boa a respeito, se teve algo que entendi que buscaram com isso foi esse movimento de compreensão da necessidade da fala da busca com quem e como se falar, coisa essencial pra adolescência e pra vida. Um “olha, eu sei que tá foda mas você não deve e não precisa passar por isso sozinho”, pra mim, foi o alvo.

Classifico não como série fodona, nossa melhor série, mas como algo que traz um tema importante, botaria pros xóvens assistirem sim e botaria eles numa roda de conversa depois pra reforçar o poder da fala — tanto pra nos fazer bem quanto pra acabar com as nossas vidas.