Saudade com gosto de vodka barata

A saudade tem gosto de vodka barata. Tempo atrás, valia o tintilar de um saquinho de moedas, troco da semana. A liberdade tinha gosto de um descer de escadas. Autonomia, seu molho de chaves, o boa noite ao porteiro. Tempo atrás, a decisão mais difícil seria escolher o sabor da lasanha congelada que iria me servir no jantar.

O medo tinha cor e movimento em sombras na parede do quarto do último andar. Solidão era deitar na cobertura e avistar um céu cinzento. A curiosidade se acumulava nos apartamentos vizinhos; tantas pessoas em uma torre de casinhas e eu nunca soube o nome de nenhuma delas. A sindica sabia meu nome. O porteiro também. O livro de reclamações do condominío também. Mas quem era Alice? Pseudônimo não poético, os problemas nunca foram endereçados.

Alegria era uma mala vermelha, um tanto de roupas no vai e vem, o gosto por rever sabe-se quem fosse; ou o que era, creio que a geladeira familiar. Movimento era deslizar numa lata pouco amigável por trilhos tortos, esses técnicos dos transportes ferroviários deviam beber mais que eu bebia.

Bebia vodka

Hoje bebo saudades.