A gente (2015), Azuhli.

Improvável não pensar nos corpos desviantes de Schiele ao ser confrontado com a nova obra de Azuhli: a postura desconfortável, desconcertante; os corpos distorcidos e contorcidos. Há aqui um bolo, um ininhado, de gente em que não se sabe muito bem onde começa um e termina o outro.

A paleta é característica da artista, ainda que seja perceptível a escolha de tons mais escuros. O azul celeste do mar de uma manhã ensolarada, de lagoa rasa, dá lugar a um azul prussiano de oceano profundo. Indomado, repleto de surpresas: quiçá desagradáveis e disformes.

A artista ousa mergulhar e desbravar as profundezas de sua própria sentimentalidade e faz emergir não uma poética sentimental, mas uma expressão daquilo que é desconforto. O inferno são os outros, mas só aqueles que habitam aqui dentro.

A linha descontínua do bordado sugere a corrosão do limite construído entre si e outrem, entre o seu corpo e o meu. Pincela uma intimidade em que o ápice é a porosidade dos seres. Da destruição momentânea de si, constroem algo que é mais do que a soma das suas partes, criam novo ser e o renomeiam: nós.

Leo não conseguiu mudar o mundo, mas soube resgatar dos escombros o momento imediatamente anterior àquele em que se acaba um mundo, em que a linha se parte. Azuhli nos confidencia um momento que, por mais ambíguo — estão os corpos no instante imediatamente anterior ao de sua união ou de sua separação? -, transborda potência. No tempo da tela, os corpos se agarram, amparam-se buscando o equilíbrio, ainda que precário. Fazem-no com uma urgência de fim de mundo. Se a linha se parte pelo começo de nós ou pelo fim da gente — fica o desconforto da dúvida.

Para experienciar ouvindo PJ Harvey — One Line

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