A Invenção do Nordeste
O Grupo Carmin de Teatro completa dez anos de existência e torna-se um dos grupos mais importantes do Brasil, do Rio Grande do Norte, do Nordeste. E para celebrar seu primeiro decênio, o grupo nos convida e nos provoca à reflexão em seu novo espetáculo, “A Invenção do Nordeste”. Aceitemos o convite, então: somos todos brasileiros, divididos em um imenso país de dimensões continentais; território no qual habitam pessoas com etnias diferentes, sotaques diferentes, costumes diferentes, culinária diferente, diferentes necessidades e diferentes maneiras de se relacionar com o próximo. Aceitemos, pois, a provocação: um nordestino tem consciência de sua real identidade? Há alguma característica sui generis que possa destacar um nordestino dos demais brasileiros? O nordestino que não reside no Nordeste é estigmatizado como aquele que “fugiu” da região de origem em busca de melhores condições e oportunidades para sua vida e em sua maioria ocupa ofertas de emprego de baixa remuneração e elevada carga horária. É conhecido também como aquele que “ajudou” a erguer grandes cidades, como São Paulo e Brasília. Fugiu! Ajudou! Qualquer cidadão, brasileiro ou não, tem o direito de buscar o melhor para si, em qualquer lugar. Qualquer cidadão, brasileiro ou não, tem direito de exercer suas funções laborais de forma digna e honesta. Que percepção tem o Brasil acerca dos nordestinos? Foi (ir)responsabilidade dos grandes expoentes da literatura brasileira, que difundiram e sedimentaram uma determinada imagem no subconsciente dos brasileiros, que implantaram essa imagem nas bibliotecas brasileiras e nas escolas brasileiras, estabelecendo que o nordestino é um tipo específico, generalizado e caricato? Essa visão e divisão do país, que fez surgir a Região Nordeste e, consequentemente, fez surgir os nordestinos é fruto de estudo sistemático dos institutos competentes ou é decisão pessoal, arbitrária dos detentores do Poder? O Grupo Carmin nos orienta a mergulhar nessa análise, pavimentada com humor e crítica social, sob a condução madura e competente de Quitéria Kelly, que estreia com louvor na direção, utilizando-se, em sua dramaturgia, da competitividade do meio artístico para bem contar essa estória. No palco, três atores contracenam — o excelente Henrique Fontes e dois atores estreantes, Robson Medeiros e Mateus Cardoso, que entregam ao público performances entusiasmadas e vigorosas. A peça fala a respeito do Nordeste e nos surpreende pela cenografia que nos remete a qualquer outra territorialidade, exceto o Nordeste que estamos habituados a ver. O Grupo Carmin começa a estabelecer uma espécie de assinatura no meio teatral. Há referências a trabalhos anteriores que só engrandecem o atual espetáculo e nos aproxima mais e mais do seu fazer teatral. Sou brasileiro, sou nordestino. Poucas vezes, em um espectáculo, fui instigado a olhar e ver como eu me identifico, como me identificam. O Grupo Carmin levanta essa questão e desfere um tapa na cara de todos os brasileiros, de todas as regiões.
Natal/RN, 08 de agosto de 2017.
Paulo Henrique Borges
