um livro e o ventre nu

as pernas sobram. rompem a cama retângular. uma jovem mulher ancora suas pernas sobre um baú. ela permanece deitada na cama. um livro entre as mãos. do chão parte uma luz amarela. seu vestido está acima dos quadris. seus pelos, seus pelos, seus pelos pubianos se banham na luz. uma perna sobre a outra forma um único bloco seguido por uma linha que as divide. a linha se encerra na púbis ricamente peluda.

uma imagem. uma bela imagem.

sopa de forças. desequilíbrio do eixo corriqueiro. a cabeça quase sempre fica no alto, mais alta, superior sobre o restante do corpo. a cabeça é a coroa da hierarquização do corpo. nesta imagem, não. neste gesto, não. os pelos da púbis estão um pouco mais alto do que o tronco. de onde miro, não há cabeça. somente pernas, púbis, mãos, pés e um livro. a cabeça foi destronada. ela lê e sem cabeça. lê com o ventre? lê com as pernas? lê com as mãos? lê com a pubis? lê com os pelos? lê com a música que a acompanha? para um homem é impossível tal movimento. não há tringulo peludo no homem que possa enfrentar a soberania das cabeças. ali, tão próximos, nus, o livro e a pubis. o livro e os pelos. não os pelos da cebeça, nem da barba, nem do bigode, nem do peito. os pelos do meio, os pelos no meio, os pelos menores, os pelos silêncio, os pelos tornados segredo, maldição, pecado, endiabrados, irresistíveis, íntimos, nojentos, amáveis, consumíveis, condenados… tanto fizeram para mantê-los distantes. as letras foram feitas para a cabeça e pela cabeça.

uma imagem.

ela se deita e lê: deitar e subverter a posição em pé, de prontidão, a posição dos soldados. estar em pé, ereto, é o homem. ela se deita e lê como alguém se banhando numa cachoeira tranquila. ela se deita, eleva as pernas sobre um baú e lê. elevar as pernas e lê: não usa, portanto, as coxas como a fundação, o alicerce, de uma estrutura cujo ponto nobre está no alto; não pernas e pés que marcham mas que flutuam; as pernas que servem para… são a dos homens. ela se deita, eleva as pernas e suspende a pubis nua e peluda e lê: erupção do silêncio, ascensão das sombras, soberania das trevas, amanhacer da insensatez… ataque à cabeça. a cabeça está sempre ao sol, exposta, vigilante, superior, porta a identidade, a face, mapa das emoções; a cabeça, sinônimo de inteligência, de lucidez, de retidão, sinônimo da igreja, do estado, do homem.

uma imagem.

um livro e uma púbis. um livro e os pelos da púbis. um livro e o ventre nu. um livro e as coxas que flutuam. uma jovem mulher e um livro lido com a púbis nua. e o baú? o baú talvez seja para esconder a cabeça dos decapitados.

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