O conto de Maria

“O céu escuro encherá o lago negro de tristeza e dor, e o lago negro cobrirá o céu escuro, trazendo desgraça e sofrimento. Que Deus abençoe a escuridão que há de pairar sob as nossas cabeças”.

Essas foram as últimas palavras de mamãe antes de morrer. Mamãe era boa com as palavras, mas se perdia na própria existência. Nasceu pequena, perdeu os cabelos quando criança e comia doce de pitanga escondida. Mamãe lavrou, apanhou e cantou. Mesmo assim, mamãe morreu feliz.

Antes de dormir, mamãe sempre me contava a história da ópera dos mortos. Ela me dizia que as almas perdidas dos seus caminhos se juntavam à meia noite para cantar e dançar pelas ruas da cidade.

Amar, amar. O maior mistério da vida é o amar. Amar. Amar.

Vai Maria, vem! (Vem seus prantos chorar). Vai, Maria vai! (Suas lágrimas enxugar).

Vai maria, vai! (Com seu barco navegar).

Navegando bem longe (amar). Com sua alma tão pequenina (amar).

Amar, amar. Vai Maria, vem! Vai Maria, vai!

Amar, amar. O maior mistério na vida é o amar.

Vai maria, vem! (Você consegue amar?) Vem, maria vai (Lá nas águas mergulhar).

Ô Maria vem, Ô Maria vai! Vai Maria amar. Vai maria voar (Pelo azul do mar) Vai Maria, vem! (Com seus olhos descansar). Será que um dia vou te amar? Será que um dia vou te encontrar?

Vai maria, vai! (O Lampião vai te pegar). Vai, maria vem! (Suas lágrimas enxugar).

Vai maria, vai! (Com seu barco navegar).

Amar, amar. O maior mistério na vida é o amar. Amar.

Eu tenho a clara lembrança das noites na casa da avó. Eram elas cheias de silêncio. O perfume das ervas aromatizavam o álcool passado nas pernas da avó… Um suspiro de alívio antes de dormir… O teto sem forro desenhava a escuridão, as telhas de cerâmica… E a luz amarelada da cozinha fazia penumbras e luzes estranhas no restante da casa. Antes de deitar, tomava café com leite aquecido no pequeno fogão da cozinha. O cheiro e o barulho do fogão a gás ressoavam. A casa não era grande, mas era a casa da minha avó. Os nossos sonhos e os medos despertavam naquela exata hora da noite. O ladrar de cães, a noite gelada, a vizinhança vazia e a iluminação que vem da rua devolvem hoje a minha infância.

Noites frias, tardes quentes ou até mesmo a brisa fresca do outono. Que aurora nos devolve a lembrança esquecida nos dias de hoje? Ou até mesmo que noite silenciosa nos dias primaveris nos traz sem querer aquela imagem perdida de vovó rabiscando o céu com o dedo? A estação permanece em nós. Estação da colheita, a divisão do ano, do movimento do sol. Na estação param navios, trens e ônibus. Nos encontramos e também nos despedimos na estação. Lugar de passagem. Renova-se. Das árvores secas nascem folhas verdes, frutos maduros. Logo em seguida caem, morrem e, por fim, renascem. As estações são ciclos eternos de vindas e despedidas.

A casa antes grande, hoje é pequena. Do quintal mágico da avó eu não me esqueço. Andávamos eu e as primas pelas ruas durante longas noites. Eu, dono das ruas, pois ninguém ficava nelas. Íamos buscar doce. Um dia, voltando para a casa, deixei cair um pedaço de doce. Elas me chamaram de boca furada. Eu não gostei. Um dia a avó me ofereceu chocolate amargo e eu comi. Eu não gostei, mas não disse a ela. Ela riu-se ou riu pra mim, entendendo o que eu não dissera, mas sentia. Não gostava do amargo. O nosso silêncio fazia ali uma ponte de afetos, aceitações. Eu não me desfazia do chocolate que não gostava, mas ela me acolhia mesmo com a minha recusa. Eu lavei a boca na torneira.

Silêncio da casa da minha avó, silêncio da noite, silêncio da minha avó. O silêncio, hoje, nos une.

No quintal da minha avó, já fui pedreiro e construí muitas casas. Já fui de tudo na minha infância. Um dia criamos uma cidade pequena para as formigas. Havia luzes de mentira e bancos nas praças, ali sentavam pessoas que não existiam. Era um clube onde todos poderiam nadar e sentar. A construção não foi bem planejada, então não resistiu na primeira noite. Quando o desejo era grande, as pequenas casas ficavam do nosso tamanho. Gostávamos muito de criar casas. Ficávamos olhando para fora das pequenas janelas, inventando papo para dialogar. Um dia, ao entardecer, fiquei sentado na frente da minha casa de madeira. Todos já tinham entrado na casa da avó, mas eu continuei ali, sozinho. Nesse momento já se podia ouvir a música que tocava na igreja de Nossa Senhora de Lourdes. Ia começar a missa. Eu e minhas primas brincávamos também no ferro velho que ficava do lado do nosso quintal. O dono do lugar não gostava de crianças brincando lá. Um dia, do zoológico, vieram várias gaiolas de pássaros. Eram gigantes de ferro, grandes e verdes. Naquele dia, assim como os pássaros, construímos também as nossas casas de mentira. Voamos dentro delas.

Quando criança criamos universos imaginários em nossas cabeças. Mas a brincadeira acabava logo quando a noite chegava. Não tinha voz, o sereno fazia mal e dava dor de cabeça. Lembrei do pé de erva cidreira que minha avó tinha em seu quintal, lembro também do seu cheiro. A criança cria universos que a noite leva embora. Minha avó sempre falava das estrelas. Aprendi com ela que cada uma tem um nome. Ela tinha o poder de pintar o céu escuro da noite com suas palavras. Foi minha avó quem me amamentou, pois minha mãe não conseguia. Eu não parava no colo e chorava muito. Eu nasci um pouco depois da sua última filha.

Por que será que éramos felizes com tão pouco e às vezes nada? Um dia era aniversário de uma das minhas primas. Acordei cedo e fiz um bolo de barro com cobertura de terra fresca. A terra era do quintal da minha avó, então o bolo era muito especial. Não tínhamos bolo de verdade com cobertura de chocolate de três camadas. Minha avó não tinha muito dinheiro. O almoço da minha avó era o almoço simples, mas era o melhor do mundo. Logo pelo final da tarde a panela de pressão avisava que a janta já estava no fogão. Comíamos arroz, feijão e salsicha com farinha. Eu comia com muita farinha. Éramos pobres, mas era a comida da minha avó.

Minha prima tinha um cachorro que se chamava Baby. Ele tinha 340 anos. Ele foi o único cachorro da nossa infância. Às vezes Baby sumia, mas sempre voltava. Um dia ele morreu. Ninguém pode viver para sempre, mas Baby podia. Pobre Baby! Morreu na alegria da casa da minha avó e segue enterrado lá até hoje. Pobre Baby!

O sofá da minha avó, onde eu costumava dormir às vezes, era laranja. A TV também era laranja, pequena e nunca pegava um canal. O sofá era do meu avô Francisco, pai do meu pai. Ele sempre fazia pães no forno a lenha que ele construiu. O pão maior era para ele e o menor, pra mim. Eu sempre pegava o maior e comia metade sem que ele percebesse. A avó do meu pai morreu quando eu ainda era muito pequeno. Pobre Helena! Minha mãe sempre pediu ajuda para ela. Não era fácil criar um filho pequeno e ainda dar conta da casa. Um dia meu avô caiu no banheiro e morreu. Acho que se ele não tivesse ido fazer xixi naquele dia poderia estar vivo. Fazer xixi mata! Penso como ele seria hoje. Não fico triste, até por que a casa na qual meus avôs moram hoje é bonita, tem flores, um tapete no centro, cortinas de renda branca na janela e um quadro deles na parede.

Eu já peguei fogo. Um dia eu quase coloquei fogo na casa dos meus pais. Naquele dia o fogo veio sobre mim, mas eu não queria. Ninguém nunca quer se queimar. Minha cabeça queimou. Odeio o cheiro que cabelo queimado tem, porque nesse dia os meus foram queimados. Estava quente. Eu poderia ter morrido, mas as pessoas falam que Deus estava lá e me salvou, assim como o meu pai, que me abraçou e abafou o fogo. Minha mãe também viu. O que é ver um filho pegando fogo? Pobre Pai! Se brincar com fogo faz a criança fazer xixi na cama, eu iria fazer xixi pelo resto da minha vida.

Minha bisavó morreu três meses antes da minha avó. Ela ia e voltava todos os dias da igreja rezando. A sua casa também era silenciosa como a da minha avó, acho que era de família. Minha avó ficou brava e morreu. Acho que se ela não tivesse ficado brava naquele dia poderia estar viva. Ficar bravo mata. Penso sempre como ela seria hoje. Ela morreu muito cedo. Pobre Maria da Conceição! Ela, antes de morrer, ficou em uma sala onde estava todo mundo. Sua filha mais nova teve que sair da sala porque minha avó ia partir. Crianças não podem ver pessoas morrerem. Minha mãe estava lá e ficou com ela. Ela disse que a avó olhou para o lado e virou os olhos e depois fechou. Minha bisavó tinha ido buscar ela. Quando eu tiver que ir embora daqui também quero que minha avó venha me buscar.

Minha avó foi enterrada no fim da tarde, no pôr do sol. Eu estava sozinho pela última vez com ela, foi a última vez que ficamos sozinhos. Silêncio. Ela foi embora com o pôr do sol. A casa dela ainda está lá até hoje, da mesma forma, com a mesma pintura e as mesmas telhas. Às vezes acho que ela está lá dormindo, esperando o dia amanhecer.

Fazer xixi matou meu avô. A raiva matou minha avó Conceição. O silêncio matou minha bisavó. A ausência matou minha avó Helena.

Antes de morrer mamãe recontou novamente a história da ópera dos mortos, não com o mesmo fôlego de antes. Terminou como sempre fazia, só que dessa vez havia mais silêncio do que de costume. Antes de dizer suas últimas palavras, houve uma pausa, como a de um “entre ato”. Deu dois ou quatro suspiros e riu abestamente como se seus pulmões fossem de uma jovem. Mamãe olhou para o lado e sussurrou:

- Vai Maria, vai! Vai bem longe navegar. Vai Maria, vai! Sem destino navegar. Vai Maria, vai! Vai Maria amar!

Mamãe morreu logo em seguida.

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