Gênero não é um espectro

Paula
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Jul 17, 2016 · 15 min read

A ideia de que “gênero é um espectro” deveria nos libertar. Mas além de ilógica, é politicamente confusa.

Por Rebecca Reilly-Cooper

Texto original

O que é gênero? Essa é uma questão que passa pelo centro das discussões da teoria e prática feministas, e é pivô dos debates atuais nas lutas sociais de classe, identidade e privilégio. Nas conversas cotidianas, a palavra “gênero” é um sinônimo para o que mais acuradamente se referiria a “sexo”. Talvez devido ao desconforto de pronunciar uma palavra que também descreva o intercurso sexual, a palavra gênero é agora usada eufemisticamente para se referir a condição biológica, se uma pessoa é fêmea ou macho, nos salvando do leve embaraço de ter que, ainda que indiretamente, citar os órgãos e processos que essas bifurcações envolvem.

A palavra “gênero” originalmente tem significado puramente gramatical em línguas que classificam seus nomes como masculino, feminino ou neutro. Mas desde pelo menos os anos 60, a palavra tem um outro significado, nos autorizando a fazer uma distinção entre sexo e gênero. Para feministas essa distinção foi importante porque nos torna capazes de compreender que algumas das diferenças entre homens e mulheres são atribuíveis à biologia, enquanto outras tem suas raízes no ambiente, cultura, criação e educação — o que feministas chamam de “socialização de gênero”.

Pelo menos esse é o papel que a palavra gênero tradicionalmente ocupava na teoria feminista. Isso costumava ser básico, a ideia feminista fundamental de que enquanto sexo se referia ao que era biológico e talvez em algum sentido “natural”, gênero se referia ao que é socialmente construído. Nessa visão, que por uma questão de simplicidade podemos chamar de visão feminista radical, gênero se refere as normas externamente impostas que prescrevem e proscrevem os comportamentos desejados para os indivíduos de acordo com características moralmente arbitrárias.

Essas normas não apenas são externas ao indivíduo e coercitivamente impostas, mas também representam um sistema de castas binário ou uma hierarquia, um sistema de valores com duas posições: o masculino acima do feminino, a masculinidade acima da feminilidade, a hombridade acima da mulheridade. Indivíduos nascem com potencial para performar um dos dois estereótipos reprodutivos, determinados no nascimento ou até antes pelos genitais que a criança possuir. A partir daí ela será encaixada em uma das duas classes na hierarquia: a classe superior se os genitais forem convexos e a inferior se forem côncavos.

Após o nascimento e a identificação de classe sexual ocorrida naquele momento, a maioria das pessoas do sexo feminino são criadas para ser passivas, submissas, fracas e acolhedoras, enquanto a maioria das pessoas do sexo masculino são criadas para ser ativas, dominantes, fortes e agressivas. Esse sistema de valor e o processo de socialização e associação de indivíduos a ele é o que feministas radicais querem dizer com a palavra “gênero”. Entendido assim, não é difícil ver o que há de objetificante e opressivo a respeito do gênero, uma vez que acaba por confinar o potencial tanto de homens quanto de mulheres e reforça a superioridade de homens sobre mulheres. Por isso para o feminismo radical o objetivo deve ser o de abolir ambos os gêneros para deixar de colocar as pessoas em caixas rosa ou azuis e possibilitar o desenvolvimento das personalidades e preferências individuais sem a influência coercitiva desse sistema de valores instituído socialmente.

Essa visão da origem do gênero parece complexa para aqueles que experimentam gênero em algum sentido interno e inato, em vez de algo completamente construído socialmente e externamente imposto. As pessoas não apenas disputam se gênero é inteiramente construído como também rejeitam a análise feminista radical de que é inerentemente hierárquico com duas posições. Desse ponto de vista, que para facilitar chamarei de visão do feminismo queer sobre gênero, o que faz o gênero opressivo não é que ele é construído socialmente e imposto coercitivamente, é que prevaleça a crença de que existem apenas dois gêneros.

Humanos de ambos os sexos seriam libertos se reconhecêssemos que se gênero é uma faceta interna, inata, essencial de nossas identidades, há mais gêneros do que “homem” ou “mulher” para escolher. E a próxima etapa no caminho da liberação seria o reconhecimento de uma nova extensão de identidades de gênero: então agora temos pessoas se referindo a si mesmas como “genderqueer”, ou não-binárias, ou “pangêneras”, ou “poligêneras”, ou “agêneras”, ou “demimenino”, ou “demimenina”, ou “neutro,” ou “aporagênero”, ou “lunagênero”, ou “quantumgênero”… eu poderia continuar. Um mantra sempre repetido entre os proponentes dessa visão é que “gênero não é um binário, é um espectro”. O que essa visão busca não é destruir as caixas rosa e azuis, mas simplesmente reconhecer que há muito mais caixas além dessas duas.

Num primeiro momento isso parece uma ideia interessante, mas há numerosos problemas com ela, problemas que a tornam incoerente internamente e politicamente pouco atrativa.

Muitos proponentes da teoria queer descrevem a própria identidade como “não-binária”, e apresentam essa oposição à vasta maioria das pessoas cuja identidade é presumidamente binária. Em face disso, parece haver uma tensão imediata entre a afirmação de que gênero não é um binário e sim um espectro, e a de que apenas uma pequena parcela de indivíduos poderia se descrever com uma identidade não-binária. Se o gênero realmente é um espectro isso não significa que todo ser humano vivo é não-binário por definição?

Se sim, o rótulo “não-binário” para descrever um gênero específico seria redundante porque falharia em determinar uma categoria específica de pessoas.

Para evitar isso, quem propõe o modelo espectral deve de fato estar assumindo que gênero é binário e um espectro também. É inteiramente possível para um conceito ser descrito como binário e um espectro ao mesmo tempo. Um exemplo é a altura: claramente altura é um contínuo; mas também temos as definições binárias Alto e Baixo. O gênero deve operar de um modo similar?

Uma coisa a ser observada sobre o binário Alto/Baixo é que quando esses conceitos são invocados para se referir as pessoas eles são descrições relativas e comparativas. Se altura é um espectro e um contínuo, nenhum indivíduo é absolutamente alto ou absolutamente baixo; somos todos maiores do que alguns e menores do que outros. Quando alguém se refere as pessoas como altas, o que isso significa é que elas são maiores do que a média das pessoas em algum grupo cuja altura está em exame. Um garoto pode simultaneamente ser alto para quem tem 6 anos de idade, e baixo em comparação com todos os outros homens. Então as atribuições das categorias binárias Alto e Baixo devem ser comparativas e referentes à média. Talvez os indivíduos que formam um conjunto em torno da média reivindiquem se referir a si mesmas como pessoas de “altura não-binária”.

No entanto, parece improvável que essa interpretação do modelo de espectro vai satisfazer aqueles que se descrevem como de um gênero não-binário. Se o gênero como a altura é para ser entendido como comparativo ou relativo, isto vai contra a insistência de que os indivíduos são os únicos árbitros do seu gênero. Ele seria definido por referência à distribuição de identidades de gênero presentes no grupo em que você se encontra e não pela sua própria autodeterminação individual.

Assim, não caberia a mim decidir que eu sou não-binário. Isso poderia ser determinado apenas comparando a minha identidade de gênero com a extensão no espectro de outras pessoas e vendo onde eu me encaixaria. E embora eu possa pensar em mim como uma mulher, alguém pode estar mais abaixo no espectro no sentido de feminilidade do que eu, e portanto, “mais mulher “ do que eu.

Além disso, quando observamos a analogia com a altura , podemos ver que de toda a população, apenas uma pequena minoria de pessoas poderia ser descrita com precisão como altas ou baixas. Dado que a altura é realmente um espectro, e os rótulos binários são atribuídos comparativamente, apenas o porção de pessoas em cada extremidade do espectro pode ser significativamente definida como alta ou baixa. O resto de nós nos localizaríamos ao longo de todos os pontos no meio, sendo então as pessoas de altura não-binária, o que seria o mais típico. Na verdade, são as pessoas binárias altas ou baixas que são raras e incomuns. E se estendermos essa analogia ao gênero vemos que ser não-binário é na verdade a regra, não a exceção.

Chamar alguém de não-binário é na realidade criar um novo binarismo falso.

Se o gênero é um espectro, isso significa que é um contínuo entre dois extremos e todo mundo está localizado em algum lugar ao longo desse contínuo. Eu suponho que nas duas extremidades do espectro estão masculinidade e feminilidade. O que mais poderia ser?

Quando percebemos isso, torna-se claro que todo mundo é não-binário, porque absolutamente ninguém é pura masculinidade ou feminilidade. Claro, algumas pessoas vão estar mais perto de uma extremidade do espectro, enquanto outras serão mais ambíguas e flutuarão em torno do centro. Mas mesmo a pessoa mais convencionalmente feminina irá demonstrar algumas características que nós associamos com a masculinidade e vice-versa.

Eu ficaria feliz com essa implicação porque apesar de ter biologia feminina e chamar a mim mesma de mulher, eu não me considero dentro de uma das duas dimensões de estereótipos de gênero. Eu não sou uma manifestação ideal da essência de mulheridade, e então sou não-binária. Assim como todo mundo. Contudo, aqueles que se descrevem como não-binários provavelmente não ficariam satisfeitos com essa conclusão, a identidade “não-binária” depende da existência de um enorme grupo de pessoas binárias chamadas de “cisgêneras” que são incapazes de estar fora do masculino/feminino arbitrários ditados pela sociedade.

E aqui temos uma ironia sobre algumas pessoas insistirem que elas e vários de seus companheiros revolucionários de gênero são não-binários: sendo assim, eles criam um falso binário entre aqueles que se conformam com as normas de gênero associadas ao próprio sexo e os que não se conformam. Na realidade todo mundo é não-binário. Todos participamos ativamente nessas normas, passivamente concordando com a imposição de algumas, mas ativamente ainda confrontando outras. Então chamar alguém de não-binário é de fato criar um novo binário. Isso também parece envolver, pelo menos implicitamente, cada um se localizar no lado mais complexo e interessante daquele binário, autorizando as pessoas não-binárias a reivindicar ser mal compreendidas e politicamente oprimidas pelas pessoas binárias cisgêneras.

Se você se identifica como pangênero, a reivindicação é que você representa todos os pontos possíveis do espectro? Todos ao mesmo tempo? Como isso pode ser possível se os extremos representam opostos incompatíveis um com o outro? A pura feminilidade é passividade, fraqueza e submissão, enquanto pura masculinidade é agressão, força e dominação. É simplesmente impossível ser todas essas coisas ao mesmo tempo. Se você discorda dessas definições de masculinidade e feminilidade e não aceita que masculinidade deva ser definida em termos de dominação enquanto a feminilidade seja descrita em termos de submissão, você é bem-vindo para propor outras definições. Mas em qualquer uma que você apresente, eles irão representar opostos um do outro.

Para uma porção de indivíduos está aparentemente permitido optar por estar fora do espectro se declarando “agêneras”, dizendo não se considerar nem masculinas nem femininas, e não ter nenhuma experiência interna de gênero. Não estamos dando nenhuma explicação sobre por que algumas pessoas se recusam a definir suas personalidades em termos de gênero enquanto outras não, mas uma coisa clara sobre a autodesignação como “agênero”: não podemos todos nos denominar assim pela mesma razão que não podemos todos nos chamar de não-binários. Se todos nós negamos que temos uma identidade de gênero inata e essencial, o rótulo “agênero” se tornaria um traço universal. Agênero pode ser definido apenas em contrapartida ao gênero. Aqueles que se definem assim devem estar comprometidos com a visão de que a maioria das pessoas tem um gênero inato e essencial, mas eles por algum motivo não tem.

Uma vez que afirmamos que o problema com gênero é que recorrentemente nos reconhecemos com ambos, o questionamento óbvio a ser feito é: quantos gêneros teriam de ser reconhecidos para que não houvesse opressão? Quantas são as possibilidades de identidades de gênero?

A única resposta consistente para isso é: mais ou menos 7 bilhões. Há tantas possibilidades de gêneros quanto há seres humanos no planeta. De acordo com o Nonbinary.org, uma das maiores referências de sites na internet sobre gêneros não-binários, seu gênero pode ser o Sol, ou música, ou o mar, ou Júpiter, ou pura escuridão. Seu gênero pode ser pizza.

Mas sendo assim, não está claro como chamar qualquer uma dessas coisas de “gênero” em vez de “personalidade” ou “coisas que eu gosto” pode fazer sentido ou acrescentar qualquer coisa a nossa compreensão. Gênero não é apenas uma palavra bacana para sua personalidade ou seus gostos e preferências. Não é apenas um rótulo para adotar e mostrar o quanto você é interessante e multifacetado. Gênero é um sistema de valor que atrela comportamentos e características desejáveis (e às vezes indesejáveis?) à função reprodutiva. Uma vez que desassociamos essas características e comportamentos da função reprodutiva — o que devemos fazer — e rejeitamos a ideia de que há apenas dois tipos de personalidade sendo uma superior à outra — o que devemos fazer — o que pode possivelmente significar continuar a chamar isso de “gênero”? Que sentido a palavra “gênero” tem então que a palavra “personalidade” não possa carregar?

No Nonbinary.org, seu gênero pode ser aparentemente:

(Nome)gênero: “Um gênero que é melhor descrito pelo nome da pessoa, bom para aqueles que não estão totalmente certos de como se identificam mas sabem que definitivamente não são cis…pode ser usado como um termo genérico ou como um identificador específico, ex: johngênero, janegênero, (seunomeaqui)gênero, etc.”

O exemplo de “(nome)gênero” demonstra perfeitamente como identidades não-binárias operam e a função que performam. Elas são para as pessoas que não têm certeza de como se identificam mas sabem que não são cisgêneras. Presumidamente porque elas são tão interessantes, revolucionárias e transgressoras para algo tão ordinário e convencional como ser cis.

A solução não é tentar se espremer para sair das barras da gaiola enquanto deixa o resto da gaiola intacta e o resto da humanidade presa nela.

O desejo de não ser cis é racional e faz perfeito sentido, especialmente se você é mulher. Eu também acredito que meus pensamentos, sentimentos, atitudes e disposições são muito interessantes, bem formados e complexos para ser simplesmente uma “mulher cis”. Eu também gostaria de transcender os estereótipos socialmente construídos sobre o corpo feminino e as suposições que as pessoas fazem sobre mim como resultado disso. Eu também gostaria de ser enxergada como mais do que uma mãe/serva doméstica/objeto de gratificação sexual. Eu também gostaria de ser vista como um ser humano, uma pessoa com um interior rico e profundo e potencial para ser mais do que nossa sociedade enxerga como possível para uma mulher.

A solução para isso, porém, não é me chamar de agênera, tentar escapar por entre as barras da gaiola enquanto deixo o resto da gaiola intacta e o resto da humanidade presa. Especialmente porque não se pode escapar assim. Não importa o quanto eu me chame de “agênera”. O resto da humanidade continuará a me ver como mulher e me tratar de acordo com isso. Eu posso me apresentar como agênera e insistir em ser chamada por toda uma nova lista de pronomes quando eu procurar um emprego, mas isso não fará o entrevistador deixar me enxergar como alguém que pode ter bebês e nem o impedirá de me oferecer uma posição menos qualificada do que a um candidato macho.

Aqui nós chegamos a tensão crucial no centro das políticas de identidade de gênero, e seus maiores defensores não perceberam ou escolheram ignorar porque ela só seria solucionada rejeitando alguns conceitos chaves da doutrina.

Muitas pessoas de forma justificada assumem que a palavra “transgênero” é um sinônimo de “transsexual” e isso significa algo como: ter disforia e sentir desconforto com seu corpo , tendo vontade de alterá-lo para ficar mais próximo ao corpo do sexo oposto. Mas de acordo com a terminologia atual das políticas identitárias de gênero ser transgênero não tem nada a ver com o desejo de mudar de sexo. O que significa que ser transgênero é a sua identidade de gênero inata ser incompatível com o gênero que foi atribuído a você no nascimento. Esse deve ser o caso mesmo que você esteja completamente feliz e contente com o corpo que possui. Você é transgênero simplesmente se você se identifica com um gênero, mas socialmente é percebido como de outro.

É um conceito chave da doutrina que a vasta maioria das pessoas podem ser descritas como “cisgêneras”, o que significa que sua identidade de gênero inata é compatível com a que foi designada a você ao nascer. Mas como vimos, se a identidades de gênero são um espectro então somos todos não-binários porque nenhum de nós reside nos pontos representados pelos extremos do espectro. Todos nós existimos de uma única maneira ao longo desse espectro, determinado pela natureza individual e idiossincrática das nossas identidades particulares e experiências de gênero subjetivas. Nenhum de nós foi designado do gênero correto ao nascer, como poderíamos ter sido? No momento do nascimento como qualquer um saberia que mais tarde poderia descobrir que sua identidade era “frostgênero”, um gênero que pelo visto é “muito frio e com neve”?

Uma vez que reconhecemos que o número de identidades de gênero é potencialmente infinito, somos forçados a admitir que ninguém é profundamente cisgênero porque ninguém teve a identidade de gênero correta assinalada no nascimento. Na verdade a nenhum de nós foi atribuída uma identidade de gênero ao nascer. Nós fomos colocados em uma das duas classes de sexo com base na nossa potencial função reprodutiva, determinada por nossos órgãos genitais externos. Então fomos criados de acordo com as normas de gênero socialmente prescritas para as pessoas daquele sexo. Somos todos educados e doutrinados de acordo com um dos dois estereótipos, muito antes de estarmos aptos a expressar o que acreditamos ser nossa identidade de gênero inata ou determinar precisamente em que ponto do espectro cairíamos. Portanto definir que pessoas trans são aquelas que não tiveram o gênero correto atribuído ao nascer implica que todos são transgêneros, não há pessoas cis.

A conclusão lógica de tudo isso é: se o gênero é um espectro, não um binário, então todo mundo é trans. Ou então não existem pessoas trans. De qualquer forma essa conclusão é profundamente insatisfatória e serve para obscurecer tanto a realidade da opressão feminina quanto para invalidar e apagar as experiências de pessoas transsexuais.

A maneira de evitar essa conclusão é perceber que gênero não é um espectro. Não é um espectro porque não é uma propriedade inata, interna e essencial. Gênero não é um fato sobre as pessoas que devemos tomar como fixo e essencial e então construir as nossas instituições sociais em torno dele. Gênero é socialmente construído como um todo, uma imposição externa e hierárquica com duas classes, dois valores: masculino sobre o feminino, homem sobre a mulher, masculinidade sobre feminilidade

A verdade sobre a analogia do espectro reside no fato de que a conformidade com o seu lugar na hierarquia e com os papéis atribuídos a cada um irá variar de pessoa para pessoa. Algumas vão achar que é relativamente mais fácil e menos doloroso se conformar com as normas relacionadas ao sexo delas, enquanto outras acham os papéis de gênero tão opressivos e limitadores que não conseguem viver razoavelmente sob eles, optando por uma transição para viver de acordo com o papel de gênero oposto.

Gênero como uma hierarquia perpetua a subordinação das mulheres aos homens e limita o desenvolvimento de ambos os sexos.

Felizmente, o que é um espectro é a personalidade humana, com toda sua variedade e complexidade. (Na verdade, não é um único espectro porque não é simplesmente um contínuo entre dois extremos. É mais como um grande conjunto de “humanidadezinhas”¹. Gênero é o sistema de valores que diz que há dois tipos de personalidade, determinada pelos órgãos reprodutivos com que você nasceu . Um dos primeiros passos para as pessoas se libertarem da gaiola do gênero é desafiar as normas de gênero estabelecidas.

Então se você quiser se chamar de fêmea genderqueer demimenina, tudo bem. Expresse essa identidade da forma que quiser. O problema surge somente quando você começa a fazer reivindicações políticas baseadas nesse rótulo — quando você começa a demandar que as pessoas chamem a si mesmas de cisgêneras porque precisa que um monte delas sejam pessoas cis binárias convencionais para se definir em contrapartida; e quando insiste que essas pessoas cis tem privilégio estrutural e político sobre você por ser lidas socialmente como binárias e conformes, enquanto ninguém entende o quão complexa, luminosa e multifacetada é sua identidade de gênero. Chamar-se não-binário ou de gênero fluido enquanto procura que a grande maioria das pessoas se chamem de cisgêneras é insistir que a maioria deve continuar em suas caixas porque você se identifica como alguém fora das caixas.

A solução não é reafirmar gênero insistindo em mais categorias para definir a complexidade da personalidade humana de formas rígidas e essencialistas. A solução é abolir gênero completamente. Nós não precisamos de gênero. Ficaríamos melhor sem ele. Gênero como uma hierarquia com duas posições opera para naturalizar e perpetuar a subordinação das pessoas de sexo feminino às do sexo masculino e condiciona o desenvolvimento individual de ambos os sexos. Reconhecer gênero como um espectro de identidades não representa avanços.

Você não precisa ter uma experiência profunda, interna, essencial do gênero para estar livre para se vestir como quiser, se comportar como quiser, trabalhar com o que preferir, amar quem quiser. Você não precisa mostrar que sua personalidade é feminina para que seja aceitável gostar de cosméticos, culinária e artesanato. Você não precisa ser genderqueer para fugir das normas de gênero. A solução para um sistema opressivo que coloca as pessoas em caixas rosa e azuis não é criar mais e mais caixas de qualquer outra cor que não seja rosa ou azul. A solução é destruir completamente as caixas.

  1. No texto original “a big ball of wibbly-wobbly, humany-wumany stuff” em referência à uma cena da série Doctor Who. http://tardis.wikia.com/wiki/Wibbly_wobbly,_timey_wimey

(Tradução: Paula Albuquerque)

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