MINHA SAÚDE E O QATAR

Todo mundo que vem morar no Qatar é obrigado a fazer exames médicos durante o processo de visto de permanência e, consequentemente, a identidade local. Acredito que para questões de visto para familiares, eles sejam menos exigentes, porém para quem vem trabalhar não é aceito não estar com a saúde em dia. Faz sentido. Pelo menos, do ponto de vista econômico. Do lado humano, um pouco menos.

Em um país que vem sendo construído ao longo dos anos com mão-de-obra importada, um país que onde num dia é deserto, no dia seguinte tem um prédio de 35 andares de vidros espelhados, é preciso ter a certeza que quem vem pra cá irá produzir e não ser dependente do governo e seu sistema de saúde. Tempos de crise.

Esse processo médico tem algumas etapas:

Primeiro você faz o exame de tipo sanguíneo. Simples e rápido. Nada além de uma espetada no dedo e khalas. A+.

Depois você faz um exame de sangue e raio-x do pulmão. Esses dois exames são feitos juntos numa unidade pública daqui. É um lugar que faz apenas isso. Muita gente. Quase todos indianos. Os indianos são maioria na construção civil, e como falei antes, o país pode parar tudo, menos as obras de prédios, estradas, viadutos…

Só então você é levado a fazer as digitais.

Porque estou falando tudo isso? Por que tive uma experiência bem tensa e intensa que vou contar agora, mas precisava explicar antes como as coisas funcionam por aqui.

A agência recebeu uma informação que eu deveria refazer um dos meus exames. Lá fui eu. Quando cheguei descobri que a história não era bem essa.

A enfermeira me disse que iria me aplicar uma injeção. Me recusei. Concordou que era meu direito recusar e me levou para falar com um médico.

Agora é onde a história realmente começa.

O médico me falou que meu raio-x tinha acusado alguma coisa. Disse que poderia ter um tumor. Poderia ser tuberculose. Poderia não ser nada.

Nessa ordem.

Eu que já não sou muito fã de ir ao médico, que tenho histórico familiar de problemas sérios de saúde fiquei um pouco assustado.

Mentira. Fiquei desesperado.

Fiz um check-up em dezembro do ano passado. Meu primeiro check-up da vida e todos exames resultaram perfeitos, mesmo sendo um pouco sedentário e displicente com a minha alimentação.

De repente me mudo pro Oriente Médio. Sozinho. Longe da família. E me vem um médico e diz com a maior naturalidade do mundo que eu poderia ter câncer?

Muita informação de uma só vez.

Pedi pra fazer outro raio-x.

Não se faz outro exame. Muita gente. Não seria possível.

Pedi meu exame. Queria ver o diagnóstico. Queria mostrar pra alguém. Queria ter outra opinião.

Não se entrega o diagnóstico. Procedimentos locais.

Sem injeção. Sem diagnóstico. Sem chão.

O médico me disse que teria que fazer uma tomografia computadorizada do tórax.

Volto pra agência chorando. Chego direto falar com minha chefe e fechando a porta da sua sala desabo a chorar de novo enquanto conto o que houve.

Saio a caminho do hospital. Desta vez pra um outro exame de sangue pra ver se poderia fazer ou não a tal tomografia — precisava saber se meus rins estavam ok para receber o líquido que contrasta no sangue para ser visualizado no computador.

Exame feito e tomografia agendada pra hoje.

Medo. Choro. Solidão. Nesse processo ninguém da agência sabia, além dos meus chefes (que, aliás, foram muito bacanas comigo do início ao fim). Só contei pra uma pessoa pra quem liguei e esteve do meu lado o tempo todo, mesmo de longe.

Não me vi no direito de ligar pra minha família. Não podia dizer nada. Seria egoísmo demais preocupá-los.

Chego pro exame. Me sinto como Tom Hanks em “Negócio das Arábias” (A Hologram for the King). Colocam o líquido que percorre todo meu corpo. Calor em cada veia. Exame terminado. Medo.

Olhos cheios d’água.

Só quem já passou por isso entende a apreensão que é ficar esperando pra saber se você tem algo bem sério ou, com sorte, nada.

Inshallah.

Passados longos 30 minutos, me chama o médico responsável pra falar do exame e me dar a tão esperada notícia: não tenho tumor nem, muito menos, tuberculose. O que aparece no exame é resultado de uma calcificação de alguma inflamação (provavelmente uma pneumonia), mal curada durante minha infância. Nenhum dano à minha saúde. Graças a Deus. E a Ele fui agradecer o resultado no Complexo Religioso de Doha hoje à noite.

Foram 24h tensas. Vi milhões de cenários possíveis e agora estou aqui dividindo isso que passei, escrevendo de casa muitos kg mais leve.

Mas esses kgs são apenas metafóricos porque os reais só aumentam.

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