Mastiga, mastiga bem essa mentira mentolada. Uma, duas, três mentiras, e não se apaga o gosto do tabaco.

Só hoje, eu me digo.

Esfrega, esfrega bem essas mãos sujas. E mesmo com precisão cirúrgica as pontas dos dedos denunciam os cigarros da noite.

Só hoje, eu repito.

Deixa a roupa no chão, deixa a água escorrer. Lavar o corpo é tão superficial. As evidências escoem ralo abaixo, a fraqueza não. A roupa suja continua ali. Fede. É prova da covardia nossa de cada dia. O controle é uma ilusão, você sabe. A gente se convence todo dia.

Engole em seco e o gosto do cigarro persiste. Envenena.

Nunca mais, eu me digo.
Mais uma mentira.

Engole em seco outra vez.
Passa o gosto da mentira, do beijo, do álcool, mas não da fraqueza, não da covardia.

E não vai passar.

Até que passem os dias e as dores, não vai passar.
Até que cheguem novos planos e amores, não vai passar.

Até que passam, eu me lembro.

E passam.

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