700+ ANGRA

poema para uma cidade que já é outra cidade

PRELÚDIO

são praticamente 2 anos que dei as caras de novo em angra e voltei a morar aqui e bem, vejam só, pra surpresa de vocês aqui é uma cidade como qualquer outra, não como outra qualquer no mundo porque angra é uma cidade bastante brasileira, concentra 80% das atracações de lanchas&iates do país e tem uma das maiores taxas de ocupação do espaço urbano por favelas no Brasil com 37% da população vivendo em ‘aglomerados subnormais’ (expressão do IBGE). angra é um lugar que você confia para então se decepcionar e pensar sobre outra coisa, sobre outra cidade por aí, e também é esta cidade, a cidade-mesma, a cidade-angra, que é diferente de outra qualquer. aqui morreu madame satã. aqui foi o primeiro lugar que passou o corpo de teori zavascki depois do atentado. aqui não teve tocha olímpica.

ilhas botinas, cartão postal de angra dos reis

ANUNCIAÇÃO

voltei a escrever sobre isso e divido aqui o arrasta móveis interior e c a devida abertura&permissão :: por esses 2 anos, 700+ dias etc


igrejinha do bonfim, cartão postal de angra dos reis

VIOLÊNCIA

16 06 17

o dia amanheceu

finalmente

nublado mais ou menos às 10

choveu menos que

ontem mas no começo da tarde

abriu um sol morno e o céu ficou

monótono e azul e as montanhas

finalmente verdes fortes

da Mata e a praia atraiu sanhaços pombos vendedores pardais urubus e

turistas

que se banharam com a roupa do corpo

que tomaram caldo na maior onda e engoliram água

que vomitaram o açaí com amendoim jujuba granola e m&ms

que depois se recuperaram e saíram andando meio desnorteados

e sentaram-se no bar cantinho

da praia o seu bar na praia


à tarde em angra é sempre indecisa se está chovendo não sabemos quando vai parar e se não chove sabemos que daqui a pouco vai chover, vai chover na hora que você sair de casa, quando você estiver tão longe de casa quanto do ponto de ônibus, quando você perder o último ônibus e não souber o que fazer, quando de tanto chover acabar a luz e você estiver na chuva e sem luz, tão longe de casa quanto do ponto de ônibus, quando a rua começar a encher


e o vaso começar a borbulhar e o esgoto subir pelo ralo do box e o cheiro da cidade empestear sua casa. mas agora não está chovendo. agora ainda não está chovendo. às 4 horas da tarde mais ou menos o sol está de lado e não tem nenhuma nuvem no céu


as tropas felizes descem das escunas e saem desordenadamente em busca de wi-fi saem das escunas felizes e cansadas ou bêbadas ou esgotadas pelo mar ou queimadas de sol ou secas pois não mergulharam ou secas pois não sabiam nadar não sabiam pular das escunas e cair na lagoa azul não sabiam boiar não sabiam nada do mar transparente ou esverdeado ou esmeraldado ou turquesa ou azulão ou simplesmente não queriam se molhar não queriam estragar o cabelo saem das escunas felizes depois de passearam pelo absolutismo natural


sete da noite mais ou menos e uns carros com paredão de som encostaram no am&pm aproveitando o pátio do estacionamento do supermercado e puseram todos o som no máximo, sendo muito cedo para estrondar no som os carros nem aí e sem ninguém pra curtir nem pra dançar não importa apenas uns carros com paredão no máximo e o posto de gasolina e o am&pm numa noite gelada de sereno grosso e cheio de estrelas no céu, muito mais do que as que dava pra ver


nove da noite e a lua estava amarela no céu claro tão amarela que queimava e estava uma ótima lua pra ir à praia, pra passar mais tempo dentro da praia, dentro da sua consciência. nove da noite e a investigação do que se passou nos últimos dias não passava dentro dos miolos. meus passos nos últimos dias assombravam o silêncio do peito, reverberando dentro das ossadas, meus passos nos últimos dias batendo como tamancos de madeira no assoalho encerado de madeira, gotejando num corredor comprido de um antigo convento abandonado pelos cúrias e noviças, um antigo convento que está caindo aos pedações porque o convento foi cercado pela favela, porque agora no antigo convento o padre não tem pra onde fugir. não tem nenhum túnel para protegê-lo dos piratas. os séculos estão enterrados no subsolo. na visibilidade estamos todos presos dentro do cinema do shopping. esperando a batata fritar. esperando a próximo verão. esperando te esperar. angra é uma cidade que põe as ideias pra brincar nos labirintos da brasilândia, nos recônditos dos conservadores, nas massas que são massas, que pulam como massas, choram como massas, que não sabem das horas


meia noite dentro do Mato e por cada borda dos ramos borda das folhas das copas da própria meia noite no detalhe dos galhos molhados e do cheiro de doçura dos bananais das abelhas em volta dos bananais do vento gozando nas folhas longas grandes dos bananais e seu gemido o gemido dos sapos e dos grilos e das cigarras enfim o gemido dos cantores da noite angrense dos nossos verdadeiros mcs originais enfim sons dos mistérios e dos guizos e das risadas de quem não está mais aqui desse silêncio que é o Mato que é muitíssimo sonoro que

desfaz tudo o que então se ouviu que reúne outra vez para contar de novo

enfim que põe fora o que não devia ter entrado que é o que é o Mato que é o que é muitíssimo sonoro


e que é vingança: zumbido no ouvido dos mosquitos


4 da manhã da noite clara

maravilho-me

a cidade proibida

agora

fogo no mar
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