A monogamia é egoísta?

thayse ferreira
Sep 3, 2018 · 7 min read

Ao propor essa pergunta, não pensei que minha própria resposta fosse mudar — e não mudou — mas certamente ampliou meu entendimento de como a monogamia é vista e de como as pessoas tendem a adotar uma postura de razão auto-afirmativa em vez de uma postura questionadora e flexível, como nossa espécie infinitamente diversa tanto precisa.

Meu objetivo não é, de modo algum, levantar uma argumentação de nível acadêmico — até porque sei que há pessoas que passam anos estudando o tema em profundidade. Meu objetivo foi apenas o de realizar um exercício de reflexão baseado nas minhas próprias crenças e condutas, com a ajuda da opinião das pessoas que se dispuseram a compartilhar suas ideias acerca do tema.

Antes de refletir em profundidade sobre o tema, entretanto, é necessário definir os dois pontos centrais da questão — no caso: egoísmo e monogamia. Definições podem ser traiçoeiras pois são forjadas por seres humanos através do tempo e podem sofrer alterações de acordo com o status quo ou do entendimento que se tem acerca do assunto na época de sua definição. Acredito que não seja difícil entender a natureza transitória das definições uma vez que temos simultaneamente, em um mesmo recorte do tempo-espaço, definições diferentes do que se entende por “família”, por exemplo. (Não vamos nos estender a discussão do que é “certo” e “errado”, pois essas também são definições antropológicas/sociológicas/filosóficas sujeitas a transitoriedade.)

Tomando como ponto de partida as definições encontradas no Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa:

egoísmo
e·go·ís·mo

sm
1 Atitude daquele que busca o próprio interesse, acima dos interesses dos demais.
2 PSICOL Conjunto de propensões ou instintos adaptados à conservação dos indivíduos.
3 FILOS Doutrina que converte o interesse individual em princípio diretor de conduta.

monogamia
mo·no·ga·mi·a

sf
1 Sistema ou costume que, durante a vigência do casamento, impõe ao homem ter uma única esposa, e à mulher ter um único marido.

Ok, antes de qualquer coisa, vamos combinar de ignorar a heteronormatividade deslavada presente nessa definição de monogamia. Então podemos considerar, de forma bem simplificada, que monogamia é o costume de um indivíduo de se relacionar com um único parceiro em um determinado período de tempo.

Agora, um dos argumentos que me foi apresentado foi que a monogamia é um ato social imposto como regra ao ser humano e que por ser uma convenção social e não “natural”, deveria ser uma opção e não uma obrigação.
Claro, se tratamos a monogamia como uma imposição/obrigação social — como acontece em muitos (mas não todos) países -, então a monogamia não é exatamente egoísta (porque não podemos dizer que a constituição de um país possui ego), ela é inconstitucional — levando em consideração uma constituição que garanta a liberdade de seus cidadãos, como é o caso da nossa Constituição Federal de 1988 que postula no item I do Artigo 3º que um de seus objetivos é “construir uma sociedade livre”. Ora pois, os indivíduos de uma sociedade livre devem ter o direito de escolher se querem se relacionar com uma ou mais pessoas ao mesmo tempo. Nesse quesito não tenho do que discordar.

Agora a ideia de que a monogamia não é “natural” pode ser comparada a ideia de quem defende a heterossexualidade como “normal” em oposição à ideia de que a homossexualidade não é “natural”. Pra esse argumento nós podemos usar a mesma lógica para ambas ideias; que se por “natural” consideramos aquilo que ocorre na natureza, então a homo e a heterossexualidade são igualmente naturais, pois ambas ocorrem na natureza, entre diferentes espécies de animais, inclusive o homem. Da mesma forma, a monogamia é tão natural quanto a poligamia. ao passo que ocorrem na natureza em diferentes espécies de animais também. Quem nunca ouviu falar dos Cisnes que ficam juntos pra sempre ou dos Pinguins Imperadores?
Ainda pensando nas dinâmicas da natureza, podemos considerar que, para determinadas espécies, períodos e condições a monogamia e a poligamia apresentam diferentes vantagens evolutivas, podendo ser menos ou mais vantajosa. Nos estágios inicias da evolução humana, por exemplo, a relação monogâmica pode ter sido mais vantajosa por propiciar maiores chances de sobrevivência à prole; ao passo que uma espécie que gera descendentes que não dependem de cuidados parentais se beneficiaria mais da poligamia pelo fato de gerar uma maior quantidade de indivíduos que então elevarão as chances de dar continuidade à espécie.
Porque no final das contas nós somos, basicamente, máquinas de perpetuação da nossa espécie.

Desse modo, se partimos do pressuposto de que tanto a monogamia quanto a poligamia são naturais, então nada mais natural que deixar a cargo do indivíduo escolher o tipo de relação que melhor se adapta a sua própria natureza, certo?

Outra opinião compartilhada por muitos adeptos da poligamia retrata a monogamia como um sinônimo de posse (do afeto, do desejo, do corpo) de outra pessoa. E a ideia por trás disso é que essa necessidade de posse tenha como finalidade a satisfação do ego.

Mas e se meu ego se satisfaz com a atenção, o afeto e o desejo de várias pessoas ao mesmo tempo? Nesse caso, a poligamia se torna egoísta?

Se consideramos esse tipo de indivíduo (que precisa de mais de uma pessoa pra se satisfazer), seria possível argumentar que a monogamia seria muito mais altruísta (em oposição a egoísta) já que se trataria de um indivíduo se comprometendo a se abster dos prazeres que satisfariam seu ego em prol do bem comum do casal.
Seria possível, inclusive, argumentar que a poligamia é ainda mais egoísta pois o indivíduo que a pratica se utiliza de vários outros pra suprir suas necessidades de acordo com seu bel-prazer, conforme lhe convém, conferindo ao outro um caráter descartável.
Mas isso seria uma generalização excessiva. Bem como dizer que a monogamia é egoísta.

Relembrando a definição de egoísmo como sendo a “atitude daquele que busca o próprio interesse, acima dos interesses dos demais” podemos dizer que a monogamia, bem como a poligamia, se torna egoísta quando adotada de forma a suprir os próprios interesses acima dos interesses dos demais.
Logo, só podemos afirmar que uma ou outra é egoísta quando, dentro de um contexto, conhecemos os interesses das pessoas envolvidas.

Uma pessoa que se considera monogâmica não pode ser considerada egoísta quando se relaciona com outra que também se considera monogâmica pois não há sobreposição e sim comunhão de interesses. E o mesmo é válido para relacionamentos entre pessoas poligâmicas.
Se eu, mulher homossexual, me apaixono por uma mulher heterossexual, não posso taxá-la de egoísta por não querer se envolver comigo, afinal a homossexualidade não faz parte da natureza dela.
Da mesma forma, se me considero monogâmica, não posso taxar de egoísta minha coleguinha poligâmica que se recusa a abrir mão da satisfação das necessidades dela em prol dos meus interesses.
Igualmente, se me considero poligâmica, não posso taxar de egoísta minha coleguinha monogâmica que não tem as mesmas necessidades e interesses que eu.

Uma coisa que me foi dita em meio as argumentações foi que “a ideia de exclusividade — de achar que eu posso satisfazer em tudo a outra pessoa me parece bem ilusória.”

E isso me levou a duas outras reflexões diferentes, com questionamentos cujas respostas também vão variar de indivíduo pra indivíduo. O primeiro questionamento-reflexão é: Nós somos seres completos ou incompletos?
O segundo questionamento-reflexão é: Com que objetivo as pessoas se relacionam (amorosamente) com as outras?

Acredito que, de certa forma, os dois questionamentos estão interligados, mas como as respostas são muito pessoais não vou me estender nos possíveis cenários que podem surgir dessa reflexão.
Contudo, se consideramos o ser humano como um ser incompleto, podemos inferir que, ao nos relacionarmos com os outros, buscamos aquilo que sentimos que nos falta a fim de suprir nossas necessidades.
Em contrapartida, se consideramos o ser humano como um ser completo, capaz de ser feliz por si só, então os relacionamentos tomam outras proporções, de cunho mais pessoal e genuíno.

Pessoalmente, não me agrada a ideia de relacionamentos que se baseiam em tapar buracos (ou satisfazer necessidades) um do outro.
Eu gosto da ideia de relacionamentos que se baseiam em pessoas que reconhecem suas lacunas e se apoiam mutuamente para que cada uma, dentro de suas próprias competências, seja capaz de tapar seus próprios buracos.
É claro que isso não significa que isso seja exclusividade de relacionamento monogâmicos. Assim como a ideia de “amor livre” não é exclusividade de relacionamentos poligâmicos.

Sim, é verdade que ao amar uma pessoa é preciso respeitar quem ela é e o que ela sente — inclusive por outras pessoas. Mas isso não está ligado à escolha da pessoa em ser ou não monogâmica, isso diz respeito apenas à escolha de amar.
A construção de um relacionamento entre duas (ou mais) pessoas que se amam é uma questão única que vai além de mono ou poligamia. Vai da disposição de cada indivíduo em se comprometer em maior ou menor grau, vai das dinâmicas existentes e de como o sentimento se desenvolve pra cada pessoa.
Não é possível estabelecer um padrão. Cada casal é um universo.

O amor, enquanto doação sem expectativas, é oposto do egoísmo. Logo, o amor não é egoísta. As pessoas é que são egoístas. E pessoas egoístas podem ser adeptas tanto da mono quanto da poligamia.

Por fim, acho que a conclusão da minha reflexão é que tudo “depende”.
E que é muito fácil fazer julgamentos quando nossa razão procura autoafirmação e ignora a infinidade de universos presentes em cada indivíduo.

Pra finalizar, meu conselho é que fiquemos atentos às armadilhas do ego.

Sempre esteja consciente ao se sentir superior. A noção de que você é superior é a maior indicação de que você está em uma armadilha egóica. O ego adora entrar pela porta de trás. Ele vai pegar uma ideia nobre, como começar yoga e, então, distorcê-la para servir o seu objetivo ao fazer você se sentir superior aos outros; você começará a menosprezar aqueles que não estão seguindo o seu “caminho espiritual certo”.

thayse ferreira

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