A boca negra - o instrumento que a branquitude quer e precisa controlar para se proteger.

Escrevo aqui sobre algo que certamente foi e é experimentado por cada pessoa preta em alguma fase de sua vida, em inúmeros espaços e que se dá de diversas maneiras: O silenciamento. É uma sensação de abafamento da voz todas as vezes que queremos expressar questões que nos trazem incômodos e que colocam nossas vidas em constante risco. Tocar no assunto sobre o impedimento da nossa fala é voltar na história e ter conhecimento que nossa ancestralidade sofreu do mesmo mal. É muito importante trazer à memória os acontecimentos dos que vieram antes de nós para que possamos entender a dinâmica a qual nosso corpo é submetido e questionar a forma como o branco se coloca diante de nós.

Ilustração de uma máscara de Flandres — “Castigo de Escravos” Jacques Etienne Arago, 1839

Tiram nossa palavra desde os tempos mais remotos, onde através de instrumentos de tortura, o branco fazia as maiores perversidades para selar também o som de nossa boca. Uma das peças bem reais e concretas de tortura usada foi a máscara, que era feita por uma parte de metal posta no interior da boca, colocado entre a mandíbula e a língua e cravado atrás da cabeça por duas cordas, uma envolta da testa e do nariz e outra no queixo. Era utilizada pelos senhores brancos afim de não permitir que nós cometêssemos suicídio comendo terra num ato de revolta, para que não nos alimentássemos das plantações de cana de açúcar e dos grãos de cacau que diziam ser propriedades deles. Foram muitas as investidas para conter nosso corpo, controlar nossa boca. Essas máscaras tiveram por intuito não apenas impedir o que foi mencionado acima, mas também cumpriu o objetivo de tirar do nosso povo a liberdade de se expressar e se conectar entre si.

A boca é uma cavidade com grandes propósitos, ela significa a fala e a declaração, que sempre nos foi censurada. Esse tema nos faz refletir o motivo que leva a nossa boca ser aprisionada e questionar a razão pela qual a voz branca pode ser ouvida livremente, sem qualquer impedimento. Por que a nossa deve permanecer fechada? O que poderia o sujeito negro falar se ele não tivesse a boca amarrada? Existe um terror inquieto de que se o negro falar, o branco terá que ouvir e será obrigado a ficar de frente à sua verdadeira imagem. É como se nós pretos colocássemos um espelho diante deles onde toda a sua monstruosidade torna-se visível. Somos nós pretos que sabemos o que de fato eles são. O colonizador sabia muito bem o que estava fazendo quando quis calar nossa voz. O branco ainda sabe.

Há através de nós muitas coisas a respeito deles a serem anunciadas, que ainda se colocam propositalmente desconhecidas em grande parte dos lugares onde estamos, onde tudo aquilo que eles declararam como verdade sobre eles de fato não condiz com o real. Não querem ouvir porque sabem muito bem que tudo o que fantasiaram sobre nosso povo, fazendo com que o mundo acreditasse em toda a falácia dita sobre nós, na verdade diz respeito a própria realidade deles. Uma realidade capaz da destruição de toda a forma negra de viver. Quando falamos, apontamos toda a sujeira feita pelas mãos deles. Nossa voz ecoa como tentativa de quebra e ameaça ao privilégio de ser branco. Nossa voz tem por resultado tirá-los de seu lugar cômodo, tirar o véu, revelando sua branquitude que tem por consequência afligir nossas vidas. Com a nossa voz anunciamos o ganho que o branco tem por ser racista.

Hoje não usamos máscaras como aquelas de tortura, mas nossas vozes continuam sendo impedidas pela supremacia branca através de configurações eficazes. Os mesmos arranjos, com uma mesma essência são colocados em prática para o mesmo objetivo. É através da nossa morte em massa de múltiplas maneiras e dos lugares que tão difíceis são para termos acesso. Das nossas vidas continuarem significando nada. Da nossa palavra ser esvaziada e reduzida a pó por eles.

Ativista política pelos direitos civis Olive Morris(26/06/1952–12/07/1979)

Acredito que o projeto da revista Òkòtó transforma nossa voz em escrita num somar de todo o silêncio através do tempo que o branco promoveu nas nossas existências. Aqui nós aprendemos também o exercício da fala num formato potente de letras. Nossas vozes aqui juntas vêm como flecha para atingir e trazer incômodo ao privilégio branco à custa do nosso povo. Todo esse movimento é também para não mais permitir o nosso calar. Queremos dar vez a voz para anunciar toda a verdade sobre nós e sobre o que o branco de fato é. Verdades que são recusadas, ocultadas e conservadas numa proteção, como secreto. Queremos que o som se manifeste através do grito, se necessário, para desnudar o segredo da escravidão, do racismo. Soltemos nossa palavra. Ninguém nos calará.