Ana Mendieta, Facial Cosmetic Variations,1972 (Reprodução)

Ana Mendieta: o corpo como obra

Thai Coelho
Jul 20, 2017 · 3 min read

Como funciona o corpo dentro da arte contemporânea? De que formas ele comunica? E do que ele é capaz? A visceralidade da obra de Ana Mendieta e o incômodo que é gerado a partir do momento em que entramos em contato com seus trabalhos servem perfeitamente ao propósito de perceber o local do corpo na sociedade. Mas não qualquer corpo. Principalmente o corpo da mulher.

Ana Mendieta (1948–1985) foi uma artista cubana que atuou no campo da performance e body art e teve como um dos seus principais temas o feminismo. O que é calado na vida pode encontrar sua expressão na arte. E ela desde o início da carreira se deu conta de que o corpo poderia ser a melhor maneira de expressar questões como política, identidade, violência e machismo.

A materialidade e crueza de um corpo nu, transfigurado e muitas vezes deformado, como aparece nas obras dela, vêm para comunicar justamente a transcendência de uma alma que clama pelo espaço, visibilidade e sensibilidade de sua existência. Por carregar as marcas em si, o corpo de Ana fala sem rodeios, de forma altamente visual, direta e passional.

Em uma de suas obras mais marcantes, Silueta Series (1973–1980), a artista se conecta com a natureza a partir da marcação de sua silhueta em elementos naturais, como grama, barro e areia. Há um quê de espiritual nessa extensão do corpo na natureza, uma condição esquecida ou mesmo negada aos corpos modernos, resgatada por ela nesse trabalho.

Ana Mendieta, Três trabalhos da Silueta Series, 1973–1980 (Reprodução)

Em outra obra bastante significativa, Glass on Body (1972), Ana deforma o próprio corpo em placas de vidro, em uma alusão ao sistema ideológico de controle do corpo feminino. Na performance, há uma desmistificação da sensualidade do corpo e uma crítica à imposição de uma deformação à mulher, completamente forjada e mascarada pelo sistema.

Ana Mendieta, Trabalhos do Glass on Body, 1972 (Reprodução)

Outro trabalho que toca profundamente é o Rape Scene (1973). Em uma sala, Ana aparece amarrada sobre uma mesa, seminua e com um sangue que escorre pelas pernas. Na performance, que aconteceu no seu apartamento, as pessoas entravam na sala e ali permaneciam durante uma hora, sem que Ana se movesse um só minuto, como se fossem testemunhas de um crime que acabou de acontecer. A ação foi pensada pela artista após a notícia de que uma colega da universidade onde estudava havia sido estuprada e morta. Os sinais de violência no corpo vulnerável de Ana recriam toda a atrocidade do crime.

Ana Mendieta, Rape Scene, 1973 (Reprodução)

Muito do que se escuta falar sobre Ana Mendieta está, não só ligado às suas obras, como infelizmente ao final trágico e precoce de sua vida. Aos 36 anos, a artista caiu do 34º andar do apartamento onde morava com o então marido e escultor Carl Andre, que alegou suicídio, porém ainda resta a dúvida de que a queda teria sido fruto de um assassinato, crime pelo qual ele foi julgado e absolvido em 1988.

Movimentos feministas dentro e fora do campo da arte relembram a artista em diversas ações, entre elas o simpósio Onde está Ana Mendieta?, realizado em 2010 na Universidade de Nova York na ocasião do 25º aniversário de sua morte.

Ana Mendieta é daquelas artistas que fazem com que você repense não só o que você conhece sobre arte, como o que você entende sobre a vida. E você? Que outros artistas te impressionam?

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Post originalmente publicado no blog Plastia Magazine.

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Thai Coelho

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Notas sobre arte e fotografia, além de várias pitadas sobre saúde e bem-estar. É jornalista freelancer e autora do blog Plastia — http://plastiamagazine.com.br/

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