
“Diane Arbus me disse que a fotografia é um segredo sobre um segredo”
Ninguém melhor do que Diane Arbus, fotógrafa norte-americana, para nos lembrar que não, a fotografia não está dita, clara, objetiva, nem muito menos é a prova do real (ou do que pintam para a gente como real) que durante muito tempo se acreditou ser. Sempre há o tal segredo, o oculto, o preservado ou até mesmo o deliberadamente silenciado no quadro fotográfico.
Diane disse a frase a Otto Stupakoff, fotógrafo paulistano que foi amigo da artista. Por sorte, dei de cara com a frase na exposição sobre ele, realizada entre dezembro de 2016 e abril deste ano no Instituto Moreira Salles (RJ), e foi impossível não refletir sobre a ideia.
Ela disse essas palavras não só para Stupakoff, mas para o mundo:
“Uma fotografia é um segredo sobre um segredo. Quanto mais você diz, menos sabe”.
A fotografia é algo misterioso, de fato. Ela ganha significado sim no plano político, social, cultural, mas principalmente no plano interior, no particular de cada um, no desenrolar da vivência do sujeito que cria e lê a foto. O que é “revelado”, no fim, nada mais é do que um universo subjetivo, seja de quem produz a imagem, seja de quem é retratado por ela ou de quem a observa. E nunca saberemos dele por inteiro.
Diane Arbus (1923–1971) conseguiu explorar essa subjetividade como ninguém ao focar seu trabalho em pessoas marginalizadas e estigmatizadas. Pessoas das quais não se sabia muito, invisibilizadas, consideradas estranhas, elas próprias um segredo social por si só.
Foram retratados de forma autoral e documental desde artistas de circo, prostitutas, travestis, personagens carnavalescos até nudistas, deficientes físicos ou com questões psiquiátricas e todos aqueles fora do padrão estabelecido.
Porém, diante de toda a diversidade de suas fotografias, o que mais me chama a atenção no trabalho de Arbus é como ela retrata a dignidade dessas pessoas. Seus fotografados encaram a câmera de frente, olhos fixos, alguns posam de forma casual, rindo, outros um tanto austeros e sólidos, mas todos ali presentes, por inteiro.
Essa dignidade bem marcada nas imagens é também consequência do modo de atuar de Arbus, afinal havia respeito, envolvimento e identificação com seu tema. E apesar de saber que há muita história por trás de cada foto, sempre haverá algo impossível de alcançar, o mistério, o tal segredo que, no fundo, está contido em cada um de nós.
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Post originalmente publicado no blog Plastia Magazine.
