Fotografia tirada por mim há anos atrás | Sem título, 2012 (Arquivo pessoal)

O problema da contemplação

Thai Coelho
Jul 20, 2017 · 3 min read

Com novas plataformas de consumo de imagem, como fica nosso tempo dedicado à contemplação da arte? Será que ele ainda existe? Será que tem sido o suficiente? O amontoamento industrial de imagem nas plataformas digitais está inaugurando uma nova forma de lidar com as obras, sem dúvida. Como consequência, parece inaugurar também uma nova forma de contemplar.

O significado quase religioso da palavra contemplação nos dá o tempo como seu principal pilar: “ato de concentrar longamente a vista, a atenção em algo, meditação, reflexão”. Porém, o tempo entendido dentro da lógica industrial é ele próprio um produto por si só: quanto menor o tempo, tanto para a produção quanto para o consumo, mais valioso ele se torna para o mercado.

Instagram e Facebook, duas das principais plataformas de consumo de imagem hoje, reafirmam essa noção do tempo consumível. As imagens ali postadas não possuem mais do que alguns segundos para observação. As fotografias, vídeos, gifs se sobrepõem, numa corrida por mais visualizações. O tempo para observação de um é imediatamente “roubado” no momento em que outra imagem é postada.

Pensando no lado de quem observa, somos cada vez mais atingidos por esse turbilhão. Estamos beirando à dependência e compulsão, como meros “coletores de sensações”, nas palavras de Zygmunt Bauman. Essa alta exposição a imagens nada mais pode causar que vício e consequente anestesia. Em um determinado momento, elas deixam de atingir.

Dentro de um contexto de dependência, é fácil empobrecer sensorialmente o observador. Mas não só sensorialmente. A atual lógica de consumo acaba por nos empobrecer também moralmente. Isso porque em um mundo no qual o tempo é cada vez mais frenético, fugidio, fragmentado, o olhar se exime de responsabilidade. É como se vivêssemos dentro de um décor teatral, como já disse Muniz Sodré, simplesmente olhando por olhar, nos movendo entre imagens de uma forma banal e descartando praticamente todo o conteúdo visual no final do passeio.

Longe de fazer um texto conclusivo, vou deixar uma reflexão para pensarmos juntos: diante do empobrecimento moral que custa o “olhar sem responsabilidade”, se ficamos na esfera do superficial, se não nos conectamos mais com a imagem, se não dispensamos tempo para sua contemplação, estaríamos então vivendo um momento que pode ocasionar o empobrecimento da própria imagem como agente de transformação, seja individual ou coletiva?

Antes de parecer um pouco pessimista, acredito que a base para transformação desse processo seja o próprio observador, e o tempo como seu principal aliado. O museu, por exemplo, ainda pode ser um refúgio para esse tipo de experiência de observação, menos caótica e industrial. Ali, ainda há um tempo genuíno, sob seu controle, o qual o observador é capaz de gerir plenamente.

Mesmo com um olhar viciado pela rotina digital frenética, esse tempo permitirá ao observador parar, ultrapassar a superfície, se deixar atingir. O seu tempo — e não o tempo do mercado…

∗∗∗

Todas as reflexões foram pensadas em conjunto com a Manoela Lemos, amiga, fotógrafa e professora na Sociedade Fluminense de Fotografia (RJ). Todo o meu carinho por essa parceria. ♥

Post originalmente publicado no blog Plastia Magazine.

)

Thai Coelho

Written by

Notas sobre arte e fotografia, além de várias pitadas sobre saúde e bem-estar. É jornalista freelancer e autora do blog Plastia — http://plastiamagazine.com.br/

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade