Nem se conta mais amigos nos dedos

Eu cheguei em casa, depois de um dia absurdamente exaustivo, tirei os sapatos, lavei o rosto, sentei na cadeira de estudos e antes mesmo do dia acabar, tudo iria começar de novo. Eu iria ligar o computador, resolver algumas coisas do trabalho, estudar algumas apostilas, tudo, menos pensar.

Mas dessa vez eu tirei os sapatos, lavei o rosto, e me sentei na sacada. É, vivo como milhões de pessoas, num caixote, com um cubículo milimetrico chamado “sacada”. Então, eu olhei pra frente, mas o que eu enxergava não era o seguinte prédio. Era minha vida, nua, com as vistas embaçadas eu via a mim.

Nesse frenético estilo de vida que levamos, é raro observamos nossas atitudes, olharmos pra alma, analisarmos nossos sentimentos. Aliás, quais sentimentos? Nesse dia revi minhas relações afetivas, e vi que eram mornas, convencionais, rasas, sem muitas perspectivas de um futuro em que nos separamos de trabalho, faculdade, ou seja lá qual convenção obrigatória nos uniu.

Vivemos num mar de conhecidos. Pensamos que encontramos amigos. Sorrimos pra uns tantos perdidos. Amigos.. Raros, rarissímos, quase o santo graal pós-moderno. Relações triviais, fotos pro Facebook, um bocado de palhaçada, roda de bebidas, assuntos banais. Não que de tudo isso seja péssimo, as vezes ajuda esquecer o grande show de terror em que você se encontra. Mas, e depois? Daqui 10 anos, o que essas pessoas poderão dizer que sabem sobre mim? O que eu poderei dizer que sei sobre elas? Não é disso que se trata realmente a amizade? Além de todas as banalidades que nos alegram, o diferencial seria saber, não seu user no Instagram, mas seus sentimentos sobre você mesmo, seus conflitos, seus problemas reais.

Eu não sei em que tipo de encanto todos estamos. Mas é fato que as pessoas andam preguiçosas, querem amizades rápidas, descompromissadas, de riso fácil, de choro jamais. Ninguém anda muito afim de aceitar que compartilhem problemas, ainda que digam “O que está acontecendo?”. Faça o teste você mesmo, se alguém chegar a perguntar, inicie a sabatina dos seus acontecimentos e perceba em seguida o desconforto, a falta de interesse, e o total desconhecimento de quem é você.

É, meus caros, se meus pais diziam que podiam contar os amigos nos dedos, devo dizer que posso contar onde?