A ascenção das webcomics
[11/05/14]

Hugo Viana e Thaís Cavalcanti
Com a segunda edição da Feira Plana (evento em São Paulo que reúne publicações independentes), em março deste ano, e a FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos de BH), em novembro, há um caminho que sugere que as webcomics (quadrinhos para internet) parecem se legitimar apenas através de projetos editoriais impressos.
Para perceber como há algo simbólico nisto, basta lembrar o movimento underground, nos anos 1960, e o impacto da norte-americana Zap Comix na cultura do faça-você-mesmo. No Brasil, as comix ressignificaram, com acidez, o modo de desenhar, influenciando artistas como Laerte, Angeli, Glauco e Adão, em revistas como a Grilo, Balão e Chiclete com Banana.
Da primeira tira de jornal (“The Yellow kid”, 1895) para cá, o meio experimentou uma enxugada. Charles M. Schultz, Quino e Bill Watterson (Peanuts, Mafalda e Calvin e Haroldo, respectivamente) apropriavam a linguagem de seus personagens melancólicos e ácidos ao exíguo espaço das dos jornais. Hoje, ao abrir simultaneamente um jornal e um blog, não é difícil perceber que alguns quadrinistas que seguem o modelo “às próprias custas S.A.” encontraram um lugar único.
“Não fosse pela Internet, minhas histórias estariam todas na gaveta”, comenta Ricardo Coimbra, um dos autores da Revista Xula. “Desde 2002 participo de mostras, publicações alternativas, mas nada que saísse do circuito universitário. Quando criei meu blog, em 2009, tinha acabado de perder o emprego. Não achava que as pessoas fossem ler. De repente, começo a receber opinião de desconhecidos. Isso me incentivou. Depois veio o Facebook, perfeito pra esse tipo de divulgação”, destaca.
Mesmo assim, ainda parece complicado definir a real expressividade da Internet no mercado de HQs. “Depende do que a pessoa considera como crescimento. A Internet tem potencial para facilitar a produção, a publicação. Mas não tenho certeza se ficar profissionalizando demais é positivo; esse ambiente darwinista de competição aplicada à arte mata um pouco da espontaneidade”, diz. Para Bruno Maron (que também integra a Xula), a boa recepção na rede pode, também, ser perigoso. “Fazer quadrinhos não pode ser um ‘caça-likes’, senão você se torna um serviço, como um restaurante”, argumenta.

Trabalhar com humor em tirinhas parece permitir aberturas ao colocar uma lupa, através da reflexão e da paródia, em algo tão intricado nas relações sociais: o próprio riso. “O Brasil vive um momento interessante com o boom das redes sociais, porque as pessoas se expõem mais. E qualquer discurso cheio de ato falho é um prato cheio para o humor”, analisa Ricardo. “Sobre a desconstrução de valores através da subversão do humor, pergunto: qual o valor do valor? A gente cria valor, produz nossa realidade. Porque duvidar das autoridades a gente já duvida faz um tempão. Mas tem muito fascismo disfarçado de narrativa salvadora por aí”, ressalta Maron.

Gabriela Masson, que assina como Lovelove6 e publica quadrinhos que expõem relações de sexo e desejo — “Não conhecia trampos que contemplassem o que eu queria comunicar” -, sinaliza dificuldades no compartilhamento virtual. “Já tive problemas com desenhos da Garota Siririca, em compensação a rede mantém as páginas criminosas de slut-shaming, revenge-porn (incluindo muuuitas meninas novinhas) e racismo. O público que entra em contato com a Garota Siririca é demais, recebo mensagens de apoio e mulheres compartilham experiências”, destaca.
Legitimação
A aceitação de quadrinhos na Internet sugere uma modificação na maneira de consumo de HQs, uma transformação baseada em hábitos contemporâneos: o mercado impresso — jornais, livros e revistas — parece deixar de ser o único ambiente de legitimação artística; a rede se torna uma espécie de portfólio virtual.
“Imagino que a galera que cresceu com a Internet vá perder um pouco desse fetiche”, opina Ricardo. “No máximo, uma fascinação pelo livro como objeto. Eu, 35 anos, sou meio desencanado. Claro que gosto de ver minhas coisas impressas, pra mostrar pra minha mãe. Mas a edição, a tiragem, o lançamento, isso tudo é complicado pra mim. Gosto de ser visto como um cara de Internet, com tudo o que isso traga de bom e ruim “, comenta.
PROJETO — Lovelove6 integra o projeto das webcomics Batata Frita Murcha e publica a série Garota Siririca pelo blog da Revista Samba desde o ano passado.
LIVRO — Bruno Maron lançou, em 2013, pela editora Lote 42, o livro “Manual de sobrevivência dos tímido” — união entre textos curtos e imagens.
BLOG — Os trabalhos de Ricardo Coimbra são publicados em seu blog: www.vidaeobrademimmesmo.blogspot.com.br.
O despudor da revista Xula

Thaís Cavalcanti
Luciana Foraciepe, que responde pela fanpage Maria Nanquim, criou uma página no Facebook no início de 2012 (hoje com mais de 35 mil likes) não para divulgar seu trabalho como quadrinista, mas como curadora de uma seleção de autores alternativos e independentes, principalmente brasileiros.
Publicitária de formação, Luciana transita no meio dos quadrinhos como admiradora e foi através de blogs que conheceu os amigos e autores da Revista Xula, primeira produção da página como selo editorial. O trabalho, idealizado desde o final de 2011, reúne as produções de Calote, Bruno Maron, Bruno di Chico e Ricardo Coimbra, do modo mais chulo de cada, a pedido da editora. A capa é do artista Jaca.
Para quem acompanha a Maria Naquim, o conteúdo sujo e despudorado da Xula parece alheio ao trabalho que ela faz com a fanpage. Há lá traços psicóticos e explosivos de Di Chico em convivência com o mundo cinzento de Coimbra que constrastam com a paródia de Maron — e seus personagens do Cara a Cara. Mas é a unidade através de estilos autorais tão distintos entre si que desenvolve um trabalho criativo que seguem o espírito punk das comix, sem com isso debandarem para o puro experimentalismo.
Para Calote, criador do Capitão Indulgência, personagem que mais se repete na revista, o humor obsceno dá “aquela cutucada”. “Muitos dizem que é uma forma apelativa de humor, que não é inteligente. Mas não tá tudo caretinha, Hermes e Renato tá aí há um tempão e o boom do Porta dos Fundos também mostra que o humor tem várias facetas. A impressão que eu tenho é que o quadrinho de humor é que tá meio parado no mercado editorial. Mas o Capitão Indulgência diria que não importa se o humor é bobo ou não, se você rir, tá valendo”
*matéria publicada no caderno Programa, da Folha de Pernambuco