A eterna esfinge Ana C.
[05/02/14]

Ana Cristina Cesar, poeta marginal entre os poetas marginais — ou udigrudi — de 1970, completaria seis décadas de vida em 2012 — mas a interrompeu há trinta, completos no último 29 de outubro, data em que se atirou da janela na casa dos pais, em Copacabana. Àquela época, suas obras resumiam-se a três publicações independentes, e uma lançada comercialmente, “A teus pés” (1982). Armando Freitas Filho, também poeta e grande amigo da escritora, encontrara pela mãe de Ana C. manuscritos de uma vida, de cadernos com poemas e frases soltas a anotações e redações de escola. Seu material deu origem a cinco livros póstumos lançados por Freitas Filho e que se encontram disponíveis no “Poética”, recém-lançado pela Companhia das Letras.
Além de poeta, Ana Cristina atuou como jornalista, tradutora e crítica literária. Em 1976, de volta ao Brasil com uma bagagem de literatura inglesa, a estudante da PUC-Rio é publicada na antologia “26 Poetas Hoje”, organizada por Heloísa Buarque de Hollanda, e integra-se a essa geração literária marginal, que Heloísa credita como dona de “uma poesia light e bem-humorada” mas cujo tema principal seria o “ethos de uma geração traumatizada pelos limites impostos a sua experiência social”. No ano seguinte, ajuda a criar o jornal alternativo O Beijo, cuja ideia era discutir temas então relegados no debate da esquerda, como homossexualidade e repressão nos países socialistas.
Em 1983, Ana C. não deixou carta de despedida, além de seus poemas baseado no gênero diarísticos e epistolar (escrita relativa à carta), como em “Correspondência completa”, por exemplo. O tom que dialoga (ou brinca?) com o autobiográfico e o modo como encerrou sua vida talvez tenha despertado o interesse em sua obra como leitura de biografia (“Fica difícil fazer literatura tendo o Gil — como chamou Freitas Filho — como leitor. Ele lê para desvendar mistérios e faz perguntas capciosas, pensando que cada verso oculta sintomas, segredos biográficos. Não perdoa o hermetismo”). É uma corda bamba cujo caminhar é pouco útil, e do qual ela rejeitava.
O diário e a carta, tipos de escrita considerados por Ana como “o mais imediato que existe” (e se seu ritmo esfumaça em vez de solidificar, por que não?), traziam uma revelação do Eu sob a “premência, quase teatral, de ser íntima”, nas palavras de Armando Freitas Filho, num posfácio de Joana Matos Frias em “Poética”. Além de nutrir sua ferocidade pela influência beatnik de Allen Ginsberg e Jack Kerouac (poetas marginais que “levavam suas opções estéticas para o centro de suas experiências existenciais”, dizia) e Walt Whitman (considerado precursor dos versos livres), o contato com escritoras como Sylvia Plath, Emily Dickinson (ambas traduzidas por ela) e Clarice Lispector reforçou seu traço intimista. Por meio das subjetividades diversas, típicas do sujeito pós-moderno, deixou emergir um sujeito feminino, através de uma relação com o universo cultural e afetivo problemático das mulheres, como na expressão da sexualidade.
Ainda no “Correspondência completa”, escreveu: “O dia foi laminha. Célia disse: o que importa é a carreira, não a vida. Contradição difícil. A vida parece laminha e a carreira é um narciso em flor”. Em 29 de outubro de 1983, com uma depressão que já a havia levado à tentativa de suicídio pouco antes, vida e carreira de Ana C. não puderam se encontrar.
Obras
Em vida, Ana C. lançou “Cenas de Abril” (1979), “Correspondência Completa” (1979) e “Luvas de Pelica” (1980). Postumamente, Freitas Filho organizou “Inéditos e Dispersos” (1985), “Escritos na Inglaterra” (1988), “Escritos no Rio” (1993), “Correspondência Incompleta” (1999) e “Novas Seletas” (2004). “Antigos e Soltos” (2008) é organizado pela professora da USP Viviane Bosi.
A morte como elemento de alegoria poética

No Ocidente, os diários foram escrituras inicialmente masculinas e propícias à publicação, feitos por figuras que narravam viagens, guerras e cenas da corte. Nos séculos 18 e 19, a escrita diarística se popularizou entre as mulheres e tornou-se ferramenta de evasão da vida doméstica e do domínio masculino que excluia suas participações nos mundos culturais da época, ao passo que os homens se afastavam e a produção tornava-se marginalizada.
Esta era a forma que encontravam para comunicar-se com si mesmas ou com o Outro, segundo a pesquisadora Michelle Vasconcelos, que atualmente desenvolve um trabalho de pesquisa de pós-doutorado pela CAPES/FAPERGS sobre o Diário e epistolografia do último ano da poetisa Florbela Espanca. “No fim do século 19 e 20, o diário pessoal começou a tomar as características através das quais o conhecemos hoje, ou seja, como o ‘livro do eu’”, explica.
De algum modo, esse gênero que exibiu uma força aos “escritos femininos” e “escritos de autoria feminina” reforçaram a análise e dramatização do Eu — e dos múltiplos eus -, características tanto presentes em Florbela Espanca (1894–1930) e Ana Cristina Cesar, como em Sylvia Plath (1932–1964) e Anne Sexton (1928–1974) — todas suicidas — que segundo Lucila Nogueira, professora de pós-graduação de Letras da UFPE, pertencem ao grupo da Poesia da Experiência, que nem sempre segue a técnica confessional: “Esta última muitas vezes pode ser apenas a maneira estilística de veicular aspectos às vezes pertencentes apenas ao campo da imaginação. A obra dessas autoras é construída em relação direta com a psicanálise e as pessoas gostam da poesia da Sylvia e Sexton porque ela é esteticamente eficaz e toca o leitor intimamente”.
Intimamente: talvez para a instância da criação, a morte seja mais um necessário fragmento que compõe a complexidade humana. Nesse sentido, a busca da morte destas autoras também foram presentes em suas produções, desde um manuscrito póstumo de Florbela em “Trocando Olhares” (1916–17), a poemas como “Wanting to die”, de Anne Sexton, e “Daddy”, de Sylvia Plath.
Sobre Plath, suas cartas e diários que escrevia compulsivamente serviram como um estudo à parte de sua literatura, tendo baseado o ensaio “A mulher calada”, de Janet Malcolm. Em “O Deus Selvagem — um estudo do suicídio”, em que o escritor Al Alvarez se afasta do sentido patológico ou religioso em que o suicídio pode se inserir, o autor identifica no intenso “Ariel”, último livro de Plath, as mesmas visões e coragem que a levaram ao ato trágico.
*matéria publicada no caderno Programa, da Folha de Pernambuco