O olhar do outro segundo Guadalupe Nettel
[10/03/14]

“O corpo em que nasci” traz à tona as lembranças da infância da escritora mexicana Guadalupe Nettel
Não há uma tradução literal para o português da palavra “outsider”. A mais próxima talvez seja “desviante”. O desviante, o freak, o bizarro é o indíviduo desconfortável com o olhar dos outros ao entorno, de modo que ele aceita e se compreende como um sujeito estranho — e assim seu corpo se inclina e desvia para se alinhar a essas crenças ou vice-versa. É a partir da lembrança de curativos em cima de uma obstrução de nascença da pupila que a narradora de “O corpo em que nasci” (Rocco) desenvolve sua história, a começar pelos borrões da infância e os comentários maldosos por conta do curativo. O livro faz parte da coleção Otra Língua, organizada por Joca Reiners Terron, dedicada a autores hispano-americanos, e traz a narração autobiográfica da mexicana Guadalupe Nettel, cuja temática do desviante lhe é familiar em contos anteriores. O projeto Otra Língua, inclusive, é uma organização que destaca e traduz outros escritores latinoamericanos para que não sejam (o que ironicamente são) tão “outsiders” ou fora de cena aos brasileiros.
De início, acompanhamos as tonturas e o incômodo da narradora à medida que cresce a expectativa dos pais em dar-lhe uma boa visão. O relacionamento com os pais, os colegas, avó, professora são uns dos temas expostos em primeira pessoa à Doutora Sazlavski, sua analista, que nunca interrompe o fluxo narrativo — fato que tem algo de cômico e sombrio simultaneamente: há um rastro de silêncio a ser seguido, afinal (que terminaria no leitor?). E é por abordar a temática do bizarro do jeito que se aproxima na escolha narrativa que não há como não sentir certa afeição à personagem.
No autoconhecimento da infância e adolescência durante o México e a França nos anos 1970 e 1980, a narradora lida com a sinceridade extrema dos pais, filhos de um pós-guerra, e uma avó conservadora. São justos seus entes próximos, no entanto, que lhe faltam a verdade, em diversos momentos, como sintetiza a avó: “Desde quando os pássaros usam espingardas?”, numa afirmação que bloqueava a passagem da criança num “território adulto”.
O olhar da outsider se encontra com o de outras crianças da vizinhança, exilados argentinos e chilenos fugidos de ditaduras de olhares melancólicos, como uma vizinha suicida, Ximena, que mantivera contato visual por algum tempo até perdê-la. A narradora, deitada no divã, é cercada de sombras: a visão defeituosa, a ausência repentina dos pais, ausência de conforto social, o intercâmbio de nacionalidade e à sombra de suas leituras pessoais, como “A Incrível e Triste História da Cândida Erêndira e Sua Avó Desalmada”, de Gabriel García Márquez, e “Metamorfose”, de Kafka.
Apesar da influência de Enrique Vila-Matas e Julio Cortázar, é no universo já compartilhado por escritores do movimento beatnik, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, que Guadalupe acaba por buscar. A principal sombra em “O corpo em que nasci”, na verdade, são todas as tentativas falhas da narradora em calar-se (ou quando diz que o silêncio, de leveza aparente, pesa como uma espécie de bigorna se deixá-lo umedecer) ou “corrigir” o sujeito estranho, ou desviante, em si.
Serviço
O corpo em que nasci, de Guadalupe Nettel
Tradução: Ronaldo Bressane
Editora Rocco (224 págs., R$ 34,50)
OBRA — “O corpo em que nasci” é o primeiro romance traduzido para o português de Guadalupe Nettel. Além dele, escreveu “El huésped”, finalista do prêmio Herralde em 2005, e três livros de contos: “Juegos de artificio”, “Les Jours fossiles” e “Pétalos y otras historias incómodas”. Também já foi traduzida para francês, holandês, alemão, inglês, italiano e sueco.