revoluções íntimas e sociais de olympe de gouges em HQ
[07/07/14]

Uma das telas mais famosas sobre a Revolução Francesa, “Liberdade guiando o povo”, de Eugène Delacroix, corporizava a liberdade como uma mulher branca, no centro da luta, com o busto despido e a carregar a bandeira francesa em uma mão e uma arma de fogo na outra. Ironicamente, na paradoxal democracia pela qual lutava a França revolucionária do século XVIII, as mulheres, mesmo as brancas, não estavam perto de serem livres, ainda que fossem ativas. Essa França é o cenário da HQ recém-lançada no Brasil “Olympe de Gouges”, dos autores franceses Catel e Bocquet, que narra a história da escritora libertária, abolicionista e precursora do feminismo, Olympe de Gouges (1748–1793).
Feita em três anos de pesquisa dos autores, a obra inclui, além das 400 páginas do romance gráfico organizado em capítulos com datas e locais, uma breve cronologia da protagonista com os acontecimentos da época e minibiografias de personagens que aparecem ao longo das páginas. A considerar o número de páginas, os traços limpos, arredondados e delicados de Catel Muller são caprichados e criam cenários rebuscados. O trabalho conjunto, iniciado com a premiada HQ Kiki de Monterpass, parece apontar um caminho de uma série de mulheres protagonistas na história do feminismo e, afinal, na própria construção de história do Ocidente, da qual essas personagens aparecem nebulosamente — e quando aparecem — nas escolas.
Reconhecida pelas peças e atuação política, a principal publicação de Olympe é a “Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã”, em 1789, como uma resposta à “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão” criada no mesmo ano e que sequer mencionava as mulheres, pouco alfabetizadas e sem direito a voto.
No livro, nos é apresentado todo o contexto social em que Olympe cresceu, incluindo passagens de sua mãe antes de engravidar em Montauban, de modo que os leitores acompanham a construção psicológica e política da personagem. Olympe é uma espécie de heterônimo que Marie de Gouze adotou. De origem humilde, viu-se, aos 18, mãe e viúva de um casamento arranjado. A partir de então, se opõe ao casamento, recusando-o mesmo quando passa a viver com o amante rico Jacques Bietrix de Rozièr, que rende passagens no livro com questões ainda atuais em relação ao matrimônio, como quando sua mãe tenta lhe persuadir com “uma mulher não pode ser sozinha neste mundo”, no que ela rebate “sozinha ou livre?” e, posteriormente para sua irmã, “o casamento é o túmulo do amor”. Também foi sensível às causas das mães solteiras — um escândalo à época -, prostitutas e desempregados.
Contemporânea ao filósofo Rousseau, que inspirou os ideais da Revolução Francesa, muda-se para Paris. Em uma época na qual os escritos femininos geralmente se resumiam a escritos da vida doméstica, Olympe tornou-se dramaturga. Escreveu peças abolicionistas como “Zamore e Mirza” (1784), que foi encenada em 1789 e depois censurada pelo teatro da Comédie Française, além do ensaio “Reflexões sobre os homens negros” (1788) e da peça “A marcha dos negros” (1790).
Republicana, era, porém, contrária à dominação durante o período do Terror, logo após a decapitação do rei Luis XVI e liderança de Robespierre, de quem se tornou inimiga. Depois de escrever a defesa de referendo sobre três possíveis formas de governo (República indivisível, Governo federalista e Monarquia constitucional), Olympe foi injustamente acusada de fazer propaganda para reinstalar a monarquia.
Ao mesmo passo que consegue ser de uma leitura fluida, a HQ, de tão detalhada (são cinco páginas de bibliografia pesquisadas por José-Louis Bocquet) oferece diversos tipos de leitura. É possível ler como uma novela biográfica de uma mulher revolucionária, assim como é possível destrinchar as contradições de um período cujo lema “liberdade, igualdade e fraternidade” inspirou as bases flutuantes da democracia ocidental e da ascensão burguesa.
GÊNERO — Ainda hoje documentos tratam homem como sinônimo de ser humano. A linguagem limitada é herança de uma história que observa as lutas de um ponto de vista privilegiado e que se traveste de “neutra”, quando na realidade falha nas diversas representações sociais.
Serviço
“Olympe de Gouges”, de Catel Muller e José-Louis Bocquet
Editora Record, 488 páginas
Preço médio: R$ 88
*resenha publicada no caderno Programa, da Folha de Pernambuco