Confissões de uma mente inquieta
[17/12/14]

Quadrinista norte-americana Ellen Forney investiga na HQ “Parafusos” a relação entre a dor e o processo criativo a partir de sua própria experiência
Para além dos gêneros autobiográficos e/ou de autoficção, há muito tempo existe uma espécie de fascínio em leitores ao se debruçarem sobre obras: o quanto há do autor ou da autora nessa narrativa? Em especial, quando são criações fortes e à sombra da melancolia, leitores superestimam processos criativos dos autores como processos sagrados, e criam arquétipos como o da figura genial, visionária e de mente sobre-humana. O detalhe importante: o “êxito” em pensar fora da caixa provavelmente seria alimentado — assim como alimenta — pelo transtorno psicológico.
O “mito do artista louco” tornou-se a obsessão da quadrinista norte-americana Ellen Forney, hoje com 46 anos, quando foi diagnosticada com transtorno bipolar, antes de completar 30. Com passe para frequentar o “Clube do Van Gogh”, a cartunista, que tem formação acadêmica em Psicologia, narra seu processo de busca por uma vida estável simultaneamente ao medo do embotamento com os medicamentos e põe à prova a relação entre criatividade e transtornos na HQ autobiográfica “Parafusos: mania, depressão, Michelangelo e eu”, lançada recentemente no Brasil pela WMF Martins.

Para analisar seus próprios processos diante de seus autos e baixos, Ellen pesquisa biografias de artistas e escritores como Van Gogh, Edvard Munch, Michelangelo, Sylvia Plath, Georgia O’Keeffe, entre outros. Uma de suas conclusões lhe parecia certa, em uma passagem do livro: “Às vezes parece que a dor é uma fonte de inspiração muito óbvia. De qualquer modo, a dor nem sempre é profunda. Às vezes é horrível e só. E tediosa”, reflete. “Sem dúvida, há coisas que podem ser tão profundas quanto a dor.”
Em uma narrativa que guia a uma trajetória de mais de cinco anos até achar, com sua psiquiatra, o tratamento holístico ideal — o coquetel de remédios e estilo de vida que lhe dão estabilidade -, Ellen concilia honestidade bruta com doses generosas de bom humor. Os recursos gráficos são essenciais à autora para canalizar no papel seus picos e quedas de humor, cujo tratamento inicial lhe é tão difícil quanto a própria doença.
Os quadrinhos, cartunescos ou realistas em reproduções fotográficas, também têm recortes de diários da autora, de seu sketchbook (caderno de rascunhos) e de uma matéria de jornal que produziu. “Uma das coisas que eu amo nessa linguagem é como o visual pode expressar o humor de uma maneira visceral. Para mania, eu usei um estilo débil e enérgico; para a depressão, mais rígido, angustiado e contraído”, diz a autora em entrevista à Folha de Pernambuco. “A maioria desses estilos são intuitivos, mas muitos são bem deliberados. Por exemplo, as fotografias dos sketchbooks: queria que funcionassem como peças de um arquivo e que leitores se lembrassem que atravessam uma história real.”
Também inspirada por duas autobiografias, “Uma mente inquieta”, de Kay Jamison, e “Visível escuridão”, de William Styron, Ellen afirma que a ideia do livro veio da ocasião em que ela se ofereceu como estudo de caso e, com isso, deu ferramentas para quem vive situações similares. “Eu não planejei realmente ‘Parafusos’ como uma terapia, mas definitivamente se tornou isso. Talvez a maior das catarses tenha sido depois que o livro foi lançado. Eu sempre costumava ser relativamente discreta em relação à doença, e ‘Parafusos’ foi uma grande saída de armário, me fortaleceu”.
Trabalhos
Lançado originalmente no ano passado, pela Fantagraphic Books, o livro também passa pelos processos de criação de outros quadrinhos seus, como “Lust” (2008). O início de “Parafusos” reproduz as fotografias que lhe serviram para composição de “Lust”, com quadrinhos sobre afirmação sexual, como a militância bissexual e queer.
LIVROS — Embora ainda desconhecida no Brasil, Ellen foi indicada ao Prêmio Eisner duas vezes e desde os anos 1990 publica livros pela editora Fantagraphic Books, em Seattle (EUA).
Serviço
“Parafusos: mania, depressão, Michelangelo e eu”, de Ellen Forney
Tradução: Marcelo Brandão Cipolla
R$ 39,90, 256 páginas, editora WMF Martins
*resenha publicada no caderno Programa, da Folha de Pernambuco