“Corpornô” mostra que o despudor é a alma do teatro
[31/10/14]

Uma das particularidades do teatro é a maior possibilidade de fazer de seu público um agente ativo em suas narrativas e na relação com as personagens, se assim for necessário. De um modo talvez tímido, essa relação se fez presente na última quinta (30), durante a abertura do festival Cena Cumplicidades, no Teatro Hermilo Borba Filho, quando o espetáculo “Corpornô”, da Cia Dita (CE), provocou um misto de fixação, riso e pertubação de seu público diverso, em quase duas horas de performances.
Antes de dar os primeiros trinta minutos, as esquetes, que se intercalam entre anárquicas e poéticas — pornográficas e eróticas, portanto? — não têm envolvimento com público que vá além de olhares dos dançarinos. É então no primeiro momento em que todos os sete bailarinos entram em cena — simulam orgasmos, se despem e intervêm com o público — que alguns casais se retiravam constrangidos. Difícil não lembrar certa velha citação de Nelson Rodrigues, em que diz que se soubéssemos o que o outro faz dentro de quatro paredes não nos cumprimentaríamos: quando a parede do teatro é rompida nesse caso, há quem se retire e há quem compre o jogo de cena e participe ativamente — o que não foi bem o caso de “Corpornô”.
Há de se lembrar que o estado já apresentou ótima receptividade ao tema, quando lotou em 2010 o Teatro Extádio, no Nascedouro de Peixinhos (Olinda), para ver a turnê “Dionisíacas em Viagem”, do Teatro Oficina de Zé Celso: deleitou-se, juntou-se aos atores e atrizes e literalmente se despiu em meio às cinco horas de ode a Eros, numa Grécia Antiga em cena. É claro que o contexto é outro, tanto a estrutura do Hermilo quanto o espetáculo proporcionam uma proposta mais minimalista.
Ainda assim, “Corpornô” é provocativa. Traz ternura durante uma cena de dominação, ao som de uma ópera de Maria Callas, entre uma senhora aristocrata e seu parceiro servil, bem como quando os sete corpos literalmente se deitam e rolam sobre os outros, enquanto os holofotes caem sobre seus genitais — mal vemos seus rostos, mas a suposta despersonalização não exclui a afetividade da cena.
Entre as simulações de sexo hardcore e a nudez escancarada, há espaço para o onírico, lúdico, obscuro e cômico. Como resposta imediata do público, houve olhares compenetrados, burburinhos, riso discreto e gargalhada, uma pequena esquiva durante as intervenções de simulação sexual — embora houve quem timidamente quis iniciar participação mais ativa — e maior participação nos jogos mais leves com o público.
Mais do que pensar no erótico ou no pornográfico, cabe pensar qual espaço é dado à performance e ao teatro e qual público está disposto a se formar.
*matéria publicada no portal FolhaPE, da Folha de Pernambuco