Da ironia à melancolia: o natal em suas manifestações

[24/12/14]

o personagem ebener scrooge, de “um conto de natal”. imagem: divulgação

A velha disputa entre o sentido religioso e o econômico do Natal parece dar a tônica maior do evento cristão. Comemorado uma semana antes de o ano se encerrar, a festa acaba por despertar indiretamente um sentimento de renovação e de revisão dos laços afetivos em pessoas que podem ou não ser religiosas e podem ou não ser consumistas. Aliás, se publicidade e religião dialogam entre si e criam uma espécie de imaginário natalino misto, aos moldes dos comerciais de margarina, o que sobra do tema às narrativas?

Uma pista será dada com a TV ligada, na qual um filme pensado para cortinar essas questões então natalinas, provável que uma comédia ou animação, certamente estará passando. Um deles pode ser o do Grinch, filme baseado no livro infantil “Como o Grinch roubou o natal” (1957), de Dr Suess. Mas bem antes dele e do cinema dar seus primeiros passos no início do século 20, o imaginário da figura ranzinza que odeia o natal é construída em cima de Ebenezer Scrooge, personagem de “Um conto de natal” (1843), do inglês Charles Dickens, que se torna alguém entusiasmado após o encontro com espíritos (literalmente, neste caso) natalinos.

Com todos os tipos de dispositivos artísticos, midiáticos e econômicos, o imaginário contemporâneo da festa foi pouco a pouco se modificando. Pode não ser extensa a lista da literatura sobre o tema, mas é influente. “O conto de Dickens é quase do mesmo momento do ‘Uma árvore de Natal e um casamento’ (1848), de Dostoievski, no qual uma garotinha aparece como ‘casamentável’ — e, desde ali, já se criticava o famoso ‘espírito’ do Natal, em que a festa e mercado se misturam. Um século depois, o vermelhão do Natal aparece com sangue: em Agatha Christie, com ‘O Natal de Poirot’ (1938); um multimilionário, Simeon Lee, aproveita o congraçamento natalino para exibir riqueza e sadismo face à família que ele domina — e assim convoca a morte”, analisa Lourival Holanda, professor de Letras da UFPE. “O ícone religioso esvaziou-se em clichê sentimental e depois, na modernidade, tornou-se produto midiático. Como produto, é preciso que de tempo em tempo seja reembalado, remodelado. E escritores estão atentos a isso. (…) O modo sangrento de Agatha Christie é pesado, mas o esquema dela é o mesmo de Dostoievski ou do Dr Suess: o capitalismo converte qualquer capital simbólico em cifra”, conclui.

Também não faltam críticas de autores mais recentes, como Carlos Drummond nas crônicas “Papai Noel às avessas” e “Organiza o natal”: “O Drummond de 1930 tem um visão desmistificadora desse Natal, falsa festa em papel brilhante; e que toca as pessoas, menos no coração e mais no bolso”, exemplifica Lourival. Para Anco Márcio Tenório, também professor da UFPE, “escrever sobre o Natal não é fácil”: “Parece que a crítica do Natal termina sendo um recurso para não se cair em obras lacrimejantes, de apelo fácil e de sentimento propagado pela publicidade, procedimentos constantes nas obras cinematográficas que tratam do assunto”, opina.

Para Anco, certas obras de fato se inscrevem dentro do que seria o melhor espírito do Natal (ainda que para corrompê-lo). Além das já citadas de Dickens e Drummond, para ele também estariam no corredor das obras que mais exploram o tema cristão os textos “Peru de natal”, de Mário de Andrade, “Conto de Natal”, de Rubem Braga, e “Baile do Menino Deus”, de Ronaldo Correia de Brito. Outras, no entanto, utilizam o evento mais como moldura para abordar temas humanos gerais. “Para falar da nossa contemporaneidade, creio que a peça de Ronaldo Correia de Brito seja a mais religiosa, além de inscrever o nascimento de Jesus dentro das tradições populares do Nordeste. Mas se você fala de a ‘Missa do Galo’, de Machado de Assis, e ‘Os Mortos’, de James Joyce, nós estamos tratando de obras que não estão falando desse espírito religioso que envolve e calça o Natal, muito menos da crítica ao espírito consumista, e, sim, de sedução (no primeiro caso), e das coisas que amamos que vão desaparecer”, complementa.

O amor, em suas manifestações melancólicas, alegres, nostálgicas ou abissais, também é um tema comum em narrativas que usam o evento como pano de fundo. Em alguns textos, aparece encapuzado como a morte (em suas versões sombrias e/ou ternas), como no já citado de Mário de Andrade, em “Natal na barca”, de Lygia Fagundes Telles, “Memória de Natal”, Truman Capote. “Talvez porque o Natal seja o momento de renovação da vida, mas também aquele em que lembramos dos que não estão mais entre nós”, diz Anco.

HISTÓRIA — O tema permeia a poesia desde a Idade Média, através dos poetas trovadores. Os clássicos portugueses, como Sá de Miranda, Gil Vicente e Camões também versaram sobre o Natal.

*matéria publicada no caderno Programa, da Folha de Pernambuco