De Jorge para você

É difícil falar com quem não quer ser encontrado. Jorge Pondres há algum tempo existia. Com potencial para trocarmos afetos, fomos preferindo estranhamento e o estrangeirismo de conversas virtuais e recados através de terceiros. Um dia, Pondres resolveu quebrar o gelo e fazer uma nevada — bebida que é devoto, embora tenha casos com a vodka pura que lhe destrói a úlcera — e me recebeu em sua casa. Na rua da Aurora, centro do Recife, o foco resolve cair em duas pessoas.

Você não me apresentou a ele. Desculpa, Jorge é reservado. Desconfiado com os próprios amigos, até. Tem uma roda pequena e pronto. Tem medo de pesar os amigos, ele é meio estúpido nesse sentido. Eventualmente, o acaso faz ele estender o ciclo. Eu olhei assustada e visivelmente insegura se mudava a direção do passo. Ele percebe e ri. Olha, não fica assim, ele teve vontade de ver gente hoje. De verdade, ele sabe ser animado. Disse que tirou a vodka do freezer há pouco. Você gosta de vodka? Não, acho quente pra cidade. Ah, desculpe avisar, é só o que Jorge bebe. Hoje, ele pegou leve, porque quando você congela, ela fica cremosa. Mas não suporto quando ele a toma quente, rasgando. Depois disso, ficou em silêncio enquanto entrávamos naquele prédio velho número 175.

Lá estava Jorge. O homem com um pouco mais de um quarto de século (embora me jurasse ter só 25 anos mesmo), de bigode espesso e queixo cinza. Atendente de telemarketing na Contax, da Boa Vista. Tem estudado dia e noite para passar no curso de Arqueologia da UFPE. O olho atento de café e aos traumas de tentativas de furto que o corpo ou a vida frágil o entregou aos assaltantes durante madrugadas desprotegidas “Não acontece há algum tempo, graças. O problema foi tentar ajudar algumas pessoas também”. O apartamento, onde vive sozinho há sete anos, tem mobílias antigas e foi comprado com a herança da avó, a única com quem dizia se relacionar bem na família. Dois quartos, dois banheiros e esta sala que conforta minha bunda no sofá antigo de couro entalhado. Meu amigo reclama do espaço — eu, que mal conheço Pondres, acho suficiente. Não consegui disfarçar meu incomodo com a iluminação amarelada. Pondres percebeu: “Vamos para a varanda? Não troco a vista daqui por nada no Recife”.

Jorge oferecia sua especialidade, a nevada de tangerina. Você pode tomar, Jorge? “Claro, a H. Pilory está sob controle”. Eu precisei de vinte minutos pra presenciar a maré de tranquilidade de Pondres subir furiosamente. A voz calma da entrada deu lugar a uma exaltada, disléxica e quase tagarela. Ao lado do cômodo onde ficavam seus filmes clássicos, um porta-retrato da avó, primeira residente do local na família Pondres, cujo AVC pôde não ter roubado seu último suspiro, mas vitalidade suficiente para deixá-la prostrada na cama durante anos. “Tinha onze anos quando isso aconteceu. A vi secar aos poucos. Lembro-me como se fosse ontem. Acordei com a notícia, espiei pela fresta da porta, lá estava: seca”. O assunto, que chegou rapidamente, foi constrangedor principalmente a ele mesmo. Percebendo o que fez, deu um gole grande e pediu fogo. Fogo em mão, marola nos olhos.

“E você, qual sua religião?”, eu disse ser ateia, embora não fosse, e então desconversava; não tinha bebido o suficiente pra engajar no nível de conversa embriagada que o Pondres procurava. “Ainda fiz a primeira comunhão. Durante as aulas do catecismo, depois que rezávamos o pai nosso, ave maria e santo anjo, sempre dormi quando começava o ‘Deus pai, todo poderoso…’”, o riso discreto crescia num riso debochado, “A professora dizia que eu não era de Deus. Minha família toda, na verdade, só se torna praticante na promessa”. O riso amarelado e de dentes separados pelo vício da nicotina cuspia frases para manter-se aberto. Quando dizia que costumava ver o diabo em carne e osso durante as madrugadas — que percebia ser uma árvore quando a claridade batia — a testa enrugava e a sobrancelha se arqueava para baixo; os músculos do rosto entravam num movimento para conter o sorriso vazio, no que Jorge acabou cedendo.

Por sorte, a voz de Nara Leão junto a de Erasmos Carlos saem do toca-discos e irrompem os silêncios de Jorge “Me desencontre, não me prostitua/ Senão seremos mais uma carcaça em desgraça por aí”.

Meus amigos são um barato e o … E que tudo mais vá pro inferno eram uns dos discos que não saiam do toca-discos nas últimas semanas. Seus dentes parecem com o de Nara, inclusive. No entanto, o que realmente não faltava na estante era Maria Bethânia. “É lindo o modo e as emoções com que ela costura música e poesia. Me sinto na plateia de uma peça muito densa. É sempre catártico” e, em seguida, puxa um Cantar de Gal Costa “Gosto dela. Mas acho que tem uma verdade na voz de Bethânia que deixa Gal meio ridícula. Refém da beleza, sabe. Enquanto Bethânia está em cárcere privado com o sentimento para sempre”. Jorge só precisou pedir licença, por favor, para ir ao banheiro para que meu amigo o entregasse “Estive em dois shows dela com ele. Chorou muito em Maninha, nunca me disse por quê”.

Jorge fala muito do apartamento em que se confina, quase o personalizando. A sua melhor companhia e a quem nunca deixou de ser apaixonado é a altura deste aposento durante um amanhecer nesta Rua da Aurora. A segunda é uma pessoa de fato, um amor outro. Só que nem sempre ambas valiam a pena. “Há dias em que minha honey baby é só dor” e terminava, com a voz sábia do mal tratado, “Escute isso, rapaz, o amor é menos jazz e mais o que se houve em atropelamento”.

Jorge fala paradoxalmente dos amores que o destruíram mas o construíram como ele é hoje. Não por acaso, o apartamento é seu relacionamento mais estável. Talvez dispute atenção apenas com seu caso aberto com a Rua da Aurora ou com os escritos que faz eventualmente. “Jorge faz tudo sozinho e acaba se atropelando, só para não envolver ou fazer sofrer quem ele ama”, diz seu amigo que dividia o sofá e a nevada comigo. Pondres aproveita a distração alheia de seus visitantes pra mudar o fundo musical. Se dá de frente com o disco Pássaro Proibido, de Bethânia. Passa um tempo admirando-o até soltar, quase como quem fala somente a si próprio, que adoraria receber de um amigo um disco antigo, talvez um livro, em que haja alguma dedicatória anônima cheia de afeto. Em seguida, leu a que tinha em mãos “Com certeza Maria Bethânia neste disco expressa toda sua emoção, sensibilidade e romantismo. Por isso dedico-o a outra Maria, minha mãe, que sabe também expressar tudo isso como ninguém… Seu Lírio! Dez, 88”. Jorge explica que sua mãe é também Maria e tão anônima quanto a da dedicatória. O que mais acalenta o coração ateu é constatar que os afetos sabem ser tão infalíveis quanto o sol que nasce todo dia em sua varanda.

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