Fãs não se desapegam de séries
[19/04/14]

Relembrar algumas obras interferem diretamente com o imaginário afetivo dos espectadores
“Aqui sempre foi roxo?”, dizia Joey, no último episódio de “Friends”, diante do vazio do apartamento (um dos principais cenários da série) que ficava próximo ao café Central Perk, em Nova York. Em maio de 2004, 52,5 milhões de pessoas nos Estados Unidos acompanhavam a cena — reunindo amigos ou não — em que Monica, Chandler, Rachel, Ross, Phoebe e Joey deixavam suas chaves em cima da mesa e entravam naquele apartamento pela última vez. Em defesa da imensa distração de Joey, revisitar um antigo lugar do nosso imaginário afetivo é sempre encontrar algo novo no presente: mas aqui sempre foi roxo?
Quando se assiste a algo consumido há anos atrás, essa interação parece convencer o próprio corpo de, finalmente, reconhecer a relação às vezes esquecida do nosso passado como agente ativo em nossa construção. Muito mais do que a ideia de nos apegarmos ao sentimento nostálgico de querer pertencer a um passado utópico, relembrar a cultura que consumimos é olhar, com afeto, para o que fomos e o que consideramos como porvir. Justificável, então, que desde o fim de Friends, todo ano há rumores de que a série irá ter um filme. Mas o sucesso da série — 63 indicações ao Emmy e as atrizes mais bem pagas com record no Guiness Book (US$ 1 milhão por episódio nas duas últimas temporadas) — não convenceu a produtora Marta Kauffman de que continuar aquela narrativa faria sentido.

As continuações em muitos casos, e por diversos motivos, não fazem sentido à crítica e, principalmente, aos fãs. Para a jornalista Laura Atanasio, o fim de “Friends” não foi bom, o que ela credita ao spin-off “Joey”. “Eu não sou a favor de spin-offs, mas assisti ‘Joey’ pra ver no que ia dar. No fim de Friends, cada um foi pra um lado. E me parece que a série teve que se encaixar de uma forma que justificasse o fato de que os personagens não apareceriam na vida de ‘Joey’”.
No entanto, muitos preferem assumir o risco e serem entusiastas de uma continuação, principalmente se o fim da série “dá corda” para isso. É o caso do estudante Renato Neves com Arquivo X — sci-fi que iniciou em 1993 e seguiu até 2002 com dois filmes (um em 1998 e outro em 2008) e um suposto longa que seria lançado em 2012 e daria continuidade ao fim da série. “Há a última frase ‘talvez haja esperança’. É bonito, porque finais em aberto são interessantes… Mas há todos os elementos para uma história final e interesse do criador e dos atores, inclusive. Mas o filme de 2008, como um episódio standalone (independente), foi tão ruim que não rendeu mais”, afirma.
Ainda caminhando pelos anos 1990, “Buffy, a caça-vampiros”, e “Sex and the City” têm o mérito de mostrar — ainda que da maneira incomparável entre elas — personagens femininas marcantes. O arquiteto Filipe Tavares tem uma relação grande com “Buffy” (série e quadrinhos), que envolve o crescimento da série junto a sua educação sentimental e consequente confiança pelo diretor Joss Whedon, também diretor dos Vingadores. “Cresci junto com a série. Naquela época, o orçamento era muito menor e autores de séries eram considerados ruins — o que é completamente o oposto hoje”, reflete.
“Joss adora quadrinhos e personagens femininas que não são secundárias ou donzelas. Hoje a discussão sobre modelos femininos fortes está em alta, mas na época ninguém dava valor a isso. Eu me identifico com as analogias que a série faz, além das evoluções dos personagens fiéis à narrativa ao longo dos anos. Gostaria muito que tivesse um filme, mas com o mesmo diretor, e que não fosse algo que aconteceu com os filmes de ‘Sex and the City’, especialmente o segundo que não acrescenta nada e só há interesse financeiro”, continua Tavares.
Como exemplo atual, a publicitária Mirian Souto Maior não tinha grande interesse em séries, até acompanhar “Breaking Bad” até seu fim, em setembro do ano passado. “’Breaking Bad’ realmente mudou minha visão para as séries de TV. Há um misto de sentimentos que passa pelo espectador ao conhecer cada personagem mais a fundo. Até os normalmente odiados, tipo Skyler, eu costumo amar demais. Sobre Better Call Saul (spin-off a ser lançado em breve), acho que não tem como ser realmente negativo. É sempre uma adição ao que a gente ama”.
Lista de revisitações na TV é cada vez maior
Na contramão, a lista de personagens de filmes que ganharam suas séries também cresce. Bates Motel, Hannibal, Um Drink no Inferno, Terminator: The Sarah Connor Chronicles, entre outros. Por que nos interessamos tanto em revisitar?
Segundo Rodrigo Carreiro, Professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPE, a nostalgia é apontada por muitos pensadores contemporâneos (ou pós-moderno) como Jean Baudrillard e Fredric Jameson, para abordar mudanças constantes, de gostos estéticos a tecnologia, da qual o ser humano não consegue ter uma experiência sensível estável. “Uma das válvulas de escape naturais desse caos que nos rodeia é a nostalgia. E não a vejo como algo intrinsecamente positivo ou negativo, já que todos experimentamos”.
André Antonio, Doutorando em comunicação e cultura na UFRJ, cita a concepção do teórico pós-moderno Fredric Jameson para concordar com o autor quando diz que a cultura pop é extremamente nostálgica e, ao mesmo tempo, fala do presente. “A nostalgia tá ligada ao espectador, ao fã. Não acho certo dizer ‘Ah, a cultura de massa tá sem ideia com essas revisitações do passado’ ou ‘a nostalgia é conservadora’. A questão é não fazer mais do mesmo pra não criar ruído. Os Flinstones, por exemplo, se passa na pré-história mas há um estilo de vida contemporâneo — famílias heterossexuais, animais domésticos… — e não da época. Então é desinteressante, porque só reafirma valores normatizados do presente”.
Para além do conteúdo nostálgico dentro da série, André afirma que o fenômeno cultural das revisitações se acentuou no fim dos anos 1980: “É interessante, Friends em si não tem nada de nostálgico. Existem fãs que têm nostalgia dos anos 1990, porque gerou certa sensibilidade na época. Começaram a surgir sites que produziam encontros, homenagens, fan-fictions, toda uma cultura consequente desses seriados”.
A lista da cultura de revisitações é grande. No momento de produção desta matéria, por exemplo, não faltaram pessoas para lembrar como tal personagem é significativa e para que tal série não fosse esquecida. É impossível citar todas, mas deu para perceber: sempre teremos as chaves na mão para revisitar os apartamentos de nossa memória afetiva.
*matéria publicada no caderno Programa, da Folha de Pernambuco